Dito isso, sinto-me leve para contar o que de tão maravilhoso pode acontecer em três dias de camping que possa justificar esse desprazer e alguns outros incômodos inerentes.
Estávamos sobre o chão e sob o céu. Assim que levantamos, tocamos a grama molhada e vivemos as cores do amanhecer, dessa vez tons de cinza. Lindos tons de cinza com espaços cada vez mais brancos e que foram abrindo buracos de janelas azuis e a chegada do sol. O rio que ontem era transparente, estava cheio e barroso. Os meninos viveram o rio logo depois de comerem um pouco de laranja lima, iogurte natural batido com morango e bolo de cenoura com brigadeiro. Na beira do rio tinha um balanço, onde primeiro sentaram e só colocaram o pezinho na água. E de pouco em pouco ficaram, "sem querer", ensopados dos pés aos cabelos e roupas e tudo. As risadas eram as mais encantadoras e mesmo que eu tivesse apenas aquela roupa, teria valido a pena.
Banho, balanço, brincadeira. Aos poucos o dia foi acontecendo enquanto todos acordavam. A segunda parte do café da manhã foi de pão e corpo, conhecendo gente e contando história. Quem dormiu bem, quem dormiu mal, vivências, gente que usou o mesmo prato que eu no dia de ontem. Partilha de geladeira, fogão e utensílios, de vida, compartilha, convive. Talvez nunca mais nos veremos, mas no café de hoje somos uma família. Não temos a intimidade nem pro bem nem pro mal. Ganhei goiaba do pé da casa deles e carreguei o celular com o carregador dele, que encaixava na tomada, já que só levei carregador de pino chato. No dia das crianças outro grupo distribuiu doces e chamou pra brincadeira de sabão na lona. Não que eu goste disso em si, mas gosto desse viver junto sem hierarquia. Das diferenças postas mas que criam laço. Na arte de comungar de um tempo juntos.
Fizemos um almoço simples e delicioso, apesar do que cada um leva, existe troca. E assim enriquecemos nossa alimentação que também tem algo de encontro. Eles aprenderam que requeijão com alho é uma iguaria super simples de ter à mesa. E olhando com compaixão nossa guriazinha com o rosto picado de mosquitos, me ensinaram a fazer repelente natural com cravo e canela. Vou tentar!
Secamos todas as coisas para um descanso merecido.
A noite daquele dia foi mais desafiadora pra mim. O mais novo tinha sono e foi dormir num horário ótimo. O mais velho tinha mais vontade de brincar que sono e me prometia avançar madrugada a dentro. Junto das outras crianças, correu muito, eles fugiam, se escondiam. Lanternas faziam seus rastros ou anunciavam presenças. E gritos e risadas! Eu fiquei velando meu pequeno, que dormia pleno na barraca. O mais velho ia e vinha, com outras crianças e outros adultos. Olhei por ele menos do que gostaria. Dentro de mim um misto de realização por sua alegria e liberdade mas também uma sensação de risco, de estar abrindo espaço para que coisas nem tão boas assim chegassem até ele. Orientei, confiei nos quase nove anos de ensinamentos e curti aquele momento tão sublime que ele estava experienciando. Chegou em casa contando tudo com brilho nos olhos. Eles receberam, no domingo, um dinheirinho para irem comprar cebolas pro almoço. Foram em um conjunto de quatro crianças. E poderia ser só isso, mas era tudo isso. Essa experiência foi relatada com muitas palavras e ampla gama de viviências. Apesar da autonomia, ainda eram crianças indo comprar cebola. Tão simples, tão possível, tão raro.
No último dia, fomos acordados às 5 com a vontade do pequeno de fazer xixi e a sinfonia de passarinhos. Tentei que ele dormisse de novo em vão, o que acordou o mais velho. Embora ele não tenha aguentado ficar até a madrugada, foi dormir tarde. No último dia vivemos música, circo, rio, encontros, arrumações e voltamos pra nossa casa. Querida e confortável casa, com meu marido, pai dos meus filhos, dentro. Que maravilha! E quanta vida levo pro meu próximo ano aguardando pelo Festival Ypuca.
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