domingo, 26 de maio de 2019

Mais um bis

O primeiro foi Davi. Davi é o sonho vivo. A esperança no amor e numa vivência em harmonia. É bem verdade que eu esperava poder ser mais. Temos ido bem.
A vinda do Davi me ensinou muitas coisas. Vivemos numa bolha quase ideal, propícia a florescer. E na gestação descobri outro corpo, sentimentos... descobri que meus medos quanto ao processo do nascimento não eram assim tão graves, que corte em vagina não era natural, era violência. Que anestesia pela coluna não era obrigatória, que a dor do parto era natural e que passaria. E me preparei com lindas músicas, com o amor de quem recebe um filho, com fé de que daria certo. Me preparei para não deixá-lo em encubadeira, que não lhe pingassem um colírio violento, que seu tempo de nascer fosse inteiramente respeitado. Muitas nuances de que viesse ao mundo da forma mais amorosa possível. E não deu. Muitas coisas conseguimos e muitas outras não. O dia de glória também foi de trevas. E das trevas renascemos com o tempo. O amor era suporte para o que veio depois: restaurar e cicatrizar um tempo onde nasceram Davi e mamãe. Tempos difíceis que foram ficando pra trás deixando pelo caminho sorrisos, esclarecimentos, cuidados.
E chegou o momento possível de pedir bis. Nao pra outras mulheres, a quem instrui como se fossem eu mesma, com sangue nso olhos para que não vivessem o que vivi. Era a minha vez, de novo. Minha chance de vencer o sistema e a mim mesma. Meses de insegurança, incertezas, novas expectativas para no grande dia conseguirmos realizar o feito de trazer um bebê ao mundo como pensamos ser o mais respeitoso possível. Uma experiência corporal difícil como da primeira vez, mas com paz de espírito e senso de humor. A equipe muito boa fez uma diferença tremenda. Parto não precisa ser o horror. 
Fica o meu desejo de que cada vez mais mukheres possam parir respeitosamente, que todas as dificuldades que eu e Davi vivemos sejam transpostas e que os profissionais do nascimento sejam mais engajados. Aqui, nascer alguém é um ato de amor.

Veio Davi
Dos sonhos e encantos
Veio com músicas e planos
Dos sorrisos e prantos

Davi filho do amor
Fiz por ele o mais que pude
Um processo de muita dor
Cheio de flores meu açude

Fora da nossa bolha
Se presentificou o mal
Nao me salvei nem minha cria
Acontecimento muito normal

O trabalho do nascimento
Que deveria ser sagrado
É sem qualquer comprometimento
Sistema ruim e retrógrado

Quando engravidei do Iuri
Desisti de romances e musicas
Nao queria nenhum bisturi
Queria todas as coisas básicas

Tivemos todo tempo do mundo
Incentivo, amor, tranquilidade
E dali ele foi oriundo
Meu desejo, realidade

A luta uma a uma faz efeito
No nosso caso nao foi luta, foi dinheiro
O saber não basta pra ter respeito
E nem um ótimo companheiro

Sigo na reza de que melhore
Que o nascer seja bem tratado
Que mais nenhuma mulher chore
Por seu desejo não ser acatado

Que nascer seja dar luz
Que o puerpério seja mais leve
Que o amor que nos conduz
Melhore o sistema mais breve









segunda-feira, 20 de maio de 2019

Ana Só

Só Ana? Ana+1. Ana cheia. Amigos e familiares. Ana só, sem amparo, sem palavras, sem ninguém. Sei só, sempre. Só sei ser Ana. Quando aprender ser só ou não. Ser sem. Ana vazia, Ana.

Potência de ser. De vir a ser. Ele já é. Ser ou não-ser. Ele virá a ser, gente ou nada. Ele ficará na faca e eu ficarei sem ele. E sem ele, sei, ele é potencialmente tudo. Tudo o que não deixei sê-lo.

Será para sempre o que poderia ser, em mim. Em mim é, nunca nada, só o melhor. O que desejamos, raio de luz. Só, sem mim. O guardo, o conforto, o gero ou o mato. Meu primeiro filho.

Se invisto, temo. Temo não sê-lo, não ser o meu, não ser o filho. Ser coisa estranha, filho de doença, filho da maldade, ser o que não quero. Se apareces é por erro. Erro absurdo da vida, que colocou em mim outro filho que não o meu. O meu lindo, que ri, que corre, que aprende. Doente cai dos infernos, dos insetos, da solidão que há.

Vem luz dentro de mim. Vem alegrar nossa vida. Vem ocupar o lugar que já é seu. E você, demônio, se afasta de mim, não te quero, não te crio. Seu espaço é nos meus pesadelos e dou-me o direito de acordar e sonhar de novo. Meu corpo não te pertence e que duro te confundir com a glória.

