Já não aliso meus cabelos. Às vezes sinto vontade. Sei que a realização por um dia os fará mais fracos, quebradiços e opacos por um bom tempo. Não sigo.
Já quase não tiro a sobrancelha. Detesto. Dói demais. Pêlos grossos, caem algumas lágrimas, esfrego o rosto. Diziam que eu ia me acostumar. Não tentei o bastante ou não aconteceu.
Já não uso sutiãs que apertam meus seios a fim de que pareçam artificialmente próximos, duros ou interessantes. Observo com estranheza como esse universo me pertenceu. Como fui convencida?
Já não clareio pêlos de nenhuma parte do corpo. E nem sempre os depilo. Às vezes me sinto descuidada, tal como sou com tantas coisas em minha vida. E olha que sou uma boa cuidadora...
Ontem o ano viria novo. Coloquei colar, brincos e anel. Coloquei um vestido mais curto, embora meu shortinho por baixo me conferisse liberdade de movimento. Pintei a boca e só não pintei os olhos por não ter encontrado o lápis. Senti-me bonita. Sei que possivelmente me decepcionaria com as fotos.
Ainda me vejo perdida entre a farça de estar uma mulher enfeitada, fantasiada de bonita... meu próprio olhar, que vê beleza no conjunto com adereços e o meu ideal de ter uma beleza intrínseca, que eu mesma tenho dificuldades de ver, no cabelo da hora que acorda, no corpo como ele é, em sua verdade, uma maravilha de simplesmente ser... ainda procuro me achar. Um batom sem falsas promessas mas um olhar de mim pra mim com mais estima. Eu nao quero cinta, eu não usarei salto, eu não farei dietas loucas. Quero um lugar em mim.
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