domingo, 27 de dezembro de 2020
Tempo e vida
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
O que importa
Outro dia, na praia, vi outra cena que inspirou o mesmo sentimento. A cena foi a seguinte: a praia num dia de sol, as pessoas que se arriscam em exibir seus corpos, umas mais ousadas outras porque não se privam de usufruir da vida. Todos comportados, em homeostase. As crianças fazendo criancices, a barraca do milho passando. Casais namorando. Mulheres pegando sol. Pássaros voando, pousando, mergulhando... e perto da água um homem de quatro, de sunga, cheio de areia, andando como um cachorro. Naquele momento, apesar de totalmente patético, ele aparentava ser o homem mais feliz do mundo. E seguindo o seu olhar apaixonado vejo sua menina, tão miúda e linda. Ele engatinhava, ela tentava. Ele ria. Ela ria. E toda a praia parecia invisível. E todo o ridículo perdia seu sentido porque o único sentido era o amor. Nada mais importava. Isso é o belo.
Maria Carla
Melhor sair da maternidade com brincos, é marca de feminilidade. Ajeita o vestido... não arranca o lacinho! Ai! O cabelo podia ter puxado ao da mãe mas, tadinha, tudo crespo. Tá ficando bagunçado. Tá parecendo um moleque. Prende isso.
Quer uma boneca? Veja... ela é super maternal. Vamos ver de novo a história das princesas? Olha os modos, fecha a perna, seja mais delicada. Isso são modos pra uma moça?
Ta meio magra. Ta meio gorda. Olha essas coxas, vai ter um pernão.
Menstruou, pessoal, Maria Carla está mocinha!
Agora segura ela, já pensou se engravida?
Maria Carla vamos tirar os pêlos do suvaco e da virilha e das pernas e, de repente, dos braços, melhor tirar um pouco da sobrancelha, você está tão desleixada. Coloca um batom, alisa esse cabelo, bunda pra fora, barriga pra dentro. Existem realçadores e alongadores para cílios, sabia? Você não vai tirar os pêlos da coxa? Melhor pelo menos descolorir, né?
Bela, recatada e do lar.
Sexy sem ser vulgar.
Não vai dar pra todo mundo, vão te taxar de puta.
Com essa roupa capaz de ser estuprada...
Um dia, na rua, um estranho lhe passou a mão.
Maria Carla era uma moça pra casar, mas antes da hora embuxou.
Coitada. Será que vai casar? Quem é o pai dessa criança?
Reflexões para um sem mim
Fui vivendo até que agora há pouco tempo, de uns meses pra cá voltei a menstruar. Estranhei. Depois de 2 filhos e 4 anos sem sangrar, estranhei. Mas a estranheza foi virando desconfiança. Era sangue demais, será possível? Pólipo no útero foi o que descobri na ultrassonografia. E aí... poxa, poxa... lá vou eu pra um procedimento cirúrgico. E se não o fizer, o pólipo vai tomando conta de mim e o sangramento vai aumentando... e lá me vou daqui (?). Talvez seja um pouco dramática essa forma de ver as coisas.
Ja quis tanto não estar mais com vocês. Essa vida meio sem sentido... meio sem graça... meio sofrida. E hoje, dando alguns contornos, tive filhos com enfoque nas partes boas: o amor, o belo, a arte, a natureza.
E como no mar, as ondas vem e vão. Grandes e pequenas, ressaca ou calmaria. E assim me pergunto: qual será o tamanho do meu ciclo? Estará a morte me rondando pra um fim breve, lutarei contra doenças que insistem em ocupar meu corpo ou produzirei males em meus órgãos que, sem saber como fazê-lo tampouco saiba desfazê-lo? Ou viverei ainda um tanto e verei morrerem ao meu redor os meus queridos até que sobre eu e os pequenos, que cresceram.
Queria escolher partir, e num lampejo de consciência maior dizer tchau ao corpo ao qual ocupo, a vestimenta que me apresenta. E penso: poderiam enterrar-me nua, assim: chocante. O corpo que me é tão estranho quanto familiar e que cubro, enfeito, envolvo. Se ele em si não significa nada, menos ainda suas roupas.
