quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Para acreditar é só querer?

 Estamos em época de Natal e, para minha surpresa, no ano passado meu filho mais velho disse que sentia falta da fantasia de acreditar em papai noel. Desde então temos uma rotina de sinos, surpresas, presentes que aparecem debaixo de uma árvore. 

Ele queria brincar de papai noel. Fazemos. Mas ele cada vez mais se enlaça na fantasia e parece em dúvida se há ou não o "bom velhinho". Fica visível a sua desconfiança quando diz: "supostamente foi o papai noel". Supostamente! Mas ele bambeia: "mae, como é que o papai noel entrega presente no mundo inteiro num único dia?" Ou ainda: "não escrevi cartinha porque não precisava. Quando o papai noel viu a nossa casa e a árvore ele já sabia que ia deixar presente pra gente ali debaixo".

Eu tenho pensado no meu "papai noel". Muito cedo me tornei crente nas forças sobrenaturais. Era espiritualista pela via da ayahuasca. Nessa época me aproximei do catolicismo já que estudava em colégio católico. Quando me decepcionoei, um bom tempo depois, estive num grupo de meditação e emanava boas energias para o planeta visualizando cores excipientes dessas forças. Mais um pouco virei umbandista. Sentia a força das entidades e me perguntava se meu corpo receberia alguma algum dia, sempre bem preocupada em não ser uma farça para mim mesma. E fui desencantando. Os seres humanos são terrenos demais para um mundo espiritual tão rico. A filosofia também me encantou e tendi ao agnosticismo. Depois o ateísmo. E retomei o agnosticismo tem um tempo, tendendo ao ateísmo.

O agnosticismo vem de uma estranheza, uma observância dos mistérios que nos cercam. Eu ainda consigo dizer que é coincidência ou alguma forma de comunicação entre inconscientes o fato de a gente pensar em alguém e essa pessoa nos ligar ou a gente precisar de algo e o universo aparentemente conspirar a nosso favor. Mas teve uma coincidência forte demais na minha vida que me balança e não tenho nem resposta nem pergunta que dê conta de explicar o que me aconteceu. Coincidências são mesmo inquietantes.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Noite

 Os olhos cansados que quase fecham

A tela que passo sem sentido

O silêncio da madrugada, um gotejar

Minha gata, quentinha companhia

Preciso ir, preciso ir

Um duro amanhã me aguarda

Descansar, estar pronta para aguentar

Realizar as tarefas, girar o dia

Empurrar com a barriga mais um pouco de vida

Meu prático destino, desatino?

Existo no desabrochar dos filhos

Num velho mix de sentimentos

Entre gostos e desgostos

Escolhas feitas e reafirmadas

Arrependimentos sem retorno

Sem estrada

Sem placa de direção ou regulação

Tateio  e sigo meu coração

Que agora me leva à minha cama

Sem forças para tomar banho e pôr pijama


sábado, 7 de outubro de 2023

O dia dos cães

Era um dia como outros dias
Chovia como em muitos dias
Estava muito muito frio e eu subia pesada das muitas roupas que vestia
Acompanhava-me uma tristeza característica daqueles tempos e uma esperança de um futuro que, de certa forma, eu já saboreava
Eu estava só
Eu era tão só
Eu sentia que estava atrapalhando por toda parte
Minha existência incomodava
Uma existência que exige uma prática, um olhar e um sustento
Existência inconveniente a minha
Até que eles correram até mim
Sentaram-se à minha frente
Fitaram-me nos olhos em silêncio
E me atacaram
Os dentes cravados em meu braço acolchoado de roupas
E latidos ensurdecedores e contínuos
O que fiz pra eles? Me perguntavam.
Existi. Passei por ali. As vezes eu mesma me perguntava: por que eu? Se a manhã toda eles latiram para outros aos quais não atacaram?
Devo mesmo ter feito algo. Talvez o meu silêncio, talvez a inconveniência do meu olhar ou da minha quietude e passividade.
Nunca saberei o que eu fiz...
Mas fui para o hospital, atrapalhando a rotina 
Ala de mulheres e eu sozinha
Pois algumas rotinas sequer foram atrapalhadas
Respondi por mim, eu sabia me falar
Só estava no lugar errado
E também por isso permaneci só
Algumas paredes ao lado estava ele
Que não podia entrar
Até ele eu caminhava, me punha a andar
Com ele fui me vendo e tendo para onde querer ir
Esse é um retrato de como sobrevivi até então e apesar de.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Fortaleza

