domingo, 27 de julho de 2025

Integridade corporal

 Um corpo acidentado chora suas marcas. Algumas cicatrizadas, outras ainda abertas, recebendo alcool 70 para que sequem e estabilizem. Cirurgias, outras cirurgias, exames e decisões dos médicos alteram os destinos do corpo. E o ser sendo carregado e sofrendo seus efeitos.
Partes menos importantes do corpo são cortadas para preencher outras partes mais importantes do mesmo corpo. 
Para ajudar no sustento do osso esfarelado, uma haste entra no centro dele às marteladas. Uma verdadeira obra corporal.
Algo de disforme marca o corpo. Era para ter cinco dedos naquela mão e ficaram apenas três. Que os dedos restantes sejam bons trabalhadores e consigam dar conta de toda sorte de movimentos necessários a uma vida funcional.
E o que será uma vida funcional? Quantas inabilidades abarcamos em nossos íntegros corpos? Uma mão com menos dedos e muito bem desenvolvida pode produzir grandes feitos. Ou uma mão com todos os dedos e sem aprimoramento, terá funcionalidades adormecidas.
Depois de tanto desencontro, de tanta dor e desconforto, que ele possa descansar em si mesmo e dormir bons sonhos, acordando exatamente no corpo em que dormiu, tendo estabilizada a imagem de si e aquilo que deseja do próprio corpo que ocupa.
Que seja um encontro leve, natural, com chances de amorosidade e respeito, companheiros que sempre foram um do outro.
Que ele perdoe seu corpo em tudo que ele for incapaz de fornecer. E vice-versa, pois ele também tem um papel fundamental para o corpo, desde sua concepção até os cuidados essenciais, exercícios que garantirão seu melhor desempenho.
Hoje ele se olha reafirmando todas as vezes: esse sou eu. Esse sou eu. Esse sou eu. Em algumas eu imagino indignações: "que merda! Esse sou eu", "é isso! Esse sou eu", "não é possível! Esse sou eu?!". Acredito que as afirmações venham na verdade de uma forte dúvida: "esse sou eu?". E apontem também para um futuro, que a curto, médio e longo prazo não garante ainda quem ele será, que possibilidades e impossibilidades o acompanharão pela vida de seu companheiro, o corpo.
Joga o braço sem vida. Mexe os dedos. Usa as unhas para se coçar. O braço que é dele e que ainda não reconhece tão bem. Mas já o inclui mais que antes. Ele, braço estranho. Mexa-se! Darei choques, levantarei para garantir o movimento. Vamos, braço! Que lhe operem. Quero ele de volta. Mas ele está aqui. 
Há uma dança de encontros e desencontros ali dentro. Ali fora. Ele ocupando seu corpo. Ele que ainda é mas que não é mais. Que aprende a viver de novo. Aprende a ser e estar. Que não sabe ainda o que vai ser. Ele é, eu garanto. Ele é naquele sorriso. Nas dúvidas e brincadeiras. Nos rolos com as garotas, mulheres de sua vida. Ele segue sendo. E revive em sua cicatrização. Fica são. E recria seu mundo.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Sem mais

E no fim, sem mais, morreremos.

Isso significa que a paz será nossa garantia.

Enquanto isso oscilamos entre o prazer e a desgraça de existir.

Os momentos de prazer são desejados, planejados. 

Os momentos ruins nos fazem querer desistir. A vida não vale a pena. São tão intensos e significativos que perdemos a noção de que há outros possíveis que chegarão. Que tudo muda, há expansão e retração, passam as boas fases e também as péssimas. 

O humano ainda tem uma característica muito interessante: a adaptação. Então, há situações que não passam, elas se tornam permanentes. Mas o nosso olhar sobre as mesmas coisas muda. O insuportável se torna suportável. O absurdo se torna aprendizado. E, diante de um mesmo caos, passamos a viver momentos alegres.

Tudo é impermanência. 

No pior dos cenários, nos ausentamos de nós mesmos. A paz é nossa última garantia.