Quando eu tiver conseguido ir não tenham pena de mim. Nem do corpo. Nem das histórias. Nada mais. E se não restar corpo, apenas cinzas, pode escolher: ponha-me num balão grande e dê para as crianças brincarem sobre a terra. E quando ele estourar, que se esvaia. Ou jogue de um voo de parapente, suje as casas ou alimente as árvores. E se nada tiver a ser feito, que os carniceiros dêem conta dos meus restos, eu não estarei mais ali. E meu corpo, mesmo antes desse momento, não é lá tão belo aos olhos envenenados, domesticados a venerar outros formatos. A quem me quer bem não fica nada. Quem sabe um tufo de cabelos meio ressecados e com frizz, quem sabe algumas palavras, nem tantas assim. Minha vida importa mesmo é pra mim.
quarta-feira, 3 de junho de 2020
Um dia com sono
Nesse tempo
O filho mais velho acordou. Levantei da minha cama. Levei ao banheiro. Não quis. Deitei com ele na cama dele. Quis ir ao banheiro. Levei. Dormi com ele na cama dele.
Acorda o mais novo chorando. Tiro do berço e levo pra amamentar e dormir na minha cama. Não sei dizer quantas vezes acordou pra mamar.
Ouço a porta. La vem o mais velho. Vou pro quarto dele, deitamos na cama: -canta música pra mim? La vou eu colocar a câmera onde está o menor e o visor onde vou dormir. Canto duas músicas e dormimos.
Ainda com sono leve ouço o mais novo chorando. Busco ele e tentamos dormir os 3 na cama de solteiro.
Depois de meia hora de cochilos entrecortados, eles acordam!
E aconteceu tanta coisa durante a noite que parece ter durado muito.
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Mulher, vida ou morte?
Cama cama cama
Treme
Vira os olhos
Olho
Olho
Olho
Branca
Fria
Treme
Dor
Fica de pé
Branca
Branca
Treme
Deita de bruços
De lado
Geme
Olhos fechados
Ei, fica aqui, hein?
Treme
Silêncio
Banheiro
Agua fria
Sem roupa
De roupa
Nada mais importa
Água
Dor, muita dor
Chuveiro
Silêncio
Chuveiro
Água fria
Fraqueza
Treme
Senta no chão
Dor
Treme
Dor
Deita
Não cabe
Não importa
Sem força
Dor e mais dor
Tudo está molhado. Há 4 mulheres no banheiro. Duas no box, duas pela porta.
- quer comer? Onde está o aparelho de pressão? Não apaga, tá? Que tem pra dor aí? Liga pra farmácia...
- está sem pilha, só tem novalgina, mas abaixa a pressão...
- era isso mesmo? Já se viu esse quadro? Posso providenciar o remédio agora.
- Dor. Dor. Dor.
Silêncio...
As da porta saem.
- Olha, se você achar que vai desmaiar, por favor, não vá... diga que quer ir, que está melhor. Precisamos fugir.
E bebe o suco, e toma o remédio que demorou a chegar. E vamos pra cama. E voltamos pra água. Toalha e apoio, pressão nas costas. Não alivia?
Nada alivia.
Faz
Está morrendo
Dor
Desliga a água
Liga a água
Toalha de travesseiro
Queijo
Não Sim Bom
Dói muito
Tô sentindo
Olho aberto
Ofegante
Acho que vou vomitar
- ela vai ficar bem, o pior já passou.
Alívio.
Dor
Um pouco de privacidade
Vaso
- ei, tá tudo bem?
Queijo
Vamos pro quarto
Deita
Senta
Dor
Tempo
Tempo
Tempo
Vamos embora.
Saldo: uma vida e uma morte.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
Filhos e o amor próprio
Nasce um filho. Que lindo!
É uma perfeição sem tamanho.
E se a boca for igual a do pai,
que detesta a própria boca,
no filho é maravilhoso demais
aquele detalhe que foi sempre hostilizado,
nasce no filho embelezado.
E assim, além do vínculo com o filho,
novo ser,
algo muda
no nosso modo de ver
a nós mesmos.
Quando a criança vai crescendo
começam os aborrecimentos:
vontade própria é um tormento!
E a criança grita,
como dizem por aí: faz pirraça.
