sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Arriscando vida, sob outro ângulo

Sozinha nunca estava. O medo era meu fiel companheiro. As vezes mais discreto, às vezes barulhento, apostava na vida porque era o jeito. Vida, perigosa vida, me oferece a morte no seu avesso.

Apostava na morte, caminhando sozinha, quem sabe? É preciso dar chance pro azar. Quantos fins imaginários podem sustentar nossas práticas... Mas mesmo que haja possibilidades de não-ser, termino minha aposta viva, com vida, e tendo vivido um pouco do que tangencia a morte: entre o horror e o belo.

Vivi mortes em vida. Abandonos, solidões, crises, mordidas, desencontros, perdas, despedidas, faltas. A vulnerabilidade é uma conhecida da qual quero distância. Apesar disso quero ficar velha. Só não fica velho quem morre novo.

Eu queria que a vida fosse uma escada ascendente. Com isso aprenderíamos muito, cresceríamos e morreríamos bem. Mas, se existe uma escada a subir, alguns sobem na escada do entendimento da vida e aceitam mais resignados ou resilientes as suas condições e intempéries. O fim da vida é apenas o fim da vida, merece tanta dignidade quanto os outros pedaços. Dignidade que nos preenche e nos falta ao longo do percurso.

Com sorte teremos aproveitado os momentos em que encontramos pares, as alegrias pontuais e belezas fugazes. É o possível e precioso ar da vida.


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Arriscando vida

 Sozinha, sozinha. O silêncio me acompanhou. Caminhando e percebendo o medo de não estar só. Quando estamos realmente sós?
Quando eu era mais jovem tinha medo de levar o lixo no meu andar do prédio. Eu ia até a lixeira e quando virava de costas a sensação de que alguém me perseguia era forte demais. Cheguei a correr, outras vezes conferia se vinha alguém e, com mais confiança, conversava mentalmente comigo mesma que aquilo era uma criação minha, me obrigando a não conferir nem correr. Conseguia, fechando a porta com coração acelerado. Esse medo me acompanha muito menos intensamente. 
Já tem um tempo que penso subir montanha sem depender de companhia. E assim já fiz e amplio minhas experiências. Hoje subi o Cortiço. 
Essa montanha fica num bairro bem povoado, o acesso é muito fácil e a trilha curta. O dia não estava muito bonito e, por isso, eu não esperava encontrar nenhum montanhista por lá. Tudo estava muito úmido, o barranco vermelho exposto, logo me preocupei com acidente. E se caio? Escorrego? Pouco pra dentro da trilha eu já vivia o verde intenso e a sensação de estar longe da civilização. Mas os sons de cachorro eram muito altos e eu, que tenho medo de cachorro, comecei a pensar se aqueles insistentes latidos não eram mais um sinal pra eu não subir. O medo vai contando umas histórias trágicas ao pé do ouvido. 
Segui subindo. Parava, olhava, pensava pontos de esconderijo caso eu escutasse gente descendo. Me perguntava se estava valendo a pena... Apesar de seguir, de vez em quando parava para refletir e conferir algum barulho, já que os latidos tinham ficado pra trás. E ali, tão sozinha, eu apenas parei pra escutar. Faltava silêncio. Eram muitos pequenos barulhinhos em vários pontos da floresta. Não estava só. A floresta é viva. Não era por isso que eu estava ali? Ouvi por um tempo os muitos poucos sons que aconteciam naquela largueza verde ao meu redor. Até que, de repente, ouvi um piado alto, canto de pássaro bem localizado. Segui minha caminhada na direção dele, seguindo a trilha pra cima e, passando, deixando o som dele pra trás. E resolvi que ia, que o risco valia a pena. Pensei na morte digna. Cheguei ao cume, nenhuma pessoa, nenhum bicho, nenhum perigo real. E desci sem  encontrar pessoas, sem bichos e sem perigos. Não tropecei, fui atenta também às pedras. Os sons já não me tocavam tanto e sentia o silêncio da floresta. 
Cheguei com a missão cumprida: viva, vivíssima!