Decidirei eu se é luz que me agracia ou se é treva que me invade? Decidirei, de olhos vendados, se te mato ou conduzo? Tu que és feito dos sonhos, dos corpos, do que há. Sou Ana, só. Só. Tão só.

21março2016

domingo, 19 de maio de 2019

Séria

Séria. Não nasci assim. Nasci inconvenientemente feliz, expansiva. Mas me seriei. Serial de mim, marca, lugar no mundo, lugar no sexo. Sexual pois algo aí, talvez, faça de mim mais  retraída, mais precavida. No limite entre não ser invadida nem rejeitada. O que seria? Seria séria. Amada por uma perspicácia tola, cantando fechado para que as notas abertas não ecoassem o horror. Um horror inerente -inescondível - rachado como taquaras.
Seria séria e triste? Só. Sem o direito ao erro. Que será que recuso da graça? Que graça...?!
Se não for mais tão séria quem serei, o que seria? Não sei. Ria... mais! E mais! Se rio, deságuo. Num mar de mim. No amar sem fim.

13novembro2015

A palavra

Penso em cada momento
O quanto a palavra falta
Pra dizer do sentimento
Ou daquilo que se exalta

E depois dela, importa a forma
Umas tão belas, outras feias
E o escritor que entra na norma
Faz daquelas linhas poesias

E se é soneto então esse contorno
Com rimas ricas é tão perfeito
Que nem importa o quanto for morno

Ja os verbos que se combinam fácil
Geram leitura pobre ainda que profunda
Ah! Como eu queria ser mais hábil

Novembro2014

O relato da morte

Se eu fosse mais madura teria dito ao meu pai sobre sua doença.
Se eu fosse mais madura teria eu dito ao meu pai sobre sua doença?
Se eu fosse menos madura talvez tivesse dito ao meu pai sobre sua doença...
Se eu fosse um dito meu pai talvez jamais tivesse essa doença.
Se eu fosse madura, teria o meu pai me dito sobre sua doença?
Será que seu próprio corpo, maduro, lhe contou?
Meu pai morreu.
Revisitei ele no hospital outro dia, voltei em novembro de 2009, há poucos dias da sua morte.
Eu, sentada a sua frente, ele com dores e dialogando comigo. No meio do que dizia apagou. Eu ali e ele abre os olhos: "ora veja! Ainda agora eu estava numa festa, como pode?", digo a ele que estou presente para que possa ir a festa. E zelando seus sonhos, canto e o admiro sem saber que era das últimas cenas que teríamos juntos.
"É preciso amar
As pessoas como se
Não houvesse amanhã
Na verdade não há"
E deitada na sala toca o telefone com a notícia mais estranha do mundo, a inassimilável. E me pergunto ainda se eu teria dito a ele e por que dizer a todos e não a ele. Teria sido covardia? Eu o estava poupando? Aguentaria trocar com ele a verdade de que eram nossos últimos encontros e que eu não sabia precisar quantos seriam? Ele aguentaria saber o quanto estava difícil pra mim? Teria ele me consolado de sua ausência eterna? Eu não poderia consolá-lo da falta de si, do corpo que rateia e das dores que não cessam. No máximo que cumpriria e cumpri seu pedido: que fizesse o necessário pra que não se prolongasse esse estágio. Cumprimos eu, minha mãe e o médico. Mas o pacto não foi cumprido. Não foi preciso. Não houve tempo.
E me vejo tão madura e tão frágil. Enxugo aquelas lágrimas que nunca secaram e ainda insistem. E me pergunto se diria, se deveria... o quão mais verdadeiro seria se o verbo fosse aberto... acho que ainda prefiro que ele tenha ido a festa. Que falta que ele me faz. Que falta...


Sentidos

Cânticos
Dia de sol
Eu chovia
Via

Gramados e pontos brancos
Pessoas reunidas
No único dia

Sentidos esparsos
Sentidos contidos
Sentidos

Velado escondia
Escondido velado
Vê-lo-ia
Não mais

Cheiro estranho
Novo, sem nome
De nada, de nunca
Cheiro?