E nós pais começamos a pensar bem
o que fazer com tal desgraça
Por aqui tentamos perceber
O que aquilo diz da criança
E a cada choro consentido
Que conseguimos ver sentido
E escutando e acolhendo
Tambem a nós nos recolhemos
Das crianças que fomos um dia
Nos olhamos com alegria.
E quando não somos tão felizes
E gritamos, estouramos
Também a nós mesmos açoitamos
Nao são meros deslizes
A dança flui no nosso pequeno
Não pondera os movimentos
Uns mais rápidos outros serenos
Uma plástica dos sentimentos
Livre livre livre
Que assim ele se preserve
Que o olho do mundo lhe seja mais leve
E possibilite a ele a espontaneidade
Pois nos roubaram a liberdade
Tornaram feia, sexuada, inválida
E vendo-o tentamos resgatá-la
Mudamos nossa voz
Arqueamos nosso corpo
Educamos nosso olhar
E recebemos a nós mesmos
No que somos e no que fomos
Psiquê e organismo
sábado, 8 de fevereiro de 2020
Meu relato de não-parto
Pensei se dividiria... Me senti atropelada pelo meu próprio parto e envergonhada por ter passado por várias dessas etapas.
Por volta de meia-noite começaram discretas contrações. Eu ainda não sabia que eram contrações. Era ligeiramente desconfortável duraram pouco e se repetiram, o que me fez pensar que poderia ser o início do meu trabalho de parto. Quando entendi que eram mesmo, se intensificaram eu me senti feliz. Finalmente o meu filho viria. Eu havia preparado a mala do meu filho, faltava preparar minha. Parei de assistir o filme que estava vendo e me pus com meu marido a selecionar os itens restantes bem como todo o equipamento para o alívio da dor que havíamos separado e planejado ao longo do tempo. Conforme foi aumentando a dor, eu fui ficando um pouco assustada com a intensidade que tomava conta do meu corpo. Não demorou para que eu não desse mais conta de arrumar a mala e felizmente os itens que poderiam ser esquecidos estavam anotados para caso isso acontecesse. Meu marido terminou essa tarefa sozinho enquanto eu estava sentada numa cadeira de plástico dentro do box tentando aliviar a dor. Nesse momento havia uma quantidade de dor considerável mas suportável que seguia aumentando não em duração nem intervalo mas em intensidade. Noto que desde o início as contrações eram razoavelmente ritmadas e pouco espaçadas já muito no início tinha umas contrações de 4 em 4 minutos e quando se tornaram de 3 em 3 minutos ou até menos já eram bastante intensas e quando digo intensas lamento não poder descrever precisamente do que se trata. Isso porque uma das minhas decepções se inicia em não acreditar e é uma coisa que só pude dizer posteriormente: eu não acreditava que poderia ser tão insuportável o que aconteceria nas próximas horas. Eu acreditava que quando eu lia as mulheres dizendo que passaram por situações muito insuportáveis que isso era uma condição individual e que outras passam o dia fazendo coisas normais. Eu imaginava que eu poderia passar o dia fazendo coisas normais e o que me aconteceu foi que de meia-noite às 3:00 da manhã eu não tinha a menor condição de continuar em casa. O meu prédio é muito silencioso e eu, que também sou muito silenciosa, percebia que a qualquer momento os meus gemidos poderiam ser ouvidos por terceiros o que me preocupava. Decidi ir para o hospital. Descer as escadas do prédio andando lentamente e parando a cada contração e depois no carro foi bastante difícil. E eu só ficava satisfeita pelo direito de vocalizar a minha dor. Os buracos na rua eram muito incômodos e as sacolejadas interagiam com meu corpo e provocavam contrações. Doía muito, apesar disso o meu marido foi maravilhoso em me localizar onde estávamos chegando e vagarosamente me levou da forma como combinamos tentando me causar o mínimo de incômodo. Ele foi incrível. A rampinha de acesso da mma eh pequena. Andava como um zumbi e parava nas contraçoes. Parei 2x na rampa. Ou seja, contraçao talvez a cada minuto... Quando chegamos na maternidade já estranhei um pouco a recepção. Na ocasião que fiz a visita me surpreendeu o bom humor, o sorriso no rosto tanto da atendente como dos seguranças e de quem nos recebeu lá em