quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Processo de escrita

 Escrevo pra mim. Desde que comecei a escrever eu quis escrever. Quem quer escrever tem algo a ser registrado.
Escrevi e mostrei pro meu pai, pra minha mãe, pras professoras. Meu pai tinha um defeito grande que era apontar os problemas. Então, se algo está muito bom mas tem um detalhe que pode ser aprimorado, ele aponta o detalhe. E nada mais. E se tem muito a ser aprimorado, ele tem muito a menosprezar. Minha mãe hoje valoriza meus escritos. As primeiras lembranças que tenho das leituras dela são as lágrimas. Mas não lembro desse processo incial de escrita. As professoras corrigem e dão nota. Corrigem e dão nota. Eu sempre gostei de fazer as redações apesar disso. 
Escrever me localiza. Depois olho pra mim num tempo e espaço. Leio minhas passagens, sinto com vivacidade o que me atravessava. Bem eu que não lembro de tanta coisa. Sinto e isso me conecta com esse eu que é uma construção no tempo.
Durante muito tempo escrevi pela minha solidão. Divido comigo mesma o que transborda. E troco com minhas próprias palavras buscando que outras apareçam para que haja uma travessia: começo, meio e fim. Mas muito mais meio. Eu quero chegar em algum lugar, quero caminhar pelas palavras que me ocupam. 
Hoje eu não sou tanta solidão. Sigo sendo bem esquisita, um pouco fora da curva, procurando a curva e seus limites. Mas há quem olhe pra mim, quem goste dos meus descaminhos e torça pelas minhas conquistas. E sempre que me aproximo eu vejo que a matéria prima é parecida. É do humano. 
Queria falar, comunicar, ser ouvida. Quando adolescente me perguntava como se fazem os amigos. Fiz amigos e amigas. E eram mesmo. Não deuses, amigos. Confiei que eram mesmo amigos. Não deuses, embora eu os endeuse. Os deuses de carne e osso. Decifrei um pouco dos afetos. Não é a toa que escrevo sobre as relações, os amores, os deslizes, as faltas... Tudo isso que somos nós. E um pouco confusa entre a qualidade do que escrevo e a qualidade do que sou, arrisco um partilhar. Do que sou e do que produzo. Ainda que isso não determine quem sou ou o que produzo. Mas falo contigo, confiando no afeto. No meu mesmo. Desconfio que eu não seja assim tão deslocada. Que a curva seja turva pra todos nós e torço pra que nos encontremos na esquisitisse e na falta, nossas mais sinceras verdades.

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