Muitos sons, os ruídos
Os piores sons
Que jamais ouvi
Não ouvi

Toque vazio
Beijo sem beijo
Corpo esvaindo
Sem corpo
Só corpo

Mal gosto
Engolir flores
Boca branca sem ti
Devora-te

Senti idos

10set2015

sábado, 4 de maio de 2019

As coisas como são (3)

Tem casas que tem empregada doméstica. Eu deveria ter, é o que me dizem. Mas no nosso país essas relações não são sérias, não são afetivas e não são de trabalho.
A empregada ganha o sofá velho de bom grado. Ganha toalhas velhas em ótimo estado. Ganha um resto de comida. Ganha... umas coisinhas que quem dá chama de lixo e ela chama de luxo. E depois, na hora que precisa cuidar de um familiar doente é chamada de ingrata. A moça cuja casa foi mobiliada pela patroa, mas que na necessidade da patroa a abandonou (indo cuidar de um familiar adoecido).
A empregada recebe o salário, é considerada tratada com respeito, apesar de morrer de medo de quebrar coisas que não são suas, de esquecer coisas, de falhar. Ela vai trabalhar deixando a filha em casa com febre, a patroa precisa e tá pagando. Ela não tem forças pra preparar sua própria ceia porque saiu tarde e fez muita coisa para a ceia onde ela não come.
Ela foi trabalhar no dia da mudança na própria casa e chegou na outra casa no fim do dia, mas foi ajudar a limpar os banheiros da casa nova da nora da patroa em outra cidade na ocasião da mudança, ela recebeu extra pra isso.
A filha dela, de 4 anos, um dia teve que ir com ela pro trabalho. Ela viu os morangos, ela quis. Mas não podia porque eram pro neto da patroa.
A outra vira a chacota da vida porque pergunta se São Paulo é longe do Brasil. O cara que é tão bonzinho mas que uma das coisas mais marcantes nele é o fato de não se contar os dentes faltantes, mas sim os restantes.
E é claro que tem mais. Quantas casas tem mais histórias pra contar? Quantas empregadas e empregados são gratos por terem emprego, por acharem que estão num bom trabalho? Ou seja, que validam a máxima de que é melhor ganhar pouco e ter uma renda do que a miséria? É o que tentam me convencer: essas pessoas precisam de dinheiro, você estará ajudando. Ajudando? Numa relacao de pagamento por serviço?Quantas são as pessoas em empregos do serviço básico que são vistas de verdade, como iguais numa relação de trabalho?
É bem verdade que sinto falta de uma ajuda pra organizar e limpar as coisas da casa. Isso porque optei conscientemente por escolher cuidar dos meus filhos em detrimento da casa, do meu sono, dentro do possível. Eu vi muito nova um filme chamado "Domésticas", filme nacional que revi anos depois e gostei menos, mas que adolescente eu gravei como sendo dos melhores filmes que já havia visto. Ecoou e ecoa pra mim ainda hoje uma frase no final do filme que dizia algo assim: eu deixava os meus filhos em casa e saía pra cuidar dos filhos da patroa. E não tenho muito mais a dizer.
A lógica que reina é a logica escravocrata

As coisas como são (2)