cima. Todos pareciam satisfeitos e orgulhosos de trabalhar naquela instituição. Quando cheguei na madrugada, todos tinham cara de madrugada, naturalmente. Eu passei pela avaliação em contrações dolorosíssimas. A enfermeira que realizou minha admissão ainda foi gentil me informando sobre o toque: vou inserir um dedo e, posteriormente, vou inserir o outro dedo e foi contabilizando o que acreditava serem 5 cm de dilatação. Ela ficou preocupada apenas com a minha pressão que deu 14 por 9 e convocou uma médica do hospital para decidirem que ala seria a minha. Fui fazer uma cardiotocografia. Eu compreendo que fazer esse exame possa ser importante e que ele não configura como violência mas para mim foi extremamente violento e eu gostaria de ressaltar: extremamente (!), já que mais uma vez eu não poderei definir a dor que eu sentia. Nessa dor posso dizer que há posições em que tudo parece pior e uma delas para mim foi estar deitada na maca imóvel. Era quase impossível e eu sofri muito durante aquele exame, gemendo, me contorcendo o mínimo possível e, como o meu filho estava se mexendo muito, a enfermeira passou todo o exame ao meu lado caçando o coração do bebê e reposicionando os eletrodos, pressionando a barriga. Foi o inferno e eu compararia isso a uma sessão de tortura facilmente. Chegou uma hora em que ela disse: não dá mais, ela não aguenta mais. E eu chorei desesperadamente pois a sensação que eu tinha há muito tempo é de que eu não aguentava mais e a cada vez que eu pensava "eu não aguento mais", esse limite precisava ser ampliado. Durante o exame foi o primeiro momento em que eu me arrependi de não ter doula. Há sim uma questão institucional com isso. Entrou outra enfermeira onde estávamos: "fulana, tem gente pra admissao". Ela explicou que precisava acompanhar o coraçao do bebê. A outra diz: "tem doula". Ela respirou fundo e disse que realmente não dava. Que carteirada é essa? Perguntei mil vezes se eu seria recebida diferente por não ter doula... Nunca foram claros comigo.
Passei pela avaliação da médica nesse momento pois aparentemente esse exame deu ok, e a médica fez um novo exame de toque e me informou que eu estava entre 5 e 6 cm pediu para que remedissem minha pressão. E embora a primeira remediçao tenha dado 16 por 8, outra enfermeira insistiu em usar outro aparelho e disse 11 por 7... intervalo de menos de 2 minutos entre mediçoes. Muito estranho... E graças a essa enfermeira fui para o setor de parto normal. Era pouco antes de 6 da manhã e foi a última vez que mediram minha pressao durante todo tp.
Subi estranhando algumas coisas. Por exemplo: eu estava com muita dor e sentar na cadeira de rodas me parecia demais. Pedi para sentar só quando chegasse lá em cima. Os funcionários pareciam não compreender a minha intenção, que não me saculejar na entrada e saída do elevador era importante, não entendiam que a cadeira passando pelos trilhos da porta causavam um incômodo corporal imenso diante de um corpo que já está extremamente sensível. Apesar disso, saindo do elevador eu entrei na cadeira de rodas que me levou até o quarto. Não entendo até agora porque era tão importante andar aqueles metros em uma cadeira de rodas considerando que eu dizia fazer diferença. Entrei no quarto. Eu esperava algo mais acolhedor. Mas mais do que isso esperava que os equipamentos fossem mais disponíveis. Só encontrei a bola de pilates e o chuveiro. A Cadeira do Papai estava quebrada e não ficava fixa e a maca/cama não era assim tão diferente de uma cadeira normal obstétrica. O tal do cavalinho, nada e a banqueta, depois de solicitada pela 4a vez, nao tava disponivel. As luzes brancas e frias, bem invasivas, hostil, hospitalar. Quis usar o chuveiro. Era sistema de boiler. Demorei muito a conseguir regular e em pouco tempo, durante uma contracao, do nada a temperatura subiu bastante, imagino que alguem tenha dado descarga na suite ao lado. Conclusao: ou me queimava ou me mexia durante a contraçao. Doeu me mexer e doeu desistir do chuveiro... Durante todo tp, nas contraçoes eu queria ficar quieta. Andar so me dava mais dor.