E no fim, sem mais, morreremos.

domingo, 20 de julho de 2025

Reset

A vida é o que é. Tem momentos que nos parece tão claro, tão evidente que as coisas são como são. E vamos caminhando, observando, pensando a partir dessas perspectivas que criamos.
Mas o encontro com pessoas admiráveis nos faz ponderar.
Há vivências fortes demais que nos fazem ponderar.
Seja no amor ou na dor, temos oportunidades de novas vidas na vida. A vida não muda. Mas a gente se muda na vida. Mudam as lentes, os valores. E nós mudamos. Parece que a vida é outra, que as cores, agora tão evidentes, não estavam ali antes. Estavam. Todos os matizes estão. Mas acontece um reset. E dizemos: daqui pra frente sou outra pessoa. Sou?
As chances que temos de adentrar nessa percepção, de que há um infinito de formas de olhar pras mesmas coisas e que isso muda as coisas e que isso muda quem somos, são significativos presentes. Nos torna mais possíveis de adentrar no olhar do outro, com compaixão ou até cumplicidade. Nos possibilita menor enrijecimento quando vemos o que chamamos de realidade. E, me pergunto, até que ponto percebendo que criamos nossa realidade, o quanto podemos ser autorais nessa obra final? 
Uma parte dessa plasticidade é a resiliência. Entre a romantização do que se atravessa e o assolamento nas dificuldades há um caminho. E esse caminho, que envolve um caminhar, é justamente um dos valores da vida.
E quem sou diante dessas mudanças? Outra pessoa? Como? Se a minha história segue escrita, se eu observo o que eu era e entendo o meu lugar...? Mas agora posso ocupar outro espaço a partir do meu olhar modificado. Vida, uma máquina de moer alma. 

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Filha de peixe

Olhava para ele admirada
O homem culto, que muito lia e sabia
Centrado, racional, equilibrado
Amoroso e presente, um pai exemplar

Jamais imaginei que pudesse ser como ele
E menos ainda, que teria críticas severas
Infelizmente ele não está mais aqui
Para que pudéssemos conversar divergências
Ou para que eu tivesse a chance de conferir se o homem de que me lembro deveras se parece com o original

Ele escrevia muito bem
Derramava lágrimas dos seus leitores
Sabia usar bem o português 
E entendia modelos literários 

Se ele vivo estivesse, será que eu escreveria?
Desconfio...
Um lado meu teria doído de menos
A ausência dele me garantiu o acesso a um abismo existencial 
A um saber sobre a vida e a morte

E, sabe-se lá por quanto tempo,
Eu entenderia que não fui feita pra isso
Que não tenho tamanha destreza
Ou que minhas falhas são grandes demais

Mas teria um leitor voraz 
Um professor contumaz
Não sei se atravessaria a fronteira da insegurança 
E transporia minha sensação de insuficiência para de fato aprender algo com as críticas 

E fico aqui escrevendo e desejando poder ser lida por ele
Alguém que se interessa verdadeiramente

Quantas conversas honestas nos faltaram...
E sendo como ele sem sê-lo
Certamente com outra qualidade ou profundidade 
Hoje assumindo um lugar próprio de ser e escrever
Eu morro de saudades 
Sonho poder estar mais inteira diante dele
Apesar dele
Apesar de mim
Apesar da realidade 
E me apresento para o que dele vive em mim

J.C. 09.01.1941 - 28.11.2009 
Tão cedo.
Meus filhos estão aqui.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Envelhecimento

 De vez em quando concluo que ficarei velha. Por enquanto, é bom explicar, sou jovem. Esse envelhecimento tão dado e tão fatídico vai sendo realizado paulatinamente... Sinto que meu corpo, ainda com sinais pontuais de desgaste, não me falou bem o suficiente sobre isso. 

Não me preparei para esse processo. Não sei o que é. Parece que não vai chegar. Acreditando que, quando acontecer, eu me viro, sei que faço uma escolha falsa, a qual não assumirei no futuro. Lá na frente acho que direi: não sabia o que estava fazendo.

Lembro de meu pai que, orientado sobre as diabetes, seguiu a via das orgias alimentares. Quando o médico lhe disse: "olha, Sr José, nao sei o que o senhor está fazendo, mas se seguir fazendo exatamente assim, o senhor vai ficar cego", ele tentou com mais afinco. Sinto pena. Eu o entendo na insistência de não saber. Recusa da realidade? Qual realidade recusamos? Pergunto antes que os juízes de plantão apontem seu dedo.