Eu morava num prédio. No prédio tinha apenas um zelador. Quando comecei a morar havia uma síndica. Quando fui embora era a mesma síndica. Participei de 1 ou 2 reuniões de condomínio, ou seja, fui em 100% das reuniões que aconteceram no período de minha residência. O zelador trabalhava no prédio há 17 anos quando cheguei, há 22 quando saí. Ele e a síndica pareciam bem amigos. Ela morava no prédio há mais tempo que isso.
O cara pegava as 9h. As vezes as 21h ainda me despedia dele. As vezes ele dormia no prédio por motivos que desconheço, mas dava-se um jeito. No dia da minha mudança de chegada, nao por minha culpa, ainda havia caminhão descarregando as 2 da manhã, e esse zelador no portão...
Esse zelador não tinha um salário muito acima do que se costuma pagar na função. Não sei precisar o valor, mas em algum momento vi que, no papel, nao chegava a 2 mil reais.
Ele limpava tudo. Quando conseguia, recebia o carteiro e entregava tudo porta a porta. Também era ele quem abria portão sempre que estava por ali (ele não ficava direto na portaria, afinal ele fazia tudo), se oferecia pra carregar peso, ele recebia e "supervisionava" funcionários que fossem realizar quaisquer serviços pelo prédio.
Ele não tinha feriado. Domingos não estava no prédio, exceto por exemplo no cha de bebê do meu filho, que foi no 4o andar do prédio que nao tinha elevador e que eu teria que descer a cada visita para abrir o portão. Paguei por fora, mas não me sinto bem em saber que, pelo meu dinheiro, ele trabalhou duas semanas sem repouso. Ainda que no meu evento tenham sido poucas horas e liberei ele tão logo todos chegaram. Mas ele esteve lá...
Se o natal caísse na segunda-feira ele ia, afinal, ele "precisava" resolver o lixo. Essa parte eu descobri já com data pra sair dali. E assim com todas as segundas, quartas e sextas... nem que fosse pra resolver o lixo do prédio ele iria. O lixo que nenhum dos 26 apartamentos podia resolver naquele dia, ja que era feriado e seria no mínimo bacana que o Marcelo pudesse ficar fazendo o que quisesse. Todos estavam se ou se divertindo, ou em família, ou enchendo a cara. Mas o Marcelo tinha a responsabilidade pelo nosso lixo. E há quem acredite que ele é pago pra isso.
Marcelo não tinha férias pelo mesmo motivo, sabe como é... o lixo... então ele não queria as férias, preferia sempre o dinheiro. Há anos. Não o terço que a Lei assegura de o patrão comprar caso o funcionário se interesse. As férias inteiras.
O Marcelo também recolhia o lixo do prédio ao lado no seu horário de trabalho (horário de trabalho? Qual será que era o horário de trabalho dele?). Ele as vezes ficava de papo com o português do portão cinzento, um tempão. Não era segredo pra ninguém. E sabe-se lá o que mais ele fazia por ali por fora a fim de complementar a renda... as vezes o via subindo as compras da síndica.
A nossa garagem era alugada no prédio e o dono da vaga não tinha qualquer constrangimento em pedir que pagasse ao Marcelo que ele receberia. Eu não aceitava. E se o Marcelo perdesse o dinheiro? E se fosse assaltado? Quem responde? Não era a função dele nem responsabilidade dele. Mas as pessoas "usavam" o Marcelo a seu bel prazer, afinal, ele era super disponível e amável. Nem sei quantas vezes recusei que ele levasse minhas compras porque eu estava grávida e carregando um bebê e as compras. Acho que ele nem entendia.
E eu nunca me meti nas questões trabalhistas do Marcelo. Questão amarrada há anos, em que ele parecia satisfeito, não me parecia que nenhum morador tivesse questão, o próprio Marcelo teria que trabalhar diferente pois o tempo no prédio seria só pro prédio, enfim.
A relação não me parecia simplesmente serviço por dinheiro, mas ficava evidente uma exploração do dócil rapaz. Todos amigos, mas só um resolve o lixo em pleno natal.
A lógica que reina é a logica escravocrata.

As coisas como são (1)


Ele vem cortar a minha grama. Pega um sol que só. Apenas sei seu nome. Eu não tenho almoço, ele não quis quentinha. Traz alguma coisa, nunca quis esquentar. Não sei se é casado, se o filho adoeceu, se dormiu bem, se tem problemas com álcool ou espanca a esposa... Mas ele vem no dia marcado. E de vez em quando passa o dia em minha casa. No sol. E corta, corta, corta até o dia escurecer. Começa pela calçada sem que eu tenha pedido porque sabe que acordamos tarde. Nunca solicitou o banheiro. Nunca me pede água. Eu poucas vezes ofereço, fico perdida correndo atrás dos meus filhos e mal me lembro que ele está ali. Deixo ele por conta do marido. Não sei se ele oferece... mas não vejo sinais de que use a casa de forma alguma. Ele corta a grama. Corta, corta, corta. Nos livra do incômodo dos carrapichos, dos ninhos de aranha, daquela coceira de pisar no mato. Não o pagamos em dinheiro. Pagamos por um meio solicitado por ele que não é uma transferência. Segundo ele, como a conta vive negativa, ele prefere que pague de outro modo. Já pagamos acima do solicitado por ele, mas a verdade é que não paga e não me sinto nada bem.
Meu filho tem me ensinado sobre isso. E estou ainda mais atenta e mais triste com o modo como as coisas são. Outro dia viu um homem e disse: ele é um Eliézio. Digo que ele é um jardineiro, assim como o Eliezio.
Quando ele acorda de manhã eu já anuncio: tá ouvindo esse barulho? Ele sorri muito feliz e diz: "Eliezio! Vê, vê!" E vamos ver o Eliezio, que muitas vezes está olhando pra baixo e com tamanho barulho no ouvido que não nos percebe.
E quem acha que ele usa protetor solar? Protetor auditivo? Protetor na máquina de cortar a grama?
Outro dia andávamos de bicicleta em casa e Davi só falava: Eliezio, Eliezio, Eliezio. Sr. Eliezio diz: ele gostou do meu nome. O Davi gosta do Sr. Eliezio, do moço, é agradecido pelo trabalho ofertado: quando termina ele lembra no dia e nos dias seguintes: ao andar na grama ou olhar o quintal diz que Seu Eliezio cortou.
A sensação que tenho é de que eu deveria morar numa casa que eu conseguisse dar conta da grama. Ou o Seu Eliezio fosse um cara mais bem remunerado, entendendo melhor nossa relação de humano pra humano: de usar o banheiro, de esquentar a comida... de uma certa troca de quem somos. Uma relação que é apenas serviço por dinheiro é definitivamente uma invenção bizarra.
Mesmo que eu nao queira, aqui reina a lógica escravocrata...