Em algo tipo 1 hora veio uma moça, delicada, quis saber se estava tudo bem, ouviria o bebê e oferecia toque. Eu aceitei e ela ouviu o Davi, que estava bem, e me disse que estava com 6, achou ele alto e disse que eu podia usar a bola. Eu a essa altura havia "aprendido" a unica coisa que me deixava um pouco melhor durante as contracoes: uma leve agachadinha e pressao em pontos bem precisos nas costas. Segui com meu metodo, acreditando naquela maldida frase de que mulheres sabem parir. Depois de 1h30 veio outra moça, mesma coisa, escuta e toque. Dessa vez recusei a maca. Pedi se nao escutaria comigo em pe (na outra visita eu quase morri nessa de vai pra maca, sai da maca, ouve o bebê... Putz que eternidade de dor intensa!). Pra minha surpresa ela topou. Ouviu, tudo bem, o toque ou nao teve jeito ou nao teve toque, nao lembro. Lembro algo no sentido de nao ter evoluído nada e o bebê estar alto. Sugeriu a bola. Eu disse a ela que a outra moça tb sugeriu mas que doia muito. Ela foi bem enfatica dizendo que eh isso mesmo, que vai doer mais e o bebê vai encaixar e que eh assim que as coisas sao, que eu suportaria a dor, que era natural. Sentou na bola pra me mostrar. Segure aqui, quando vier a contraçao você faz movimentos assim, bem amplos, quando a contraçao acabar aproveita a cama e descansa pra próxima. Essa moça não foi doce, inclusive foi uma dessas pessoas que entra no quarto como se nada tivesse acontecendo, fala alto, espera que responda... Ela me orientou e foi a melhor pessoa com quem topei por lá. Se dependesse da minha "sabedoria" nao ia usar a bola nunca. Doia muito. Em 1h30 eu tinha pulado de 6 pra 9 de dilataçao, doeu horrores e entrei quase num transe. Só eu sei a que custo! A cada contraçao eu me esforçava, eu quase morria mas ia adiante, eu chorava, eu gemia, rangia os dentes... Mas a coisa foi acontecendo. A essa altura eu já tinha pedido analgesia, ela me disse pra segurar mais um pouco, veio com os contras sugerindo que eu segurasse mais um pouco. Eu no fundo não queria analgesia e concordei. Eu não me sentia tendo escolha, mas era muito claro pra mim que em sã consciência eu jamais desejaria passar por aquilo. Gente, na minha experiência parir foi uma coisa muito, mas muito violenta. E aqui começa a violência de fato, a violência institucional.
Veio uma moça, também blasé como muitos, do tipo fala alto e espera respostas como se nada estivesse acontecendo. Foi ela quem aferiu meus 9cm. Não aceitou ouvir o bebê em pé, reclamou na minha demora em estar em posiçao, reclamou que eu pedia para aguardar passar a contraçao, ignorava que eu dissesse que doia muito.
Me ofereceu de estourar a bolsa justificando que aceleraria o processo. Quis. Eu estava em desespero. Disse que tinha que ser durante contraçao. Eu nao conseguia, gritava, implorava pra nao fazer. Acabou aceitando muito a contra-gosto tentar estourar a bolsa no intervalo. Me pediu pra fazer força, eu fiz e ela conseguiu sem grandes dificuldades. Eu a odeio, eita pessoa sádica! A bolsa continha como que um caldo de ervilha mais ralo. Ela se orgulhava de ter estourado e descoberto meconio. Me disse que agora corriamos contra o tempo. Saiu da sala e retornou não muito tempo depois outra moça, mais tranquila, ouviu o bebê, tava tudo bem. Em pouco tempo veio essa louca de novo. Chegou com a macaca, perguntou se eu sentia vontade de fazer força e eu disse que não.