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Processo de escrita

 Escrevo pra mim. Desde que comecei a escrever eu quis escrever. Quem quer escrever tem algo a ser registrado.
Escrevi e mostrei pro meu pai, pra minha mãe, pras professoras. Meu pai tinha um defeito grande que era apontar os problemas. Então, se algo está muito bom mas tem um detalhe que pode ser aprimorado, ele aponta o detalhe. E nada mais. E se tem muito a ser aprimorado, ele tem muito a menosprezar. Minha mãe hoje valoriza meus escritos. As primeiras lembranças que tenho das leituras dela são as lágrimas. Mas não lembro desse processo incial de escrita. As professoras corrigem e dão nota. Corrigem e dão nota. Eu sempre gostei de fazer as redações apesar disso. 
Escrever me localiza. Depois olho pra mim num tempo e espaço. Leio minhas passagens, sinto com vivacidade o que me atravessava. Bem eu que não lembro de tanta coisa. Sinto e isso me conecta com esse eu que é uma construção no tempo.
Durante muito tempo escrevi pela minha solidão. Divido comigo mesma o que transborda. E troco com minhas próprias palavras buscando que outras apareçam para que haja uma travessia: começo, meio e fim. Mas muito mais meio. Eu quero chegar em algum lugar, quero caminhar pelas palavras que me ocupam. 
Hoje eu não sou tanta solidão. Sigo sendo bem esquisita, um pouco fora da curva, procurando a curva e seus limites. Mas há quem olhe pra mim, quem goste dos meus descaminhos e torça pelas minhas conquistas. E sempre que me aproximo eu vejo que a matéria prima é parecida. É do humano. 
Queria falar, comunicar, ser ouvida. Quando adolescente me perguntava como se fazem os amigos. Fiz amigos e amigas. E eram mesmo. Não deuses, amigos. Confiei que eram mesmo amigos. Não deuses, embora eu os endeuse. Os deuses de carne e osso. Decifrei um pouco dos afetos. Não é a toa que escrevo sobre as relações, os amores, os deslizes, as faltas... Tudo isso que somos nós. E um pouco confusa entre a qualidade do que escrevo e a qualidade do que sou, arrisco um partilhar. Do que sou e do que produzo. Ainda que isso não determine quem sou ou o que produzo. Mas falo contigo, confiando no afeto. No meu mesmo. Desconfio que eu não seja assim tão deslocada. Que a curva seja turva pra todos nós e torço pra que nos encontremos na esquisitisse e na falta, nossas mais sinceras verdades.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Você aprendeu a amar?

 Hoje eu estava ouvindo um livro que comentava sobre como as mulheres amam. O modo mesmo, de que maneira. E fiquei me perguntando sobre quem teria me ensinado como era ou deveria ser o meu modo de amar, afinal de contas eu sou mulher e há quem escreva sobre observações dos amares das mulheres. E embora muitas coisas me disseram sobre como uma mulher é no mundo, de repente percebi que sobre o tema do amor talvez eu estivesse muito despreparada. E o pior: não é despreparada para amar em si, mas amar formalmente falando, guias, instruções... aconteceu de eu ter encontrado caminhos por vias não muito seguras, a partir de observações e impulsos. Essa experiência criou para mim uma grande questão de quantas mil outras coisas eu fazia ou me apresentava de certas formas sem que eu estivesse devidamente preparada para assumir aqueles papéis. Por outra via, me pergunto para que funções eu estou definitivamente preparada.
A profissão que escolhi é das coisas mais loucas que esistem. Sou onde não penso, a gente estuda pra aprender a não saber. E é muito difícil, pode ter certeza. Como você vê: estou às voltas por tudo que eu gostaria de saber fazer adequadamente. Minha inadequação é, por um lado, absoluta, por outro, sou verdadeira marionete da cultura. Falam sobre como eu amo sem sequer terem me perguntado! E ainda me identifico! Um absurdo daqueles! 
Outro dia me falavam sobre o abraço espontâneo ser bem-vindo e o abraço burocrático, aquele que é dado porque assim deve ser feito, não ser. Mas a verdade é que aprendemos os momentos em que se dá um abraço como resposta. Os abraços mais verdadeiros ou mais burocráticos são todos atravessados pelo modo de fazer que aprendemos. Incorporamos esse modo de viver e ler o mundo. E até de criticar e tentar mudar os modos estruturados. 
Tão curioso... Porque queremos a autonomia de sermos nós mesmos, de termos um lugar autoral. Mas estar dentro da cultura é preciso, a forma, os limites, tentativas de dialogar com o que já é consolidado trazendo para uma discussão da coletividade. Estar fora da cultura, adquirindo formas muito próprias de amar gera desconexão, estranhamento. É o louco, assumindo uma forma muito própria, porém incompreensível. Precisamos de pequenas fissuras pra loucura entrar. Deslizes que garantem a nossa particularidade. E a legitimidade, que tem um viés legal, aquilo que participa da norma, mas também tem autenticidade, marca própria. Será assim o nosso amor?

