quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Ciúmes

"1 Sentimento negativo provocado por receio ou suspeita de que a pessoa amada dedique seu interesse e/ou afeto a outrem.

2 Receio de perder algo.

3 Sentimento negativo em que se mesclam ódio e desgosto, provocado pela felicidade ou situação favorável de outrem; inveja

4 Reação complexa a uma ameaça perceptível a uma relação valiosa ou à sua qualidade."

Quem nunca sentiu ciúmes que atire a primeira pedra.

Desde que tive um segundo filho que eventualmente sou questionada com um ar de prazer se o mais velho sente muito ciúme. Sempre desconversei, inclusive porque a pergunta é feita a mim na presença dele. Digo que estão se conhecendo, ou que ele adora o irmão, ou que estamos todos aprendendo com essa nova arrumação da família, por aí. Mas a verdade é que esse é um assunto que tem me incomodado. Não tinha como passar sem o ciúme, eu acho. É uma mudança e tanto para passar incólume.

Penso também no meu ciúme. De como já foi, de como ainda é, será que sempre terá?

Qual o nosso lugar no mundo? Que dureza a possibilidade de ser preterido em detrimento de outrem, é sério! Como há diferença nos modos de se relacionar e o quanto a gente estima o afeto do outro segundo a nossa percepção das ações e, pra piorar, as vezes usando nossos próprios critérios (ex: quando a gente gosta pode aparecer quando quiser. Assim age e pensa uma pessoa. Outra ama a beça, mas é sistemática e gosta de avisar e ser avisada das visitas. Não dá pra aferir o outro por si). O receio de deixar de ser amado. O amor é mesmo algo tão grave e sem garantias... A relação com o outro e seu universo é tão enigmática. Existe amor incondicional?

Penso ainda num limite muito tênue entre o respeito ao outro e uma indiferença. Explico: meu afeto (amores, cônjuge, amigos, filhos) deseja estar com outra pessoa que não eu. Eu, em exercício de respeito, deixo-o livre e desejo que seja feliz nessa outra cena onde eu não estarei. O amor, em teoria, é satisfazer a si mesmo com a satisfação do ser amado. Mas não é bem assim, ne? A gente precisa estar incluído de algum modo. O amor é sempre amor próprio.

Ciúme é muito primitivo, muito primário. Ninguém ensinou ciúmes ao Davi. Ele sente sem nem dar nome. Ele age impulsivamente motivado por ciúmes, se arrepende no segundo seguinte. Faz uma confusão só com o amor, o ódio... Nem sei se ele deveras sente-se ameaçado. Desconfio que não. Ele sabe bem o lugar que ocupa e confia cada vez mais. Porém ele quer exercer uma posição central o tempo todo. Nao basta ser amado, é preciso a veneração constante e exclusiva.

E onde isso permanece em nós? Em que medida?

Ja fui muito ciumenta. Muito mesmo. Com todos os meus afetos. Sigo um pouco ciumenta, acho que melhorei porque aumentou meu amor próprio. Confio mais na minha posição única no mundo e que alguns hão de dar valor a isso que sou. E, o melhor! Que os que dão valor são os que pensam e agem de forma mais aproximada a minha. Desse modo, pouco tenho a temer, visto que se afasta de mim aquele que não me valoriza ou percebe naquilo que pra mim é mais caro. Sou meu bem mais precioso.






"Eu não queria magoar você
Foi ciúme, sim
Fiz greve de fome, guerrilhas, motim
Perdi a cabeça
Esqueça

Da próxima vez eu me mando
Que se dane meu jeito inseguro"




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