Até estava tendo um duvida sobre isso, fazia as vezes uma força nao exagerada para tb não cansar, fazia porque aliviava em algum nivel a dor, mas nao bati todo esse papo com ela. Disse q nao e pronto. Ela veio: voce tem que fazer força. Eu perguntei porque aquilo tava acontecendo comigo, que eu entendia que naquele hospital nao teria isso. Ela ficou irada e meio debochadamente me disse: "minha querida todo mundo aqui que parir vai fazer força", que nenhum bebê nasce se a mae nao ajudar, que eu tinha que ajudar. Gente, que loucura! Nao dava pra discutir. Me mandou subir na maca pra fazer força. Eu disse que não queria a maca, que a maca era horrivel, que era insuportavel. Nao teve essa. Subi, me dirigia para fazer força (nao sei se nessa hora ou depois disso que ela viu que não havia mais colo do utero e que estava com dilataçao total). Fazia força e ela dizia q tava errado. Que tava no ombro, no pescoço, que não adiantava gritar, que se gritasse não ia dar certo. Me lembrava que era a força de fazer cocô... Eu tentava e ela foi metendo a mao pra dentro da minha vagina (acho que, generosamente, pra sentir se estava certo ou pra saber se o bebê descia... O motivo real era seu gosto pela tortura). Nem saberia dizer a você o que ela fez, se era um dedo, dois, tres, a mao inteira. Não me pediu nem comunicou que ia fazê-lo, mexia interno, doia horrores. E eh claro que dessa forma eu não conseguia mais nada, nem sei onde estava eu naquela sala. Ja sei, eu estava implorando pra parar e pedindo cesarea. Também pressionava a minha barriga para contrair. Quando a contraçao cessava ela vinha apertar, funcionava, doia muito. Nao era Kristeller, a ideia não era empurrar o bebê, mas contrair. Tambem ironicamente ao longo desse processo, antes dessa ultima cena, ela tentava auscutar meu filho e nao conseguia. Eu ja estava enlouquecida. Tentava perto do meu umbigo. Acabei ficando de pe. Expliquei pra ela que a moça anteriou havia o escutado ja entre a barriga e a pelve, tentando ajuda-la a encontrar. Mandou voltar pra maca, eu pedi pra tentar naquela posiçao. Ela disse: assim eu nao consigo. Ora diabo! Nem na maca...! Ela nem tentou e eu não disse nada, so pensava que queria meu filho vivo. Subi na maca e ouvi ela reclamando com outros dois que eles nao ajudavam em nada mexendo no celular. Atente-se ao fato que eu não sei quantas pessoas estavam na sala, que eu urrava de dor e que tinha contraçoes uma atrás da outra. Na maca ela ouviu o meu filho bem vivo e bem esperto ja na parte pelvica mesmo, onde eu havia dito. Apesar disso saiu da sala e voltou rapido depois da tortura que já lhes relatei dizendo pra eu escolher entre ocitocina e cesarea. Nem pisquei. Já tava pessimo sem ocitocina com essa pessoa. Foram preparar a cesarea enquanto eu tentava ficar de pe. Quiseram pulsionar minha veia durante contraçao. Gente... Não dava. Eu tremia toda. Me colocaram numa cadeira de rodas muito putos de terem de aguardar terminar a contracao pra isso. Corriam feito loucas, bateram minha cadeira contra umas duas ou tres coisas no caminho e eu contraindo... "Por favor, vcs precisam tomar algum cuidado comigo, eu to com muita dor." Se riam. "A gente ta cuidando, a gente tem que ir rapido." Chegaram na sala e, nao sei se era deboche, mas eu achei que sim, uma delas informou: "ela disse pra tomar cuidado com ela, ué a gente ta cuidando neh?" Na sala da cesarea eu so pensava na anestesia. Cade a anestesia? Os caras tavam putos porque a veia nao chegou puncionada. Alguem explicou: "ela nao deixou". Nessa sala os caras foram mais razoaveis e inclusive antes de dar a anestesia esperaram uma contracao. Enquanto tavam dando veio outra, nao soube se ia aguentar parada... Mas fez efeito a tempo. Nem se imagina como eu estava feliz com aquela cesarea. E dali nasceu meu filho e, depois de todo esse horror, ele era lindo, ele estava saudavel e eu me sentia alegre. Mas é inacreditavel e absurdo que tenha sido assim. Tudo o que eu idealizei foi um parto com respeito. E foi assim que aconteceu.
Obs: eu fiz um plano de parto em 3 vias e bem completo. Dizia que nao queria que estourassem a bolsa ou induçao para fazer força e muitas outras coisas.
Obs2: No quarto que fiquei havia 3 moças de parto normal. Apenas uma com laceraçao pequena (3 pontos), outra com mais pontos, mas não sei detalhes. E uma com laceraçao interna e externa...