 A vida nos oferece algumas bizarrices pra lidar. Quando meu segundo bebê tinha 2 meses aconteceu de aparecerem várias manchinhas em sua pele. As manchas, bem características, não nos chamaram muito a atenção mas logo nos pusemos a pesquisar sobre elas. Logo de cara foi assustador mas julgamos que o google era meio dramático e mostrava sempre as piores alternativas. Procuramos, procuramos... não havia muitas saídas. Entramos em páginas respeitáveis, centros de pesquisa de doenças raras. Era mesmo o que parecia ser: nosso menino tinha uma doença genética chamada neurofibromatose.

Quando tivemos essa certeza já sabíamos um pouco sobre a doença e o chão se abria sob nossos pés. Faltava ar, a pressão meio baixa, uma criança pequena muito ativa e feliz exigindo atenção pela casa e um bebê sendo amamentado. Quem nos apoia? Com quem podemos contar? Ligamos para aquele que sustenta tudo, supera tudo, olha para tudo com olhar positivo, tendendo ao melhor aspecto possível. Precisávamos daquela escuta.

Ele quis saber o quão certos estávamos da informação. Estávamos certos. Nos disse o que podia de melhor, nos garantiu que enfrentaríamos juntos o que houvesse pela frente. E, depois de desligar, a fortaleza se desfez, chorando sozinho nos fundos da casa.

domingo, 24 de setembro de 2023

O reencontro de um estranho

Embora o tempo tenha passado
E nossos corpos não sejam os mesmos
Apesar dos caminhos serem tão diversos
Ter tido sol, chuva, maresia...
O seu nome que eu bem sei
E o meu você também 
O brilho dos olhos, um certo balanço
Carregam as marcas daquele dia
E daquele outro e daquela festa
De tantos encontros, de tanta luz
Que compartilhamos e nos fizemos
O que em mim hoje tem daquela Ana?
Será que você quer saber?
Sim, eu quero saber de você, eu te admiro
Porque de onde vieste tenho uma aposta
Que mesmo com muitas divergências
Há outras coincidências
Que me fazem encontrar-te com alegria
Que trazem um reconhecimento
E me preenchem de saudade
De um tempo e de alguém
Que faz parte de quem é você
Porque se pra toda morte há um fim
Também restamos de continuidades
De mais um, mais um, mais um
E, quem sabe, dos caminhos outros que tomamos
Que hoje se reencontram nesse algum tempo
Façamos nova vida, nova história
Não a partir de um nada
Nem da morte
Mas da vida que vivemos
Emergindo do nosso encontro
Semente de quem somos

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Tolerância às pessoas

Tive uma experiência enriquecedora com um cara. A primeira impressão que tive dele foi bem desagradável. Eu o ouvia falando muito alto e com a voz muito empostada caminhando numa trilha. Rapidamente o marquei como uma pessoa desagradável.
Surpreendentemente ele foi a pessoa mais gentil e que mais considerou a minha existência de forma verdadeira. E o que mais eu valorizo numa pessoa é essa condição de olhar e querer ver o outro. Que peça a vida me pregou: a pessoa que eu mais gostei e a que eu menos gostei num determinado dia eram a mesma pessoa. 
E fiquei com meus botões percebendo como que a relação amorosa nos permite ceder ao desagradável a nós que o outro carrega em si. O quanto somos, na verdade, maleáveis em muitos aspectos. 
Tenho na minha família pessoas que eu amo e que me amam e que na vida regular jamais nos escolheríamos como companhia, temos diferenças grandes demais. Mas por sermos da mesma família, construímos uma relação amorosa que transcende as diferenças... anos de uma relação amorosa que opta com clareza por diminuir as diferenças e valorizar as belas conquistas. Viva o amor.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Famílias: não ditos e malditos

 Tem duas formas de se relacionar que fazem marca.

Uma dessas famílias grita toda sorte de pensamentos odiosos. Quando fica irada põe pra fora expurgando e depositando sobre seu interlocutor toda sorte de dejetos. Depois diz que era besteira, que não pensa aquilo, que falou por impulso.