Tarde demais... A diabetes fez estragos mesmo no corpo dele. Não chegou a ficar cego. Não chegou a perder pedaços de si. Morreu de câncer generalizado, com menos prazer na alimentação, com fisgadas da polineuropatia, dificuldades de locomoção. 

Mas não vim aqui falar dele. Vim falar de envelhecimento. No meu projeto ideal, quando o limite for o suficiente eu darei um jeito de não prosseguir. Esse é, era, seria o plano. Plano que foi adiado por pelo menos uns vinte anos com a chegada dos filhos. E agora me pergunto: que ponto será esse, o do limite? Terei mesmo vontade suficiente de me despedir? E se tiver motivos fortes o bastante para desejar prosseguir - apesar do corpo, apesar das circunstâncias financeiras, apesar dos maus sentimentos, dos desencontros...? E se eu valorizar os encontros, a arte, o que foi possível, os amores? 

Terei de lidar com o corpo. Que vai oxidando enquanto eu ainda o ocupo. Que não espera que eu já tenha aproveitado o suficiente. Que não me deu informações o bastante para saber o que fazer ou manual de como tê-lo melhor cuidado. 

Será que consigo um meio termo?

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Sexo frágil

Essa semana eu me vi mobilizada por duas meninas da escola - nunca sei se digo "a minha escola" ou se digo "a escola dos meus filhos".

Uma delas sente-se triste ao ser sistematicamente chamada de maluca. A outra responde com maturidade a perguntas e risinhos sobre o "bigode" que ela tem, o chamado buço.

Depois de algumas intervenções me vi chorando conversando com meus meninos como essas problemáticas se relacionam com algumas perguntas deles como "por que existe dia das mulheres e não existe dia dos homens?" ou "por que as mulheres usam sutiã?". Relatei a eles pormenorizadamente como lidei com o fato de ter buço ao longo da vida. A menina de 7 anos já dá aula: "isso é coisa de mulher, algumas tiram mas eu ainda sou criança". E dá aula a que custo? O de justificar aquilo que foi considerado como uma diferença no seu corpo. Diferença essa que não é natural. Como ela bem disse: isso é coisa de mulher. Mas as mulheres, para serem mais mulheres, precisam tirar o buço. E nessa nossa bolha de mulheres sem buço parece que quem o tem tem algo de anormal.

Achei massacrante. Assim como os sutiãs com bojo. Ou seja, o principal produto na seção dos sutiãs. Sobram uns poucos modelos sem ele. Assim como tantos produtos dirigidos às mulheres com enfoque na beleza e na produção de um corpo dito feminino mas que não corresponde ao que de fato é o corpo de uma maioria de mulheres. Ainda me lembro de um livro que li quando adolescente que mostrava uma variedade de formatos de seios. O livro dizia: todos são certos, todos são belos. De cara eu vi que era mentira. Todas as modelos de revista ofereciam outra verdade, nas revistas para mulheres haviam modelos padronizados. Ainda lembro de uma revista da Avon que vendia sutiã especial pra juntar e levantar os seios. Comprei. Era bem incômodo e eu me sentia muito mais bonita.

Lembrando de tudo isso, olhando para trás com os olhos de hoje, vejo como é massacrante ser mulher. Eu chorei. E contando de novo, chorei de novo. E eu dizia: ela tem apenas 7 anos... E pensava: será que estou muito emotiva? Será que estou pré-menstrual?

Me respondo: que bom poder ser sensível a isso que é o absurdo. Que boa oportunidade me ofereço se for por estar pré-menstrual. Sexo frágil? Vejo a fortaleza dessa guria, respondendo firme que seu corpo está correto. Eu também me tornei firme descobrindo e redescobrindo como serei mulher nesse mundo. Mas dói. Não dá pra ser mulher sem ser o sexo frágil. Não há quem resista a tanto ataque. E, por outro lado, é com muita força que lutamos por um lugar no mundo. Da insistência fazemos resistência. E mudamos o mundo.