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Mia casa

Tenho uma casa que suamos muito pra ter. E como parece que já a tenho, o verbo suamos parece passado. Mas estamos tendo a casa e o suor se presentifica a cada mês e prestação. Apesar disso, é mais fresca no verão. Estamos na construção do espaço, fazendo-a nossa de valores, de flores, de cores. E iremos pintá-la. Ela resiste um pouco ou nós resistimos a ela.

Minha casa me tem. Meu lugar é seu endereço. Se oferece para mim com seus espaços delineados e cheios de possibilidades. Me protege, me afaga, me conta minhas histórias. Guarda meus pertences ainda que as vezes suma com alguns. E por mais que eu vá por aí, volto e abrindo sua porta, mesmo cansada ou desolada pelo mundo, me preencho de alegria de três vivas gatinhas que anseiam pelo meu retorno.

Três gatinhas têm minha casa. Passam tempo integral cuidando dela, ocupando seus espaços. Maia, Panka e Lee certamente conhecem cada canto melhor que eu. Em suas brincadeiras a percorrem inteira correndo loucamente, trazendo suavidade e beleza ao meu lar. Usufruem mesmo da bagunça, dormindo ou explorando as novidades. Fazem de sua casa seu semelhante, deixando pêlos por todos os lados. Uma casa que mais parece um grande gato. Mia, casa!

11/12/2015 ALFTB

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Nana Ana Aninha

Quando eu era criança nasceu meu irmão. E eu fui apresentada a ele como a maninha.
Ele nao sabia fazer essa articulação e passou a me chamar de Nana, apelido que me acompanhou por bons anos.
Depois veio o facebook. Eu não queria ser achada. Uma frescurinha de que meus pacientes iriam me procurar. E no nosso tempo, quem nunca? Descobri que minha analista foi sequestrada e nunca falei com ela a respeito. E olha que nem sou do tipo que fica procurando os perfis por aí. Há quem me aguce esse tipo de curiosidade, acontece! Enfim, tudo isso pra dizer que não queria ser Ana Taves no facebook. Sou Ana Taves, é meu nome nas fotos, na escrita, é como eu gosto mais. Mas no face sou Ana Aninha. Ficou bom assim.
Sou Ana desde a 3a série. Mas não é qualquer coisa. Muitos sabem que meu nome é Ana Luiza. Alguns porque o tempo não deixa esconder, outros porque indelicadamente me pedem complemento quando me digo Ana. "Só Ana?" Ou "Ana o quê?", me perguntam. E digo quase impaciente: Ana Luiza. Em ambientes formais também sou Ana Luiza. Bem formais mesmo, quando acho que um nome a mais pode me garantir um pouquinho mais de credibilidade. Mas retornando: Ana desde a 3a série. Aconteceu que tive a infelicidade de antes disso estudar com outra Ana Luiza. Uma menina fofinha, de cabelos pretos e lisos. Uma guria que adorava o meu pai e corria pros braços dele na saída da escola. Ela, a Aninha, era o cão chupando manga. E eu, a Ana Luiza, era uma menina tão pequena que nem cabia em mim todo ciúme que eu tinha dela. Ela era querida, mas era ruinzinha que só. Organizava dentre os pequenos os guetos, já havia opressão. E o que importa é que dali pra frente, quando mudei de escola, meu nome não era mais Ana Luiza, esse nome enooorme e tão pouco carinhoso diante de um "Aninha". E passei a ser Ana. No face Ana Aninha, por via das dúvidas. E Nana, sempre, na minha família. Então achei esse nome no blog "anananinha" um aglomerado bem interessante.

Bis

No meu luto, luto
Por elas, todas
Pelo melhor e pior dia
De desgraça, de graça,  de glória
De Maria
De Marias
Todas mães de deuses
Dos deuses, as mães
Pelo ciclo da vida
Pelo respeito à eternidade
E tento , num lamento
Que seja digno e justo e possível
Que a faca não corte a carne
Ainda que a alma não se salve
Mas que não salve porque é inerente
E não por violência
E que o sangue derramado
Seja puro e sagrado
Que toda marca seja como é
Pelo esdrúxulo
O bizzaro
Inominável
Que é o ato de criação
Luto pelo trabalho
Pela singularidade
Pela possibilidade
E eis que surpreendente
Quando me vejo na Amélia
Naquela que me recebeu
Que fez sua própria busca
Como eu
Sonhou,  planejou, construiu
Aguardou como pôde o grande dia
E eis que chega
E ela, a Ana
No espelho é vitoriosa
Não toda, mas o possível
E minha alma se enche de luz
Sou eu, venci, aprendi, transmiti
Mas do lado de cá do espelho
Me vejo ainda sangrando
Ainda...
O tempo que viaja no espelho
Não passou
O corpo ferido e em frangalhos
Admira sua bela imagem no espelho
E conclui o óbvio
A parte bela não sou eu
Mas agradeço tê-la
[Pelo nascimento da Sofia, parida por Isabelle]

