quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Viola no saco ?

 Sempre encaro situações de embate com alguma dificuldade. E sigo observando o mundo com interesse para ver se aprendo algo de novo e me posiciono na vida de forma mais interessante.
Houve um tempo em que eu trabalhava com a hipótese de um modo certo. Eu sempre fui boa na argumentação e em conquistar posições a partir da empatia do outro. Mas também sempre me encantei de alguma forma com quem se impõe e deixa o outro sem alternativas que não a de atender àquele pedido, um lugar justo e devido. As duas formas falham e venho acreditando que há situações em que cada uma dessas versões ganha mais espaço. E aí tem dois problemas. Um é que, quando você aposta num caminho, dificilmente você consegue ir pro outro na mesma situação. E o outro é, para mim, sustentar um lugar de poder e de exigência diante do outro.
Hoje vivi uma situação intensa pra mim. Está começando o tempo quente e depois do almoço fomos pra cachoeira, uma grande alegria. Ficamos lá sozinhos por um tempo e chegaram dois homens depois. Um deles, mais simpático, entrou na água, brincou com a gente, desceu escorregando com a nossa garrafa. O outro ficou aguardando. O lugar onde ele aguardava caia água de quem descia escorregando. E meu filho desce escorregando muitas e muitas vezes. 
Teve alguma dessas descidas em que a felicidade do Davi foi proporcional às queixas do cara, que levou uma aguaceira nas costas. Ele estava num local inadequado pra quem não queria se molhar... Eu o ouvi esbravejar, irritado, e perguntei se ele estava reclamando. Falou enrolado, me respondeu meio atravessado e a minha vontade era a de entrar na mesma energia dele, colocando-o em seu devido lugar. Mas me vi ali: uma mulher sozinha com duas crianças numa cachoeira sem mais ninguém. Ele, acompanhado de outro homem e de uma garrafinha de cachaça... Imediatamente recuei da minha posição de tentar reivindicar o meu lugar e parti para o absurdo oposto: perguntei se ele queria confusão pois eu não queria e, se fosse o caso, me retiraria com meus filhos. O outro rapaz imediatamente se solidarizou e foi convencendo-o a ir embora.
Pudemos brincar por mais um tempo sem eles e quando fomos embora a garrafa de cachaça estava vazia no nosso caminho, mais um sinal de como ele se coloca: sem respeitar os espaços, as pessoas e o próprio mundo em que habita. 
E é com essas pessoas que é um desafio se relacionar. Elas são muitas. Enquanto eu sou só uma mulher no mundo. Uma mulher que leva os filhos pra se divertirem numa tarde quente na cachoeira. E que se apraz de observá-los subir e descer infinitas vezes, nadar e pular, colocando a viola no saco, disposta a dizer a eles: vamos embora porque aquele moço quer confusão e eu não. Eu não quero ser a pessoa que briga, mas eu quero saber brigar se for preciso.

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