Obs3: Meu marido me apoiou o tempo todo, me ajudando com massagem e com agua quente com uma toalha nas costas enquanto eu estava na bola. Pra ele foi muito dificil me ver naquele estado de dor. Ele ja estava muito abalado quando o circo dos horrores aconteceu. Eu não consegui me defender e ele também não conseguiu. Ficam as marcas pra nós dois... Talvez bastasse dizer: "quero outro profissional, não aceitaremos seguir com você"... Mas não fomos capazes. Não sei o quanto a doula interviria, mas ainda que não fizesse, a propria profissional agiria de outra forma. Eles separam os pacientes entre os que tem doula e os que nao tem...
Obs 4: havia espera por sala no corredor e na minha saída entraram rapido pra limpar e dar espaço pra outra. Sim, o fluxo faz diferença no atendimento.
Obs5: dá vergonha falar do meu estado tao fragil, ter tido medo de continuar e escolhido a cesarea ao inves da ocitocina (vergonha mas nao arrependimento), vergonha de não ter sido "forte" ou que menosprezem o que se passou comigo, como se eu fosse "fresca". E uma infinita tristeza com a realidade obstétrica atual e por me sentir vítima, quando fiz muito pra ser dona da situação. Todo o meu saber, naquele momento, serviu pouco.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Houve um dia, por volta dos 2 anos de idade que ele quis fazer xixi no vaso infantil. Sentava, nada. Estava ansioso. Bebeu, bebeu água. Quando deu a vontade fez ali. Ficou maravilhado. Nunca mais quis. Não falou no assunto e reagia mal quando sugerimos que ele seguisse usando o vaso.
Irmãozinho pequeno, muitas mudanças na rotina, Davi não queria sequer ficar sem fralda. Isso durou dos 2 aos 3 anos. Faltando ainda uns meses pro aniversário de 3 anos ele disse espontaneamente: quando eu fizer 3 anos eu vou fazer xixi no vaso. Quanto mais próximo do aniversário, mais ele repetia que só ia fazer xixi no vaso quando tivesse o meu tamanho.
Qualquer dessas previsões dele nós apoiávamos.
No dia do aniversário ele ficou bem feliz. Veio um amiguinho em nossa casa, foi um dia bem legal. Mas no meio da realização de estar fazendo os 3 anos ele me diz com expressão chateada: "mas mamãe... eu nao quero fazer xixi no vaso". Mantenho que ele fará quando quiser e ele diz que só quando estiver no meu tamanho.
Uma semana depois do aniversário ele pediu pra ficar apenas com a calça, sem fralda. Vasou rápido. Estávamos fora de casa e eu pedi que continuássemos na nossa casa, no dia seguinte. Ao chegarmos eu o lembrei do pedido que havia feito e propus continiidsde. Ele quis. Nesse dia, de 4 xixis, 3 vasaram. Só incentivamos. Dissemos que era assim mesmo, que ele estava aprendendo, que estava se conhecendo melhor. No dia seguinte vasou apenas 1 e depois, no outro, nenhum. E passaram uns dias com 1 ou 2 esapes e a maioria dos dias com todos os avisos.
Passou pouco mais de 1 semana e não queria dormir de fralda. Como tínhamos até ali um histórico de 100% de fraldas molhadas pela manhã e, nos últimos dias até vazadas de tão molhadas, sugeri que ainda não era o momento. Passei o dia refletindo, preparei o colchão dele e esperei o pedido se repetir. Batata! Quando ele pediu eu expliquei as possibilidades daquela escolha: desde o sucesso até o sono extremo e descofortos e trocas e tal. Ok, ele quis. Estávamos prontos pra ir resolver tudo. Deixamos o colchão do berço ja com lençol novinho. E surpreendentemente essa a 1a noite que ele acordou seco.
A noite seguinte vasou. Familia inteira madrugando. E foi a última. Todas as seguintes foram noites secas.
Ele as vezes percebe que quer fazer xixi muito em cima da hora. Precisamos ser rápidos, e mesmo sendo as vezes tem um pequeno escape. Já de noite, houve depois momentos pontuais de xixi na cama: saída pra viagem, retorno de viagem e mais um que não lembro nada específico.
Estamos com ele na jornada. É bem bonito.