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Viola no saco ?

 Sempre encaro situações de embate com alguma dificuldade. E sigo observando o mundo com interesse para ver se aprendo algo de novo e me posiciono na vida de forma mais interessante.
Houve um tempo em que eu trabalhava com a hipótese de um modo certo. Eu sempre fui boa na argumentação e em conquistar posições a partir da empatia do outro. Mas também sempre me encantei de alguma forma com quem se impõe e deixa o outro sem alternativas que não a de atender àquele pedido, um lugar justo e devido. As duas formas falham e venho acreditando que há situações em que cada uma dessas versões ganha mais espaço. E aí tem dois problemas. Um é que, quando você aposta num caminho, dificilmente você consegue ir pro outro na mesma situação. E o outro é, para mim, sustentar um lugar de poder e de exigência diante do outro.
Hoje vivi uma situação intensa pra mim. Está começando o tempo quente e depois do almoço fomos pra cachoeira, uma grande alegria. Ficamos lá sozinhos por um tempo e chegaram dois homens depois. Um deles, mais simpático, entrou na água, brincou com a gente, desceu escorregando com a nossa garrafa. O outro ficou aguardando. O lugar onde ele aguardava caia água de quem descia escorregando. E meu filho desce escorregando muitas e muitas vezes. 
Teve alguma dessas descidas em que a felicidade do Davi foi proporcional às queixas do cara, que levou uma aguaceira nas costas. Ele estava num local inadequado pra quem não queria se molhar... Eu o ouvi esbravejar, irritado, e perguntei se ele estava reclamando. Falou enrolado, me respondeu meio atravessado e a minha vontade era a de entrar na mesma energia dele, colocando-o em seu devido lugar. Mas me vi ali: uma mulher sozinha com duas crianças numa cachoeira sem mais ninguém. Ele, acompanhado de outro homem e de uma garrafinha de cachaça... Imediatamente recuei da minha posição de tentar reivindicar o meu lugar e parti para o absurdo oposto: perguntei se ele queria confusão pois eu não queria e, se fosse o caso, me retiraria com meus filhos. O outro rapaz imediatamente se solidarizou e foi convencendo-o a ir embora.
Pudemos brincar por mais um tempo sem eles e quando fomos embora a garrafa de cachaça estava vazia no nosso caminho, mais um sinal de como ele se coloca: sem respeitar os espaços, as pessoas e o próprio mundo em que habita. 
E é com essas pessoas que é um desafio se relacionar. Elas são muitas. Enquanto eu sou só uma mulher no mundo. Uma mulher que leva os filhos pra se divertirem numa tarde quente na cachoeira. E que se apraz de observá-los subir e descer infinitas vezes, nadar e pular, colocando a viola no saco, disposta a dizer a eles: vamos embora porque aquele moço quer confusão e eu não. Eu não quero ser a pessoa que briga, mas eu quero saber brigar se for preciso.