terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Insuficiência

Não fui o suficiente. A vida segue morrendo apesar de mim. 
Eu me tornei suficiente: vivo apesar da morte. Ela me persegue. E rio, brinco, eu arrepio! Eu morro um pouco, eu vejo a morte. Eu vejo beleza na tristeza da morte. Também choro... E vivo!
Não sou auto-suficiente porque preciso dos outros, dos olhares, das escutas. Preciso ouvir, olhar, estar junto. Eu gosto do encontro, ainda que seja sempre parcial. É uma parcela de vida e que me interessa.
E entre não ser o suficiente mas ser algo suficiente, danço, não me entregando nem ao desespero nem à cega esperança. Aposto. Invisto. Me visto de uma disposição de viver.
Interrogo os olhares que me vêem. Vários sorriem pra mim. E quanto aos olhos que choram ao meu redor? Avalio minha posição. O que posso fazer por eles? Não quero mais me enroscar nessas lágrimas. Caída na lama por não tê-las segurado... Por não ser o bastante. De fato não sou, mas essa também não é mais a minha função. Me eximo de salvar o mundo. Me eximo de dar conta dos restos que não me pertencem. E me salvo em minhas próprias lágrimas, das quais ninguém jamais há de dar conta.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal

Eu não queria querer um natal farto
Eu poderia não fazer questão das rabanadas
Eu não preciso salvar as gemas fazendo quindim 
Muito menos agradar meus filhos com musse de chocolate

Eu poderia não ter sido atravessada por natais com aquele pernil delicioso, com som de sotaque paulista
Eu não faria um empadão de palmito para que meu companheiro tenha algo sem carne para agraciar o prato
Nem dois tipos diferentes de feijão, um deles com carne prestigiando meu sogro 
Poderia não aliviar minha mãe da maior parte dos afazeres ou auxiliar minha sogra

E eu não teria o trabalho que o Natal me dá 
E não teria uma comemoração de Natal 

Natal, data vazia 
Data de Deus, de presentes, de hipocrisia 
Corrida em lojas, em mercados, olhando pra pobreza
Dos que ficam na porta das lojas
Minha mesmo, que não entro em tantas delas e compro preocupada com a conta do cartão 

Natal que não une as pessoas 
Que cria guetos e intrigas
Que tenta definir quem são os seus
Natal: data de família 
A família que temos, que tínhamos, que teremos 
Natal para poucos, cheio de graça 
Às vezes tão sem graça 

Natal de excesso de trabalho pra uns 
E de ususfruir para outros
De arrumar, limpar, lavar e cozinhar
De aguentar ansiedades e seus efeitos 
De precisar de descanso
Cansada estou do Natal 
Mas não faz mal... Falta pouco para acabar
E mais um pouco a "comemorar"

sábado, 20 de dezembro de 2025

Tristeza

Tristeza não tem fim, felicidade sim. 

É a luta da vida: cada adulto com seus problemas. Problemas, muitos problemas. Problemas maiores ou menores são sempre muito valorizados, tomam as pessoas. E as crianças, cada uma com seus problemas, quanto mais protegidas, menos vislumbram as dificuldades que as circunda ou as espera.

E é uma tristeza característica desse tempo. Tristeza muitas vezes medicada e tornada opaca. Hoje opaca era eu, e minha tristeza, viva. Num momento meu pequeno me olhou. Perguntou se era sono, se era cansaço... Não cogitou que era tristeza. E dizer cansaço não está de todo errado. Às vezes a gente cansa.

Na minha exaustão olho o entorno, entristecido. Estarão todos preocupados? Todos atravessando dificuldades? Será a alegria mesmo tão pontual? Tempo de viver e resolver os problemas da vida.

Para além da arte, da palavra e dos momentos de desfrute, que será a vida da gente senão uma montanha de problemas a serem vencidos? Que o cume tenha bela vista, pelo menos... Quero aprender a vislumbrar beleza também nessa caminhada.

Sem luz

Fica dia e fica noite. Todo dia, dia. Toda noite, noite.

Hoje fiquei sem luz e por isso pude ver a luz da noite. As estrelas sobre mim todos os dias por ali, não as conheço, não identifico senão as três marias e o cruzeiro do sul. Depois soube que as três marias são o cinturão de Orion. E com sorte mais um pouco identificarei as demais estrelas dessa constelação.

Não vejo a lua. Onde estará? A noite é escura, mas nem tanto. Há de ter a fonte luminosa da noite. As estrelas lá estão, procuro seus rastros. Esse ano perdi Perseidas em dezembro. Sinto muito por mim. 

Vejo as nuvens vindo, baixas, acariciando a montanha pela lateral. Turva um pouco do meu céu. E pro lado das nuvens piscam uns vagalumes discretos. Bem mais fortes que eles, carros passam rápido pela estrada causando rápidos e fortes rastros luminosos. 

Me falta luz mas não celular. Tenho lanternas carragadas e fogão para aquecer minha água do banho. 

Quando falta luz, a luz que não falta aparece. A luz de todo dia, de toda noite. 

Assim como "amanhecer é uma lição do universo", provavelmente anoitecer também é. Quando anoiteço preciso procurar a luz possível, sejam rastros, sejam estrelas e, melhor ainda, se houver lua. A luz que ilumina minha escuridão e faz com que haja beleza nos momentos de trevas. De algum modo me acompanha até que eu adormeça e possa aguardar novo dia, iluminado.

