terça-feira, 18 de junho de 2024

Quando existe afeto?

Em muitos quesitos me faltaram orientações
Em outros tantos tive orientações segundo certas perspectivas
Perspectivas certamente equivocadas
Acontece que os critérios de amorosidade, bondade ou gentileza são realmente muito dúbios
Diante deles tantas vezes julguei se era amada ou considerada...
E hoje vejo como que os atos não dizem nada
O que nos diz algo é a relação

Vou então contar a história:
Fomos fazer uma caminhada de alto nível. Ele veio de outra cidade, arrumou a mochila, íamos acampar. Eu, da noite pro dia fui adoecendo. Não iria se não fosse uma circunstância tão chata que envolvia uma viagem, as horas e os reais que isso implica. E a minha vontade, é claro! Eu estava animadíssima com o projeto.
Fomos subindo e eu fui piorando. Chegou uma hora que parava para descansar e quase dormia. Não era exatamente cansaço. Era o corpo dando seu limite: cama. Muito triste mas decidida abandonei a mochila no caminho e segui para dar a notícia: não vai dar pra mim. Sugeri que ele seguisse. E ele iria mas os dois miúdos que conosco estavam quiseram voltar juntos. Acabei com o passeio de todo mundo. É das piores sensações pra mim. 
Fui descendo sozinha, devagar e sempre. Um pouco cansada, bastante arrasada e meio preocupada em dar conta da descida.

No caminho senti aquela exaustão. Ia beber água mas nem tive condição: sentada debrucei sobre a mochila e fiquei aguardando forças pra prosseguir. Chegaram minhas companhias (companhias?) e o amigo catou minha mochila. É bem verdade que por um lado eu preferia carregar... eles eram rápidos, impacientes, um lado desse feito era para que eu me apressasse. E eu queria ir lenta, no meu tempo, calma. Mas com uns 15kg a menos inegavelmente era mais fácil. E ele desceu algo parecido com 1km com todo peso. Dureza pra mim. Dureza pra ele. Não me dei mais o direito de descanso. Segui mais lenta que eles, mas sem parar. Ao final sugeri que trouxesse o carro e entendi que ele não queria levar o carro naquela pista ruim. 
Era aqui que eu queria chegar. Tudo que me ensinaram é que ali faltaria afeto, respeito e tudo mais que se possa imaginar. Hoje vejo como que não é assim. Desci mais uns 500 metros moribunda, me apoiando nos bastões, menos ruins que os últimos 2km. Ele levou todo peso por mais 500 metros... e é isso. Faz sentido? Pra mim não. Pra ele sim. É prova de amor? Definitivamente não. Nem o carregar a mochila nem o não levar o carro até a porta. Os afetos são muito atravessados. Muito multifacetados. E, ainda que de forma parcial afirmo categoricamente: existe afeto. O que cada um idealiza, produz, espera como afeto é de um jeito. Um jeito marcado pelas vivências, crenças, particularidades. E no enlace algo se produz ou se desarticula. Eis das maiores belezas e dificuldades na vida.

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