Mas, tendo dito, afirmo que pensa sim. Claro que aceito que aqueles ditos sejam uma parcialidade a respeito do outro, que além daqueles horrores, também existem as faces adoráveis, as quais se ama.

Tá tudo exposto, muitos nomes são dados dando um contorno claro àquele lado que ninguém quer ver. E, mais ainda, se vê além do que tem, deixando o sujeito crente de deméritos nem sempre justos. Além da confusão criada quando o outro lhe nega essa verdade dizendo que não era bem isso.

A outra família não ofende. Guarda e oculta seu ódio que, por estrutura, está lá. Transmite por baixo dos panos seu veneno, disfarçado de afeto positivo e, às vezes, até de técnicas não-violentas na sua comunicação. Respira muitas vezes e oculta do outro, e às vezes de si mesmo, o ódio, horror.

E me pegunto sobre as marcas disso. Acredito que as duas formas de relacionamento deixam marcas. Faz parte do impossível de não frustrar, não traumatizar. Se de um lado a pessoa que recebe as ofensas tem registrados os nomes que lhe deram, do outro a pessoa fica com a incógnita. Ela sabe seu demérito, ela percebe o lugar de insucesso, mas esse nome não lhe é dado com clareza, ela própria procura os contornos e se pergunta - ou às vezes afere - seu lugar pro outro.

E, sobre essas formas de se relacionar, não tenho uma clareza evidente a respeito de uma hierarquia entre elas. Penso se, na verdade, importa mais a carga que a coisa... mas opto, no meu íntimo, pelo cuidado, acreditando que aposto mais nos afetos positivos e reforço aquilo que acredito, procuro o domínio de meus montros e fantasmas. E também evito ser acusada de nomear coisas das quais não me orgulho, ou as quais acredito serem deletérias. Mas confesso uma admiração quando vejo todas as cartas dadas, expostas, a clareza que observo noutros ambientes. A céu aberto. Seria meu céu fechado?

Recebi alguns nomes. Eles me pesam bastante. Outros não sei bem, tateio. Outros passaram por mim, não os guardei. Nao fiz parte desses extremos. Nessas famílias onde se cospem as palavras, são tantas e tantas e gritam e riem. Acabam perdendo um pouco seu sentido e sua força. E nas que presenciei vejo claramente: o amor está ali.

domingo, 20 de agosto de 2023

Olha o que você me fez fazer!

 Tem pessoas que nos tiram do sério!

Há quem se pergunte se elas gostam de apanhar...

E tem pessoas que batem. Que tentam se controlar, mas acontece.

Como assim: acontece?

Viram um monstro?

Saem de si?

Para onde vão?

Quem fica ali?

Perderam a cabeça...

E ficou apenas o resto do corpo.

Um resto que bate.

Mas também... passaram do limite.

Fez que fez e deu nisso.

Não podiam ter feito isso.

E tendo feito não restou alternativas.

Não soube. 

Prendam! Não pode, é proibido.

Proibido? Prendam? Mas eu amo...

Ama? Ama? Ama?

Que é o amor?

Isso não é amor!

O amor é bom.

Quem tem apenas o amor? Onde está amor, puro, sem a sua face odiosa?

Limite. Intolerável. Impossível. Interdito.

[Eu tive uma vizinha que engravidou. Nasceu uma menina. A mãe passava o dia sozinha com sua filha. E ficava irritada e gritava muitas vezes. Ela chorava muitas outras. Culpava a filha pelo seu estado de espírito. Até o dia que ela fez alguma coisa. Eis uma frase propositadamente ambígua. A menina chorava muito. A mãe dizia: olha o que você me fez fazer. A menina tinha 2 anos.]



quinta-feira, 11 de maio de 2023

Um novo tempo

Tenho encontrado pessoas para caminhar comigo
E aproveitar das belezas e da energia de estar viva sobre um planeta
Sigo com saudades das que sempre caminharam
Também dos outros solos, ares, pensamentos
Faço da escola a minha escola
Onde ensaio relações menos doentias
Criando expectativas mais realistas
Presente com mais clareza do meu lugar no mundo
E percebendo os muitos lugares dos que comigo estão
Dando as mãos quando os joelhos se dobram
Dobrando os joelhos, agradecendo, pés no chão
Oferecendo meu ser como sempre ou como nunca
Sendo recebida como nunca fui. Ou como sempre?
Um novo tempo, apesar dos perigos...