Nossos momentos de escuridão, repletos de medo e às vezes desespero, por vezes são tão fugazes quanto as alegrias. É um tempo, é uma travessia e um atravessamento. Sabendo respirar e dar os contornos necessários, construímos nova realidade, novos valores, novo olhar sobre a noite. 

As noites sem lua pedem de nós maior recolhimento. As noites com lua nos permite enxergar melhor do que imaginávamos. Há quem confie nos olhos da alma. Eu prefiro contar com as luzes possíveis e confio nos meus olhos mesmo. 

A luz voltou. E é sempre assim. Uma hora a luz volta. Se demorar podemos perder os alimentos da geladeira... Mas é preciso saber atravessar os períodos sem luz.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Contingências

Assaltado. Levado pela enchente. Caiu da laje. Afogado. Atropelado. Soterrado.

Tragédias acontecem. 

Vamos repassando o horror para que todos saibam, para que todos vejam, para que todos sintam. 

Alguns sentem muito: optam por não ver.
Alguns sentem muito: choram, se enlutam, repassam.
Alguns sentem pouco: estão anestesiados.
Alguns sentem pouco: não acreditam ou culpam alguém.

E aqui estamos.

Em dúvida se continuaremos nós e os nossos ilesos e por quanto tempo. Eis uma questão: se os acidentes ou atrocidades não nos levarem, serão as doenças ou a falência do corpo. Tem algo desse anúncio que na verdade é a realização de um fim único. 

Não que o tempo não faça diferença. Faz. Queria eu que meu pai tivesse durado mais. Durou menos. E o que o levou não foi uma bala, uma enxurrada... Foi uma doença. Poderia ter durado mais e foi só até aquele dia. 68 anos e não 69, 70, 71... 68, precisamente. Foi o seu tempo. Tenho 39 anos. 39 já me foram garantidos. Estimo que chegarei aos 40, mas garantias não temos. Há sempre fatores externos, do horror. E o desespero ao olhar pro fim em nada prolonga ou melhora. Pelo contrário! Viver sabendo da morte para viver melhor. Viver com medo da morte é viver pior. Viver enquanto se vive é o possível e o impossível de estar aqui.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Cabelos brancos

 As mulheres têm assumido os cabelos brancos. Não me esperaram sustentar essa imagem em mim, como planejo há muitos anos. Meus cabelos brancos estão atrasados, é meu corpo me enganando sobre minha juventude. 
Algumas lindas amigas têm cabelos brancos aparentes. Eu as observo admirada. Observo a pele, o olhar, a presença e o contorno dos cabelos, alguns longos outros curtos, com os brancos ali, marcando posição no mundo. "Eu, mulher, tenho exatamente esses cabelos. É assim que sou". E reparo bem que às vezes os brancos diferem um pouco dos coloridos, tem uma forma outra, mais velha talvez.
Poderiam escolher a aparência mais jovem. É uma verdade que os cabelos brancos envelhecem? Ou seriam os cabelos pintados que rejuvenecem? Uma juventude que anuncia estar ficando para trás.
Eu tenho poucos cabelos brancos. Meu esposo com a minha idade já era bem mais grisalho que eu. Mas ele é mais velho desde que era criança. Nele os cabelos brancos chegaram cedo. 
Sinto-me jovem, algumas vezes bem mais jovem do que a realidade. Estou a caminho dos 40 anos, acho que os 40 anos que estão me perseguindo. Tão despreparada pra vida e ao mesmo tempo tão vivida. Há algo em mim, da minha história, que conta um percurso. Sou vívida em mim e nas minhas conquistas. E que fique claro que conquista não é ser medalhista de nada, é conseguir alguma sistematização sobre a travessia e seus atravessamentos.
Quando meus cabelos branquearem quero colorir de outras cores. Pensei em ser mais ruiva, pensei em serem azuis, e talvez nada disso. Estou envelhecendo pouco, meus cabelos não são brancos. E os cabelos delas, que não são meus, estão ótimos, em paz. Como será que elas se vêem? São belas, são elas! Bem assim.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Arriscando vida, sob outro ângulo

Sozinha nunca estava. O medo era meu fiel companheiro. As vezes mais discreto, às vezes barulhento, apostava na vida porque era o jeito. Vida, perigosa vida, me oferece a morte no seu avesso.

Apostava na morte, caminhando sozinha, quem sabe? É preciso dar chance pro azar. Quantos fins imaginários podem sustentar nossas práticas... Mas mesmo que haja possibilidades de não-ser, termino minha aposta viva, com vida, e tendo vivido um pouco do que tangencia a morte: entre o horror e o belo.

Vivi mortes em vida. Abandonos, solidões, crises, mordidas, desencontros, perdas, despedidas, faltas. A vulnerabilidade é uma conhecida da qual quero distância. Apesar disso quero ficar velha. Só não fica velho quem morre novo.

Eu queria que a vida fosse uma escada ascendente. Com isso aprenderíamos muito, cresceríamos e morreríamos bem. Mas, se existe uma escada a subir, alguns sobem na escada do entendimento da vida e aceitam mais resignados ou resilientes as suas condições e intempéries. O fim da vida é apenas o fim da vida, merece tanta dignidade quanto os outros pedaços. Dignidade que nos preenche e nos falta ao longo do percurso.

Com sorte teremos aproveitado os momentos em que encontramos pares, as alegrias pontuais e belezas fugazes. É o possível e precioso ar da vida.