terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Escrevi um livro

 Oi, oi, bom dia! Ou nem será bom nem será dia? Que cansativo... pelo menos já é noite? Descanse ou cante. Veja o que lhe convém. Esqueça também. De mim? Sim... fazer o quê? Agora só importa você. E ficarei ali, esperando, mais um encontro que teremos. Oremos. 

Silêncio! Ou pensa que não preciso de um tempo? Lamento. Cá estou já escrita. Segue, leia, meus intervalos já foram dados. Entre um colo, um dia, um cansaço, eu vim tecer nossos retalhos. Quem sabe construímos um templo com eles? No altar colocaremos uma foto nossa. E em nosso ritual ofereceremos nossos desencontros e venerações, serviremos uma mesa farta de água, pedras e dos frutos que plantamos. Hoje já nos alimentam. O espelho que vejo em seus olhos também está aqui registrado. E as músicas que compus estão cheias dos seus abraços. Enquanto as faltas que nos permeiam abriram espaço para distanciamentos ou criações. 

E desejando ser amada e ao mesmo tempo amando amar te digo: não siga se não quiser. Basta o templo construído. Pode vir comigo. Você faz parte de mim. E pode ficar também, tenho aprendido a caminhar só.

Amigo Gaell

 O mundo secreto das mentes engana inocentes. Acreditam que muito são, muito sabem e não entendem nada. Por que ele grita? Por que não fala? Há quem responda. Não creio, desvio. Sinto arrepio, um pouco de nervoso, um carinho sem alvo certo. Não sei nem se estou ali pra ele, se sabe meu nome, se significo alguma coisa. Curiosidade de saber seu universo de criança, suas vontades nas músicas que escolhe, no olhar que se acha e se perde, que tanto entende mas nem sempre retorna. O grunhido que os pais diferenciam se é de alegria, angústia, chateação. 

Que será que lhe aconteceu? Será uma escolha subjetiva? Serão os remédios? Foi a zika? Que faz esse menino tão querido tão distante do meu normal? Serei eu pra ele também meio esquisita? Eu e as minhas inserções e concepções. Eu e ele: tão livres e prisioneiros de nós mesmos. Sorte a minha que escrevo. Ele urra. Sorte a dele que urra. Eu escrevo.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Abrindo as asas

 Me pego ponderando o carpe diem, as múltiplas possibilidades que se apresentam andando sempre pra frente desapegada de lugares, pessoas, coisas e confortos. O que me impede de constituir outro modo de viver ou o quanto a minha realidade é escolhida dia após dia. O preço do medo que anula a minha liberdade. O quanto de violência eu viveria pela liberdade escolhida... e, finalmente, o meu compromisso com os que contam comigo, que de forma mais visceral são os meus filhos.

Hoje realmente me sinto enredada na minha responsabilidade com esses seres. E mais que isso: eu os amo tanto que jamais abandonaria o meu trabalho pela metade. Esse esculpir junto deles as pessoas que se tornarão... e também a sensação de que o desamparo é um rombo. Eu me interesso por eles mesmo, de corpo e alma. Essa fantasia do largar tudo sem destino certo é na verdade uma necessidade de tomar ar, ter outros viveres. E também ensaia meu vôo que ainda não dei, e que as vezes me larece sem referências, sem  segurança. Um passo para a liberdade e para o perigo. Poderei voar ou cair. E será preciso me arriscar um pouco. Não em direção ao nada, mas em direção ao reino que construí pra mim. Não um devaneio, um saber.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Engrenagens

 Um universo de engrenagens, sistemas correlacionados e de difícil percepção. Uma parte dessa incógnita mora logo aqui:  quando faço meus exames fico ansiosa para saber o que dizem de mim. E dizem da minha alimentação ou de características próprias da minha pessoa, como minha quase anemia natural, e também se órgãos funcionam como se espera deles.

A finitude certa e os problemas de saúde que já se apresentaram em mim me fizeram observar que, para muito além do meu saber e do meu sentir, minhas engrenagens escondem de mim seus segredos e, pifem rápidas ou lentas, pouco sei sobre seu funcionamento. Outro dia me contaram duas incursões por médicos: a moça com pólipo no útero, antes dos exames ouviu do médico que era gorda e por isso o sangramento aumentado, já o senhor, que aguardasse com seu câncer de próstata para decisão terapêutica adequada. Com medo procurou outro profissional que logo extraiu o tumor dizendo o quão agressivo ele era... e, nada fosse feito, a moça seguiria sangrando por ser gorda e ele seguiria sendo tomado por um tumor agressivo aguardando que se decidissem caminhos. E o que eles próprios sabiam de si? Nada. E os médicos? De posse dos exames faziam apostas... 

E se no meu funcionamento desconheço causas, efeitos, vicissitudes do meu corpo até que ele dê sinais de avaria ou ainda, que mesmo em pleno funcionamento preciso observar concentrada meus sentimentos, minha respiração, minha fome, sede, gula, vontade de fazer xixi... vou sendo tomada por esse corpo cujo funcionamento ppuco acesso.

E fora de mim? As engrenagens que nos une, que move nosso planeta num universo, que mobiliza as decisões animais e a força vegetal... cadê os exames para que possamos vislumbrar essa dança?