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Um crime chamado violência obstétrica

 "a ideia de violência obstétrica, termo que vem sendo criticado, pois revela aquilo mesmo que se quer esconder (...) embora não esteja tipificado como crime ... " 

Não esteja tipificada como crime

AINDA não esteja tipificada como crime

Ainda não...

Categorizada como crime.

Crime!

É disso que se trata quando uma mulher, de posse de seus sonhos e fantasias, investimentos, tanto amor e dores do parir é submetida à tortura obstétrica. O momento da luz se torna escuridão.

- Mamãe, como foi o dia que eu nasci?

E não sei o quanto conto, pois a resposta do que me atravessa é de tanto pesar e tristeza que acho injusto dizê-lo a quem não merecia que assim tivesse sido, a quem escolho, com razoável esforço, relatar os momentos preciosos, únicos e belos que também se fizeram presentes por ter sido seu dia de chegada.

Mas de toda violência à mulher que se denuncia com clareza hoje, essa foi a que me atingiu de forma mais avassaladora. Ainda que eu perceba que a violência à mulher é feita em maiores ou menores doses desde nosso nascimento.

E após essa vivência no meu corpo, em algumas muitas situações tive que validar meu discurso para mim mesma porque nos meus próximos minha fala foi invalidada, questionada, havia desconfiança. Subia meu sangue, representificava a cena de um crime. Um crime sem nome próprio, sem lugar, será que foi? E eu grito que sim, que não pode, que é absurdo. Como podem vocês não me ouvir?

Hoje, quando li aquela frase, eu entendi mais um pouco do que se trata o que me aconteceu: crime! E essa palavra, um significante de peso, deu mais um rumo para aquele acontecimento. E revisitando meus processos internos me entendo: se quis matar a médica foi porque na verdade nada me amparava pela via do simbólico, da ordenação social. Não é crime. Ainda. Ninguém fez nem fará nada, o que fica é um real sem destino. Sorte a minha - e dela também - que diante do inefável eu mesma fui dando nomes, contornos, saindo da passionalidade, tentando caminhar. Mas agora estou tendo mais clareza. Ainda não é crime... um dia será? O que me aconteceu foi algo de um social adoecido, grotesco, violento. Pra além de ato, pra além do que é em si, faltava uma palavra de destino, que quem teve de dar fui eu, mas ainda não tinha nome. Que um dia fique bem claro, que se possa reivindicar direitos, que os destinos estejam escritos, que haja interdição. Violência obstétrica é "CRIME"!


Obs: o trecho citado é do livro "Como criar filhos no século XXI", p.85, de autoria da Vera Iaconelli.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Elas e eu

Uma parte de mim é transtorno
Outra borboleta
Num dia deixo o sol
Me aquecer a face e a alma
Outro dia grito, me irrito
Me emociono
Funciono?
As vezes sou pensamento
Avôo
Noutras firmamento
Piso forte

Quantos nomes me dou?
Quantos nomes me dão?
Que me falta afinal?
Em que falto ou pra que sirvo?
Outro dia fiz um colar
Disseram que parece comigo
Será que alguém quer comprar?

E quantos corres!
Pego meus filhos
Com um dos olhos sorrio
Com o outro choro
Vou pro mar, vou caminhar, vou...
Às vezes reprovo
Com o que pareço?
De repente até me  esqueço

Nem eu me reconheço?
Procuro um nome novo
Que me dê um lugar no mundo
Aprendendo a ter apreço
Pelo que fui, sem nome, sem endereço
Ouço, me escuto: viva
Planejo, pelejo, transmito
Meu eu quebrado
Meu ser cansado
Apurando o espírito