Gastando o corpo

Estou envelhecendo. Desde que nasci. Recentemente nasci meu filho e me marcam as mudanças corporais: minha barriga, que sempre teve gordura,  ficou graaande grande. Enoorme... fui endeusada por portar aquela barriga. E apareceram mais estrias do que ja tinha. Os seios encheeeram, murcharam e enchem e murcham ainda. Tive uma ziquezira na coluna. Sei lá o que foi. Travei, mal conseguia me mexer. Passou. Só ficou a lembrança do mal estar.
Desde que nasci, perdi dentes, ganhei dentes, ralei joelho, até hoje o joelho é fraco. Me cansava pra correr na educação física. Aprendi a gostar de correr na praça mais tarde. E agora quando será que correrei? Será que aguentarei?
Minha vesícula está com pedras, acho que vão retirá-la de mim. Apesar do apego que tenho a ela, que sou eu, tem me causado dores inimagináveis. Será que viverei melhor sem esse pedaço de mim?
Me olho no espelho e vejo, tem umas rugas ali junto ao olho. Até que são discretas. Estou gastando o rosto. Rindo, rindo, chorando, chorando, vendo.
Meus olhos também só pioram. Cada ida ao oftalmo um aumentinho no grau. Eu que não uso os óculos... ah! Me sinto tão direitinha sem eles.
E penso que uma hora, nem tão cedo nem tão tarde,  na hora certa, estarei ainda mais marcada pelo tempo. Minhas gordurinhas flacidas estarão comportadas em uma pele ainda mais fina e com grau ainda menor de contenção. Terei rugas em todo rosto, nas mãos e, se o futuro me permitir, por todo o corpo. Os seios que já terão amamentado o bastante e me servido por toda uma vida estarão ainda mais desagradáveis aos meus olhos, ainda que tenham a maravilhosa justificativa do tempo para não estarem no lugar desejado. Eles, que nunca estiveram como eu achava que meus seios seriam, eu que pensava que seios são sempre como os mostrados como modelo. Os meus nunca foram e é bem injusto que assim tenha sido desde tão nova.
E quando minhas juntas começarem a doer que eu tenha a perspicácia de me cuidar e a gratidão ao meu corpo, que me serviu tanto e foi gastando, gastando...
Terei eu que puxar a perna pra entrar no carro algum dia? Agacharei com dificuldade me queixando do tempo que passou? Ou saberei usufruir do corpo gasto e com histórias escritas em si, que como objeto privilegiado meu, me acompanha e testemunha minhas lutas, minha existência.
E por fim, desejo que eu como mulher deseje o corpo gasto do meu esposo. O mesmo que me provoca e do qual usufruo, que estará também me contando suas sagas. E que ele deseje o meu, e não, como reza a cultura, cultue o corpo sempre novo, sempre ideal. Que lembre do que passamos juntos e aprendamos dia após dia a manter o desejo aceso e inquieto. Que juntos sigamos gozando de bons encontros, bons tempos, boa vida, um bom conto, que se conta, se canta, encanta num canto.

Meu corpo e Davi

Na barriga crio um corpo
O corpo de um filho
Suas engrenagens e detalhes
Ficamos observando
Perfeitas que são

De nossos corpos fez-se
O corpo, único, o dele
E vendo-o, me vejo
Eu em meu corpo

Eu num corpo estranho
Sem filho, sem forma
Eu cortada, com dor
Na alma
Eu chorando, sangrando,
Com prisão de ventre
Eu sem roupa, com leite
Me dando

Eu sem roupas, me cubro
O corpo que oculto
Eu que não quero vê-lo, velo

E disforme desde sempre
O corpo que o culpo
Eu que não nasci bela

E de repente eu me vejo
O corpo que ocupo
Eu num corpo onde moro

E grata por existir e dar existência
Eu me vejo templo de mim
Num corpo novo
De formas tão únicas e sagradas
Eu que não sou modelo de nada
Fui protótipo  de outro corpo
E é de meu leite, meu sangue e minhas lágrimas
Quem sabe de minhas costelas,
Minhas risadas e meu olhar
Que surgimos juntos
Ele e eu
Ele com seu corpo perfeito
E eu com o meu possível



