sexta-feira, 7 de junho de 2024

Doença

 Quando me dei por mim, ali estava você

 Achei que éramos um.

Aos poucos fui percebendo o quanto eu te percebia de formas distorcidas

E às vezes você não correspondia às minhas vontades e expectativas

Em muitos aspectos eu te desvalorizava

Tinha raiva, lamentava por você ser assim

Fui tentando aceitar

Fui vendo como que um tanto de como sou é graças a você

Tentei te acolher mais. Olhar com carinho. Cuidar. Me ver mais feliz contigo.

Você carregava memórias de atravessamentos nossos...

E eu percebia seus movimentos de saúde e doença, te percebia de formas diferentes, valorizava sua riqueza de detalhes. Interagimos de diferentes formas. Algumas vezes te usava para saber mais de mim. Brincava com minhas percepções. Regulava a respiração para mudar meu estado de espírito. Contigo vivi imensos prazeres e dores.

Um dia adoeci mais severamente. No hospital descobri que você estava tomado por bactérias. Elas também te ocupavam além de mim. 

Fui entendendo que por mais que eu quisesse continuar, precisava que você também quisesse e, mais que isso: que resistisse bravamente, que vencesse a luta

E o que eu podia fazer era tão pouco. Ali, hospitalizada, recebendo medicações que fizessem por mim.

Sabe lá se você seria mais ou menos forte que o necessário.

Eu estava razoável. Os exames ruins. Você não ia bem. Mas pouco me disse. Soube depois. Nossa intimidade desde sempre tão precária...

No momento torço por ti. Com uma dose de incentivo, uma de cobrança e uma de desespero.

Se nada disso der certo será o nosso adeus. Você ficará ali inerte sem mim, tomado de outros bichos até o seu eterno fim.

E eu? Sei lá. Que será de mim? Eu que sou eu+você, que me desconheço sem te ocupar. Apesar de só te ver pelo espelho, de estar montada, de ser através de você. Em você. Eu que aqui estou. Não sou você. Ou seria obrigada a reconhecer que não me avisei de meu adoecimento? Arrebatada por um possível fim precoce... 

Ó corpo, você que sabe o caminho, você que não vive sozinho, você que é deste mundo: faça o que deve ser feito. E eu aqui estarei. E se eu aqui não mais estiver, que você também não me represente mais. Será nossa separação, enfim. Estarei no ar, num todo a me levar. Estará no chão, pesado, vazio. Que fizemos juntos desde então? Não fomos felizes para sempre. Tampouco vivemos apenas infelicidades... sonharei sem você. Se você vencer, eu volto, acordo, vou à luta. E se perder sigo sendo um sonho que nunca mais acordou.

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