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Coisas são coisas

 Meu pequeno maior filho, o que quando tinha dois anos se tornou grande, afinal agora havia seu recém-nascido irmão, está percebendo com bastante clareza o valor de coisas e pessoas. Começo a perceber que em breve ele conseguirá ver beleza na velhice embora tanto se faça para que ela seja precarizada. Já tem um tempo que me diz que pessoas são mais importantes que coisas e com isso entende que seus objetos lhe estão à serviço. Às vezes preciso lembrar que também devemos cuidar das coisas, mas confesso um gosto tremendo quando ele me mostra a blusa absolutamente cheia de terra com orgulho e dizendo: "essa blusa conta a história de um tombo meu". E olho e ouço e lavo... pois já contou e já podemos viver novas histórias. Mas há histórias que nem sempre basta lavar.  Ainda tenho roupas furadas pelo dente do cão que avançou sobre mim. Uso, gosto da blusa, conto a história do furo não remendado por mim. Não uso na rua, guardo para a minha intimidade.
Vejo ele, meu filho, tão safo, tão capaz de dar tchau a um objeto ou a me dizer que ele ou a diversão dele ou o que importa pra ele é sempre mais importante que qualquer objeto. Quero cada vez mais sentir-me capaz também. Receber de meu filho as minhas próprias lições e deixar pra trás objetos que não me servem mais.

Aprendendo a morrer

 Estou envelhecendo aos poucos desde sempre. Mas agora fica mais claro, mais visível e sentido. Olho os mais novos de um certo altar, como se as experiências que tive valessem algo. E valem. Percebo que muitos deles têm a me ensinar, começo a perceber certo constrangimento. 
Acho que essa verdade bateu em mim mais forte quando, outro dia, subi a Pedra de Itaipava. Conversávamos eu e outros dois moços. Eu com 36, o rapaz que parecia o dobro mais velho que eu tinha 32 ou 34 e o mais jovem dez a menos que ele, com 22 ou 24. E percebi que eu era a mais velha, coisa que jamais teria se passado pela minha cabeça. E, ao mesmo tempo que me sentia tendo muito a lhes acrescentar, os via ali tão sagazes na subida da montanha e a me esperar. A me esperar pelo atraso que tenho das minhas outras muitas funções que não incluem subir a montanha...
Então se por um lado reconheço pra mim um lugar de produtividade, afinal em tempos de capitalismo quem somos nós se não nos reconhecermos produtivos, por outro, mais uma vez me deparo com a minha produtividade tão aquém ao que eu merecia ou que o mundo merecia de mim. Tão verdadeira, pois me dou todo o dia, quase o dia inteiro. Às relações, à Escola, aos afazeres da casa. E se por um lado não vejo valor, por outro entendo que seja o valor em si: me dou ao que acredito, aos meus, à minha vida mais íntima. Mas perco um pouco de mim mesma. Inclusive a parte de mim que deseja ser psicanalista. 
Lembrei-me do meu pai. Quantas foram as vezes que mencionamos ele como alguém cuja potência foi pouco entregue? Deprimiu. Enquanto envelheço, sinto o tempo me amassando, espremendo a pergunta quem eu sou e a quê vim. Não queria ter destino amargo como o dele. Reconheço em mim uma potência que desconfio se seria validada no mundo. Preciso gritar ao mundo que tenho riquezas a oferecer. Há quem queira, preciso achar meu lugar.
E assim vou tentando que a morte faça sentido, que eu seja dispensável até para mim mesma, concebendo um fim lógico que perpasse meu emocional e, em plena paz, com a missão cumprida, eu me vá e me despeça de mim sem tanta saudade.

Eu canto, tu cantas

Hoje estou correndo. Estou com pressa. Já é amanhã. Tenho que arrumar. Tenho que limpar. Tenho que lavar. E tenho filhos. Já era hora deles dormirem e eu apressada e precisando ser rápida.

E então me irritei internamente um pouco com a exigência de que precisa ser a mamãe. Tenho coisas a fazer.

Parei. Respirei. Eles estavam exaustos, ontem dormiram tarde e, portanto, dormiram pouco. Já tínhamos apagado umas pequenas labaredas... e entendi que melhor pra mim era ir eu mesma.

E apaguei as luzes, e dei neles um beijo e boa noite. E respirei fundo, acalmei minha alma e iniciei a cantar Cazuza. Depois migrei pra um ponto de umbanda que fala das rosas. E então Cidade Negra. Cantei ainda Leva no seu bumbar e fiquei saudosa do meu pai.

Enquanto eu estava ali, me acalmando do tanto de coisas que eu tinha pra fazer e escolhendo as músicas que eu gostaria de lhes entregar hoje, percebi o presente que dava a mim mesma a cada dia que podia dedicar uns minutos a cantar pros meus pequenos. O quanto aquele momento diferia de todo o resto dentro de mim. E agora me pergunto onde ou pra quem vou cantar quando eles prescindirem de mim para adormecer.