Ter ou não ter filho- palavras de uma puérpera

Há quem diga que uma mulher só se realiza tendo filhos. Vinicius dizia a verdade: "filhos, filhos, melhor não tê-los, mas se não os temos como sabê-lo?". Penso que, ao contrário, uma mulher se realiza tendo ou não tendo. Sendo que não tendo ela pode ou não se prender na imagem que tem do que é ser mãe. E tendo pode se prender na saudade do tempo que não tinha.
Ou seja, do tempo que tinha, porque na maternidade o tempo é escasso. Ah! Na maternidade vívida. Ou nem tanto... desde que se seja, de fato, a mãe do filho.
Eu diria que o maior ganho com a maternidade é um saber. Um saber sobre si. Um saber que seria impossível sem ser. Outro dia eu ouvi a seguinte frase "não é preciso ser mãe para saber como é desesperador um bebê chorando". Mentira! É preciso sim. É possível imaginar como é desesperador não um bebê chorando, mas o seu bebê chorando. Mas isso não abarca a realidade de estar de madrugada, exausta, com dores, com um corpo que você mal reconhece e por horas com bebê chorando sem saber o que fazer para acalentá- lo. E nesse momento a sua preocupação é em fazer com que o seu filho esteja bem e você sente que nada está bem. Nem você, nem ele, nem a casa, nem o marido. Nada. E isso não tem nome. Isso  não é transmissível. Sabe  quem passou por isso. E o que vem primeiro plano é o bebê, que no fundo é uma potência de filho.
E mesmo com todo desejo e todas as ações para o bem estar dele e ele chorando chega uma hora em que você só quer que ele pare de chorar. Eu pedi - risos! - pelo amor de Deus,  que desse uma pequena trégua de poucos minutos. Chega uma hora em que você já tentou tudo e ele segue parecendo que você o tortura. Me arrependi de ter tido filho, desejei que ele sumisse, para dizer pouco. Reconhecer em si a raiva, ou o quanto você preza pelo próprio conforto,  como é difícil doar sem o retorno. Como é difícil não saber ou mesmo não ter pra dar.
Também aparece a ambivalência viva quando você investe e investe no bem estar daquele pequeno ser e ele te arranha, aperta, bate, abocanha, chuta. Ai! Eu com dores absurdas para amamentar, ofertava meu leite já quase chorando. E ele nem sempre pegava calmo. Pegava veementemente e, as vezes, insatisfeito se debatia e chutava o outro seio, também dolorido. Pensava eu: a fase em que eu precisei lidar com violência física já passou... e, contudo, la está ele em meus braços, adormeceu. Satisfeito e em paz. Que cena divina. E por um lado você respira aliviada que terá um refresco,  por outro você se vê perdidamente apaixonada por esse pedacinho de gente. Um pedacinho de mim. Me lembrava o quadro do perverso polimorfo.
E sigo falando em geral de dificuldades em ser mãe. A minha relação com o mundo já não era das melhores. Com as pessoas me tratando como se eu não soubesse ou quisesse cuidar do meu bebê ficou pior. Todo mundo tem uma uma uma super dica para te dar. Se metem o tempo todo. Não ouvem o bebê... nao te ouvem. É bem cansativo.

Mudança

Sou ousada sim. Quis fazer família. E de dois se farão mais dois. Hoje Davi está falando Iú enquanto Iuri está sendo gestado em mim, de alma e corpo. No meu caso a alma sempre veio antes do corpo e terei dois filhos 'planejados'.
E com filhos vieram mudanças. Em mim, na minha vida,  nas minhas concepções... e, desde ontem na minha casa. De imóvel próprio a alugado, saímos da cidade grande e viemos viver na roça. Nos alegramos com o silêncio e o canto dos pássaros. Pensamos na horta, no banho de mangueira, nas flores que plantamos. Nos beijamos. Nos olhamos, exaustos de mudar, e vemos o cansaço do trabalho de dias.
Que será de nossas vidas? Amor, amor e amor.

Um pedaço da infância

Tudo começa com a subida
Era muita lama na estrada
E o carro tentava, na lida
Que a gente nao ficasse atolada

Girando em falso a roda
La embaixo a pirambeira
E lajota por lajota se acomoda
Foi feito um caminho sem zoeira

Eu lembro da chegada
Do encontro com alegria
Do olhar da criançada
No campinho a turma corria

E o dia ia passando
As vezes iamos na clareira
Confraternizando e cantando
Era sério e brincadeira

Lembro do meu irmão muito sujo
De lambuzar-se feliz na lama
Minha mãe chamando o dito cujo
Pedindo pra parar e ele reclama

Chegava logo a tardinha
Me marcou a mosquitada
E pra termos agua quentinha
Era de forma atrasada

