terça-feira, 25 de junho de 2024

Dívidas


Há dívidas muito pesadas
Que os bancos cobram
Perturbam
Nos vendem e lucram
E ficamos enforcados resolvendo contratos
Injustos, abusivos, mas assumidos
Apesar de todas as críticas sabemos
Mal ou bem
Suas taxas
Valores mensais
Prazo de extinção
Consequências de inadimplência

E os contratos afetivos?
Cujas cláusulas são vagas
Cujos juros são móveis
Cuja assinatura é dúbia
Cuja inadimplência custa um pedaço da nossa alma, da nossa lealdade, da nossa integridade?

Quando os custos não são significativos
Diminuímos o outro
Será que ele se acha o último pacote do biscoito?
A cereja do bolo?
E seguimos adiante
Não cumprindo com as expectativas do outro
E nem ligando para isso
Ou fingindo bem que é assim

Agora, e quando nos sentimos em dívida?
E quando o outro nos deu mais do que podíamos ponderar?
Quando fez do nosso nada um algo
E esse algo que nos tornamos 
Em parte
É pela graça, pelo afeto, benevolência
Desse que poderá nos cobrar
Devemos ao outro algo que agora somos nós...

Se esse outro for esclarecido
Saberá que fez por si próprio
Que somos apenas uma parte daquele sonho
Que o olhar que nos vê
É atravessado por muitos véus
Apesar deles nos sentimos vistos
Investidos
Admirados
Valorizados

E o preço?

E o preço?

Inquantificável
Altíssimo
Inestimável
E se o outro cobrar?
E se formos ingratos?
Não há mais como devolver o valor recebido
Nem tampouco fazer a quebra do contrato
Sentimo-nos acorrentados

Ou, se mais ou menos entendidos,
Sabemos que temos direitos outros
Que o algo que nos foi dado era por nós merecido
E que sendo com ele,
Fazendo bom uso
Tornamo-nos dignos de ter recebido

E a dívida?
Oras...
A dívida que é cobrada
No reino dos afetos
É tão ilegítima e de tão mau caráter
Quanto a dívida do banco
Onde podemos legitimar porque havia contrato
Podemos achar justa
Porque foi a solução encontrada
Mas é desleal do mesmo modo
É aprisionadora de forma semelhante
E, assim como no banco, podemos escolher por não pagar
Não pagar, nesse caso, nos faria livres...
Talvez não da nossa consciência
Que tantas vezes se mantém pesada
Mas de uma relação que parecia ser de afeto mas era opressão
Amor quando é pago é prostituição
Prostituição não é prestação de serviço
É o abuso de outro corpo legitimado
Abuso de corpo vulnerável
Pago
Onde se paga o impagável

Que consigamos afetos mais livres
Menos dívidas
E que aprendamos a lidar com expectativas
Com as multiplicidades dos desejos, dos destino
Com a força desse olhar pro outro
Que produz um corpo próprio onde não havia
Uma voz mais bela e tão intensa 
Onde havia silêncio ou rouquidão...
E produz vontade de voar!
E, se voar, que possamos assistir satisfeitos
E não procurar as gaiolas
Que garantam que o novo cantar tenha dono
Que nos tenham como troféu de um dito bem
Não! Deixe voar! E veja como é belo esse voo pleno

E façamos nós
Novos investimentos
Livre de nós
Livre de outros
Livre!

E se assim for, voaremos alto e belo
E voltaremos não por obrigação, mas por afeto!


quarta-feira, 19 de junho de 2024

In verso

Pingo pingo pedra
Sentada encucada quieta
Céu vento tempo
Voa com a gente
Voa sem a gente
Passa devagar
Escreve escreve fixa
O que se fez
Existência
Ausência
Nulidade
Nada
Fim
Livro enrolado de olhos castanhos
Respiração de boca aberta
Buscava estar ereta
Sentia-se deslocada
Usava meia trocada
Esquecia casaco e guarda-chuva
Aonde irá parar?
Toda a roupa que foi lavada
A louça limpa
Limpa de novo
De novo
De novo
De novo
O almoço que foi sustento
Que foi suculento
Que foi sempre
Que foi 
E algum saber
Os jogos
Os troços
Tudo que não foi
Os gritos
Os silêncios
Sentimentos...
Livro que não foi escrito
Não foi lido
Livro escondido
Desinteressante
Póstumo
Palavras 
Me vestem
Me versos
Atraversos
Reverso
In verso

terça-feira, 18 de junho de 2024

Quando existe afeto?

