Sozinha nunca estava. O medo era meu fiel companheiro. As vezes mais discreto, às vezes barulhento, apostava na vida porque era o jeito. Vida, perigosa vida, me oferece a morte no seu avesso.
Apostava na morte, caminhando sozinha, quem sabe? É preciso dar chance pro azar. Quantos fins imaginários podem sustentar nossas práticas... Mas mesmo que haja possibilidades de não-ser, termino minha aposta viva, com vida, e tendo vivido um pouco do que tangencia a morte: entre o horror e o belo.
Vivi mortes em vida. Abandonos, solidões, crises, mordidas, desencontros, perdas, despedidas, faltas. A vulnerabilidade é uma conhecida da qual quero distância. Apesar disso quero ficar velha. Só não fica velho quem morre novo.
Eu queria que a vida fosse uma escada ascendente. Com isso aprenderíamos muito, cresceríamos e morreríamos bem. Mas, se existe uma escada a subir, alguns sobem na escada do entendimento da vida e aceitam mais resignados ou resilientes as suas condições e intempéries. O fim da vida é apenas o fim da vida, merece tanta dignidade quanto os outros pedaços. Dignidade que nos preenche e nos falta ao longo do percurso.
Com sorte teremos aproveitado os momentos em que encontramos pares, as alegrias pontuais e belezas fugazes. É o possível e precioso ar da vida.
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