Até quando meu corpo vai optar por manter sua regularidade? Meu pai se foi já faz 12 anos. Meu avô tem 96 anos, em breve 97. Está vencendo a Covid19 nesse exato momento. Minha tia morreu aos 52. Nossos corpos imprimem limites. 

Na intimidade com meu corpo dou a ele minhas sobras, meus excessos e minhas faltas. Dou a ele marcas, alimento feridas. Cuido dos ouvidos e da boca com mais cuidado, as palavras e a água são bem observadas. As vezes sinto pontadas, coceira nas costas, cutículas incômodas. Prisão de ventre fez algumas histórias, e muitas infecções urinárias curadas com água em excesso. Cabelos foram alisados muitas vezes, mas de forma permanente apenas uma. Ainda bem jovem priorizava dinheiro para coisas que considerava mais úteis. Unhas pintadas muito raramente. Incovenientes pêlos nascidos no queixo são retirados. Nunca me depilei permanentemente por pena de matar minhas própria células, vai que elas respondem iradas. E sobrancelha grossa e buço marcado são lamentos na minha imagem. Luto contra uma postura curvada. Há risada com gengiva aparente, mas pior que a imagem eram os deboches de imitação de seu som, sentia-me oprimida.

E muitos poderiam ser os relatos referentes à minha existência num corpo. Mas quanto mais escabroso fica, mais penso em recuar. Vai que alguém lê... e lendo-me descobre mais do que posso dar ou descobre de mim coisas que ainda não descobri. Então o sono é um ótimo álibi nesse momento. Meu corpo pede cama. Amanhã eu precisarei acordar e meus olhos quererão se manter fechados. E minha mente seguirá precisando de um reset, o que já há bastante tempo ocorre de forma parcial. Que dirá meu corpo sobre isso? Acostumou? Faz parte da maternidade? Ou me cobrará as horas não dormidas com multa e juros logo mais?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Cachu com os meninos

 Vim escrever uma coisa nova. Pensei no dia cheio de atividades, tantas singelezas para relatar e... pouco de mim pra dar. Fui mãe a maior parte do dia. Não que ser mãe não seja eu. Sou muito mãe. Mas ser mãe é ser num outro, por um outro. Do meu jeitinho único de ser a mãe que sou. Mas é num se dar tão intenso que minhas questões são secundárias, meus desejos têm pouco lugar. 

Onde mais me vi hoje foi na minha sensação de vergonha do corpo. Ela ainda é muito presente. Hoje simplesmente assumo que o corpo que tenho é esse e que não me interessa os que não puderem conviver comigo como sou. Ainda mais corpo... a parte menos importante do que sou.

Apesar disso, me sentia na boca do povo. Indiscreta, motivo de assunto ou até de chacota. E, como confio pouco nos humanos que me cercam, não creio que comentassem como meus filhos pulavam felizes no meu colo ou como eu descontraía meu mais novo com brincadeiras para ele não ficar focado na água tão fria... ou como estávamos unidos fazendo um lanchinho saudável. Se falassem seria do que em mim destoava. Uma pena, mas é assim que somos. Tento não sê-lo.

No mais, pouco pude respirar com atenção. Toda a atenção é para fazer valer a pena, é pela proteção dos pequenos na água, nas pedras, na trilha. É ser apoio, indicar caminho, levantar do tombo. É incentivar experiências, mostrar a eles que ali se passa uma parte da nossa história e ensinar a preservação do espaço e os valores que cultivamos. Olhar a horta, as borboletas, as diferentes plantas e o movimento das águas. E vivendo com eles a gente também está ali, tão presente. Mas nesse se dar a gente revive o passado e constrói com eles um presente, um presente muito mais deles do que nosso. Ou não exatamente isso. A questão é que muito do que somos fica em segundo plano. Nosso presente é sermos os pais. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Dando-me

 Chega cada vez mais o momento de me lançar. A sensação do tempo escoando e do serviço a fazer angustia um tanto. Sempre o medo de não-ser ou da incompetência estão massacrantes sobre mim. E, conforme o tempo passa, vem ficando uma pergunta que me fiz: menina! Mulher! Seja pouco ou seja muito, seja! Pois o tempo há de findar e sua chance de ser está indo...

Hoje meu filho pediu a definição de "incompetência". A resposta me arrepiou a espinha, certa das minhas. E, ainda que eu saiba que incompetentes somos todos, não consigo ainda agarrar-me às competências. Certa de que as tenho desconfio dos que as vejam.

Em breve farei entregas de partes de mim. Sentindo de antemão que não quererão me ver... saberei os retornos brevemente. E ainda que haja nenhum retorno precisarei saber o que fazer. Insistir para descobrir onde vou ser? Oh dureza de existir...

Valores

 Não tenho um bom emprego.
Nao tenho emprego.
Não tenho rendimentos.  
Trabalho mais com o nao-saber que com o saber.
Sei pouco. 
Sou uma psicóloga que abdica da psicologia em geral. 
Não sou psicóloga, mas me graduei em psicologia.
Não fiz uma especialização válida. 
Não tenho mestrado nem doutorado.
Estudei numa Escola de psicanálise, fiz análise por muitos anos, o que só sabe quem tem olhos de ver.
Meus valores são vistos a uma curta distância, de longe não sou nada.
Quem vê o meu valor?
Quais os valores que se quer ter?
Quando eu me for... irá comigo tudo que fui.
Ana Só. 
Ana foi.
Ana?

10/2021