Em muitos quesitos me faltaram orientações
Em outros tantos tive orientações segundo certas perspectivas
Perspectivas certamente equivocadas
Acontece que os critérios de amorosidade, bondade ou gentileza são realmente muito dúbios
Diante deles tantas vezes julguei se era amada ou considerada...
E hoje vejo como que os atos não dizem nada
O que nos diz algo é a relação

Vou então contar a história:
Fomos fazer uma caminhada de alto nível. Ele veio de outra cidade, arrumou a mochila, íamos acampar. Eu, da noite pro dia fui adoecendo. Não iria se não fosse uma circunstância tão chata que envolvia uma viagem, as horas e os reais que isso implica. E a minha vontade, é claro! Eu estava animadíssima com o projeto.
Fomos subindo e eu fui piorando. Chegou uma hora que parava para descansar e quase dormia. Não era exatamente cansaço. Era o corpo dando seu limite: cama. Muito triste mas decidida abandonei a mochila no caminho e segui para dar a notícia: não vai dar pra mim. Sugeri que ele seguisse. E ele iria mas os dois miúdos que conosco estavam quiseram voltar juntos. Acabei com o passeio de todo mundo. É das piores sensações pra mim. 
Fui descendo sozinha, devagar e sempre. Um pouco cansada, bastante arrasada e meio preocupada em dar conta da descida.

No caminho senti aquela exaustão. Ia beber água mas nem tive condição: sentada debrucei sobre a mochila e fiquei aguardando forças pra prosseguir. Chegaram minhas companhias (companhias?) e o amigo catou minha mochila. É bem verdade que por um lado eu preferia carregar... eles eram rápidos, impacientes, um lado desse feito era para que eu me apressasse. E eu queria ir lenta, no meu tempo, calma. Mas com uns 15kg a menos inegavelmente era mais fácil. E ele desceu algo parecido com 1km com todo peso. Dureza pra mim. Dureza pra ele. Não me dei mais o direito de descanso. Segui mais lenta que eles, mas sem parar. Ao final sugeri que trouxesse o carro e entendi que ele não queria levar o carro naquela pista ruim. 
Era aqui que eu queria chegar. Tudo que me ensinaram é que ali faltaria afeto, respeito e tudo mais que se possa imaginar. Hoje vejo como que não é assim. Desci mais uns 500 metros moribunda, me apoiando nos bastões, menos ruins que os últimos 2km. Ele levou todo peso por mais 500 metros... e é isso. Faz sentido? Pra mim não. Pra ele sim. É prova de amor? Definitivamente não. Nem o carregar a mochila nem o não levar o carro até a porta. Os afetos são muito atravessados. Muito multifacetados. E, ainda que de forma parcial afirmo categoricamente: existe afeto. O que cada um idealiza, produz, espera como afeto é de um jeito. Um jeito marcado pelas vivências, crenças, particularidades. E no enlace algo se produz ou se desarticula. Eis das maiores belezas e dificuldades na vida.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Devaneios

 Um sonho, uma vida, um vôo

Escolhe o que leva

Porque quando fica demais, pesa

Quando se leva de menos, falta

Subir, subir, subir, sempre em frente

Com o peso daquilo que se quis,

Cada vez mais alto

De quantos "falta pouco" é a nossa caminhada?

E às vezes falta muito... Terei perna?

E segue em frente

É o desejo escrito no corpo se realizando

A beleza que mora num abre e fecha do tempo

Insistência que não cessa

Sente o vento cortante

As nuvens que passam por nós, o frio

O sol que racha, embeleza, aquece, 

Que nasce e se põe

Esse lugar, tão novo, tão diferente

Que está ali desde sempre e tão presente

Do qual me tornei visitante assídua

Que me nutre, que me assusta e encanta

Olha, olha, que será que queremos desse outro mundo?

Sobe, desce, às vezes melhor nem saber que dificuldades teremos pelo caminho

Porque a gente rateia

E sem saber a gente insiste, sempre em frente, até já não fazer sentido voltar atrás

Ou não ter como desistir

Aprende, amadurece, cresce

Ainda que o destino pareça mais distante do que gostaríamos

Pensando tudo que se fez

Que pra toda ida existe uma volta

Pra todo começo existe um fim

Usufruir das pequenas coisas, flores, passarinhos, respirar

Ver graça nos formatos que surgem, na janela do tempo que se abre, na sua sombra na nuvem com arco-íris

Uma beleza quase sem sentido

Que me dá sentido

Com boa companhia, a cumplicidade de testemunhar, um olhar

Divide a vida, oferta apoio, pensa junto na direção

Ali onde não tem lojas pra comprar

E a cooperação é um pouco mais presente

Assim como a troca de olhares, o desejo de um bom dia, de que o outro se supere também

Não se quer deixar ninguém pra trás

Não falo de um compromisso contratado ou pago

É uma ética própria dali

Dar a mão, esperar, perguntar se está tudo bem

Trocar telefones

Cada um no seu tempo, o que importa é chegar

Depois voltar, desmontar, descer

Retornar àquela outra realidade

E com uma realidade dando sentido à outra

Vamos seguindo com  encantamento

E eu aguardando um novo momento

Pra montanha eu poder voltar

9set2023

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Por quê?

