Um universo de engrenagens, sistemas correlacionados e de difícil percepção. Uma parte dessa incógnita mora logo aqui: quando faço meus exames fico ansiosa para saber o que dizem de mim. E dizem da minha alimentação ou de características próprias da minha pessoa, como minha quase anemia natural, e também se órgãos funcionam como se espera deles.
A finitude certa e os problemas de saúde que já se apresentaram em mim me fizeram observar que, para muito além do meu saber e do meu sentir, minhas engrenagens escondem de mim seus segredos e, pifem rápidas ou lentas, pouco sei sobre seu funcionamento. Outro dia me contaram duas incursões por médicos: a moça com pólipo no útero, antes dos exames ouviu do médico que era gorda e por isso o sangramento aumentado, já o senhor, que aguardasse com seu câncer de próstata para decisão terapêutica adequada. Com medo procurou outro profissional que logo extraiu o tumor dizendo o quão agressivo ele era... e, nada fosse feito, a moça seguiria sangrando por ser gorda e ele seguiria sendo tomado por um tumor agressivo aguardando que se decidissem caminhos. E o que eles próprios sabiam de si? Nada. E os médicos? De posse dos exames faziam apostas...
E se no meu funcionamento desconheço causas, efeitos, vicissitudes do meu corpo até que ele dê sinais de avaria ou ainda, que mesmo em pleno funcionamento preciso observar concentrada meus sentimentos, minha respiração, minha fome, sede, gula, vontade de fazer xixi... vou sendo tomada por esse corpo cujo funcionamento ppuco acesso.
E fora de mim? As engrenagens que nos une, que move nosso planeta num universo, que mobiliza as decisões animais e a força vegetal... cadê os exames para que possamos vislumbrar essa dança?
Até quando meu corpo vai optar por manter sua regularidade? Meu pai se foi já faz 12 anos. Meu avô tem 96 anos, em breve 97. Está vencendo a Covid19 nesse exato momento. Minha tia morreu aos 52. Nossos corpos imprimem limites.
Na intimidade com meu corpo dou a ele minhas sobras, meus excessos e minhas faltas. Dou a ele marcas, alimento feridas. Cuido dos ouvidos e da boca com mais cuidado, as palavras e a água são bem observadas. As vezes sinto pontadas, coceira nas costas, cutículas incômodas. Prisão de ventre fez algumas histórias, e muitas infecções urinárias curadas com água em excesso. Cabelos foram alisados muitas vezes, mas de forma permanente apenas uma. Ainda bem jovem priorizava dinheiro para coisas que considerava mais úteis. Unhas pintadas muito raramente. Incovenientes pêlos nascidos no queixo são retirados. Nunca me depilei permanentemente por pena de matar minhas própria células, vai que elas respondem iradas. E sobrancelha grossa e buço marcado são lamentos na minha imagem. Luto contra uma postura curvada. Há risada com gengiva aparente, mas pior que a imagem eram os deboches de imitação de seu som, sentia-me oprimida.
E muitos poderiam ser os relatos referentes à minha existência num corpo. Mas quanto mais escabroso fica, mais penso em recuar. Vai que alguém lê... e lendo-me descobre mais do que posso dar ou descobre de mim coisas que ainda não descobri. Então o sono é um ótimo álibi nesse momento. Meu corpo pede cama. Amanhã eu precisarei acordar e meus olhos quererão se manter fechados. E minha mente seguirá precisando de um reset, o que já há bastante tempo ocorre de forma parcial. Que dirá meu corpo sobre isso? Acostumou? Faz parte da maternidade? Ou me cobrará as horas não dormidas com multa e juros logo mais?
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