quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Arriscando vida

 Sozinha, sozinha. O silêncio me acompanhou. Caminhando e percebendo o medo de não estar só. Quando estamos realmente sós?
Quando eu era mais jovem tinha medo de levar o lixo no meu andar do prédio. Eu ia até a lixeira e quando virava de costas a sensação de que alguém me perseguia era forte demais. Cheguei a correr, outras vezes conferia se vinha alguém e, com mais confiança, conversava mentalmente comigo mesma que aquilo era uma criação minha, me obrigando a não conferir nem correr. Conseguia, fechando a porta com coração acelerado. Esse medo me acompanha muito menos intensamente. 
Já tem um tempo que penso subir montanha sem depender de companhia. E assim já fiz e amplio minhas experiências. Hoje subi o Cortiço. 
Essa montanha fica num bairro bem povoado, o acesso é muito fácil e a trilha curta. O dia não estava muito bonito e, por isso, eu não esperava encontrar nenhum montanhista por lá. Tudo estava muito úmido, o barranco vermelho exposto, logo me preocupei com acidente. E se caio? Escorrego? Pouco pra dentro da trilha eu já vivia o verde intenso e a sensação de estar longe da civilização. Mas os sons de cachorro eram muito altos e eu, que tenho medo de cachorro, comecei a pensar se aqueles insistentes latidos não eram mais um sinal pra eu não subir. O medo vai contando umas histórias trágicas ao pé do ouvido. 
Segui subindo. Parava, olhava, pensava pontos de esconderijo caso eu escutasse gente descendo. Me perguntava se estava valendo a pena... Apesar de seguir, de vez em quando parava para refletir e conferir algum barulho, já que os latidos tinham ficado pra trás. E ali, tão sozinha, eu apenas parei pra escutar. Faltava silêncio. Eram muitos pequenos barulhinhos em vários pontos da floresta. Não estava só. A floresta é viva. Não era por isso que eu estava ali? Ouvi por um tempo os muitos poucos sons que aconteciam naquela largueza verde ao meu redor. Até que, de repente, ouvi um piado alto, canto de pássaro bem localizado. Segui minha caminhada na direção dele, seguindo a trilha pra cima e, passando, deixando o som dele pra trás. E resolvi que ia, que o risco valia a pena. Pensei na morte digna. Cheguei ao cume, nenhuma pessoa, nenhum bicho, nenhum perigo real. E desci sem  encontrar pessoas, sem bichos e sem perigos. Não tropecei, fui atenta também às pedras. Os sons já não me tocavam tanto e sentia o silêncio da floresta. 
Cheguei com a missão cumprida: viva, vivíssima!

Nenhum comentário:

Postar um comentário