 Não sei.

Tenho um filho na fase dos porquês. E é muito interessante que eles não cessam. E muitas vezes terminamos a sequência num fatídico "por que é assim". 

E nós, adultos, nos esforçamos em responder e explicar, certos de que eles estão aprendendo e de que estamos dando contornos a tantos "sem sentido".

E tem vezes que se pergunta coisas tão sérias como se qualquer coisa fosse, como quando querem saber da morte do meu pai. E me lembram e confrontam com vivências e sentimentos que não são da ordem das explicações. Mas a gente fala, fala, as vezes chora. E eles ficam surpresos. Por quê?

Os últimos dois porquês também deram uma chacoalhada. Um deles era sobre o amiguinho de mesma idade (5anos): por que ele não fala? Por que ele grita assim? O outro era sobre uma pinta grande na barriguinha. Por que tem pinta grande? E aí a gente fica ali, tentando entender também. E vemos que essas também são as nossas perguntas. E que as muitas teorias não respondem, não nos sossegam. 

Assim também é com as perguntas sobre a própria origem ou a origem dos seres humanos ou do início da vida. Também querem saber sobre a morte: quem morre primeiro, não querer morrer... e o planeta, o universo, o infinito. 

E cheios de palavras e saberes dizemos tudo que construímos nos últimos anos. Uns conceitos que não preenchem nosso próprio vazio da origem da coisas e dos mistérios da existência. Umas palavras. Só palavras...

Sendo tão poucas para dar conta de tanto. E sendo tantas segurando em muitas pontas pra dar algum sentido. E eles vão aprendendo e juntando suas próprias palavras e sacando seus próprios vazios de sentido. É muito bonito. Porque na verdade nos entregamos por completo nos nossos não-sentidos. E que eles possam também dividir conosco toda essa angústia de viver, porque voltaremos a essas perguntas quantas vezes pudermos crescer. Ainda me lembro de eu, adolescente, conversando com um amigo sobre a origem e o sentido da vida. Ele, muito sábio, disse que já havia passado dessa fase. Na época senti constrangimento... torci para que passasse logo essa minha fase. E aqui estamos...

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Doença

 Quando me dei por mim, ali estava você

 Achei que éramos um.

Aos poucos fui percebendo o quanto eu te percebia de formas distorcidas

E às vezes você não correspondia às minhas vontades e expectativas

Em muitos aspectos eu te desvalorizava

Tinha raiva, lamentava por você ser assim

Fui tentando aceitar

Fui vendo como que um tanto de como sou é graças a você

Tentei te acolher mais. Olhar com carinho. Cuidar. Me ver mais feliz contigo.

Você carregava memórias de atravessamentos nossos...

E eu percebia seus movimentos de saúde e doença, te percebia de formas diferentes, valorizava sua riqueza de detalhes. Interagimos de diferentes formas. Algumas vezes te usava para saber mais de mim. Brincava com minhas percepções. Regulava a respiração para mudar meu estado de espírito. Contigo vivi imensos prazeres e dores.

Um dia adoeci mais severamente. No hospital descobri que você estava tomado por bactérias. Elas também te ocupavam além de mim. 

Fui entendendo que por mais que eu quisesse continuar, precisava que você também quisesse e, mais que isso: que resistisse bravamente, que vencesse a luta

E o que eu podia fazer era tão pouco. Ali, hospitalizada, recebendo medicações que fizessem por mim.

Sabe lá se você seria mais ou menos forte que o necessário.

Eu estava razoável. Os exames ruins. Você não ia bem. Mas pouco me disse. Soube depois. Nossa intimidade desde sempre tão precária...

No momento torço por ti. Com uma dose de incentivo, uma de cobrança e uma de desespero.

Se nada disso der certo será o nosso adeus. Você ficará ali inerte sem mim, tomado de outros bichos até o seu eterno fim.

E eu? Sei lá. Que será de mim? Eu que sou eu+você, que me desconheço sem te ocupar. Apesar de só te ver pelo espelho, de estar montada, de ser através de você. Em você. Eu que aqui estou. Não sou você. Ou seria obrigada a reconhecer que não me avisei de meu adoecimento? Arrebatada por um possível fim precoce... 

Ó corpo, você que sabe o caminho, você que não vive sozinho, você que é deste mundo: faça o que deve ser feito. E eu aqui estarei. E se eu aqui não mais estiver, que você também não me represente mais. Será nossa separação, enfim. Estarei no ar, num todo a me levar. Estará no chão, pesado, vazio. Que fizemos juntos desde então? Não fomos felizes para sempre. Tampouco vivemos apenas infelicidades... sonharei sem você. Se você vencer, eu volto, acordo, vou à luta. E se perder sigo sendo um sonho que nunca mais acordou.