sexta-feira, 18 de julho de 2025

Filha de peixe

Olhava para ele admirada
O homem culto, que muito lia e sabia
Centrado, racional, equilibrado
Amoroso e presente, um pai exemplar

Jamais imaginei que pudesse ser como ele
E menos ainda, que teria críticas severas
Infelizmente ele não está mais aqui
Para que pudéssemos conversar divergências
Ou para que eu tivesse a chance de conferir se o homem de que me lembro deveras se parece com o original

Ele escrevia muito bem
Derramava lágrimas dos seus leitores
Sabia usar bem o português 
E entendia modelos literários 

Se ele vivo estivesse, será que eu escreveria?
Desconfio...
Um lado meu teria doído de menos
A ausência dele me garantiu o acesso a um abismo existencial 
A um saber sobre a vida e a morte

E, sabe-se lá por quanto tempo,
Eu entenderia que não fui feita pra isso
Que não tenho tamanha destreza
Ou que minhas falhas são grandes demais

Mas teria um leitor voraz 
Um professor contumaz
Não sei se atravessaria a fronteira da insegurança 
E transporia minha sensação de insuficiência para de fato aprender algo com as críticas 

E fico aqui escrevendo e desejando poder ser lida por ele
Alguém que se interessa verdadeiramente

Quantas conversas honestas nos faltaram...
E sendo como ele sem sê-lo
Certamente com outra qualidade ou profundidade 
Hoje assumindo um lugar próprio de ser e escrever
Eu morro de saudades 
Sonho poder estar mais inteira diante dele
Apesar dele
Apesar de mim
Apesar da realidade 
E me apresento para o que dele vive em mim

J.C. 09.01.1941 - 28.11.2009 
Tão cedo.
Meus filhos estão aqui.

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