Quando a tarde caia
Vinha alguém bem faceiro
Por o fogo que aquecia
A agua do nosso chuveiro

E na hora da sessão
Iam os maiores pro clubinho
Eram amigos do coração
Dos quais eu lembro com carinho

Os que acordados ficavam
Tinham ouvidos bem atentos
Findada a sessão disparavam
Para o convívio e alimentos

As vezes também tinha fogueira
Cores azuis, verdes e amarelas
E ainda que não de forma corriqueira
Da caixa dagua víamos estrelas

Mais comum era o violao
Em mim tocavam aquelas musicas
E ainda hoje comigo vão
Minhas lembranças oníricas

E chegava a hora de ir embora
A saudade se fazia
Ansiava no mundo la fora
Voltar ao vale da harmonia

Novembro2018

Quero começar

"Quero começar mas não sei por onde
Onde será que o começo se esconde?" Tiquequê

Sou mãe de dois meninos. Estou aprendendo a ser mãe de dois meninos. Preciso escrever nem sei porquê. Nem sei o que. Mas preciso e com urgência. Preciso de mim, dos meus escritos, das minhas letras, minhas músicas.
É hora da minha loucura andar liberta e se organizar nas linhas, entrelinhas. Fato é que dia após dia eu reluto em começar. Seria preciso dizer tudo. Dizer nada. Triunfalmente apontar pra ali, remexer entranhas. E na verdade ja soube como começar e já não sei mais. Só sei que foi hoje. Serão as minhas coincidências assim tão loucas ou tão... tão.
E escrevo pra mim ou pra ser lida? Publico ou salvo?
Escrevo.

A falta que recebemos como presente

Ontem eu tive um vislumbre.

Eu vi o pai abraçar a filha de 40 anos como quem abraça uma história, um lugar, um investimento, uma vida. A vida de uma filha. E que 40 anos fazem tanto e tão pouco.

Eu vi uma filha reclamar de sua criação, das faltas de sua mãe. As faltas que sempre haverão, que sempre houveram. As faltas que são maiores ou menores e que são mais ou menos marcantes pra cada filho.

Eu vi a mãe, tentante, esforçada e saudosa se queixar dos reclames de uma filha. Pelo reconhecimento e mérito de sua própria mãe faltosa e por ver o amor em si, em seus esforços tal qual em sua mãe. Sentia-se injustiçada.

E sempre ouvi de minha tia querida, Neiva, que sempre serei pra ela sua bebê. E hoje me sinto tão autônoma, tão responsável e desamparada, e entendendo essa fala. Vejo meu filho mais velho, do alto de seus 2 anos tentando assumir seu lugar, seus desejos. Pondero sempre em suas falhas o que ele é capaz ou não de dar a si mesmo, a mim e ao mundo. Ele, desamparado como eu, contando comigo. E eu, faltosa que também sou, tentarei lhe dar o mundo. Eu e meu desamparo é o que posso lhe dar.

E assim seguimos nas relações, ofertando aos nossos amores. Eu preciso agradecer a doação de si que me fizeram e aos meus amores. As vezes é difícil vermos as faltas do outro, o seu desamparo como também seu presente. Agradeço. Quando qualquer um de vocês falta pra comigo, eu sangro. Mas hoje entendo que só é possível dar de si dando também sua falta, por isso agradeço. A falta que em mim chega diz de todas as suas histórias e marcas. De tudo que lhes é mais profundo. E agradeço por receber e também espero poder arriscar-me em ofertar.

E que, além do meu agradecimento, eu possa colaborar com as melhores formas de nos ofertarmos e com maiores cicatrizacoes de nossas feridas para nos relacionarmos cada vez melhor

Com amor.

2 de maio de 2019.

Hoje nos vimos no parque

Hoje nos vimos no parque.
E pensei de quantos desencontros se faz um encontro
Eu te olhei nos olhos e reconheci o sorriso
Eu vi o passado, viajei
E sabendo que produzimos com o tempo já não tenho dúvidas de que não nos conhecemos
Você me chama pelo nome
Eu sei bem o seu também
Quase perguntei: você votou no Bolsonaro?
As vezes uma pergunta encurta bem o papo e esclarece muitas coisas
As vezes é melhor não saber
Você me pergunta: são seus filhos? Digo que sim.
Será que só nessa pergunta você entende que todas as minhas células mudaram de 2 anos para cá ao menos duas vezes? Ter filhos nos faz outras pessoas. Não nos conhecemos ha 20 anos... e seus filhos! Nossa! Como são grandes!
Você ainda sabe meu nome e eu sei bem o seu
E apesar das poucas palavras há alguma saudade
De um tempo, de um céu, da madrugada, do som.
Lembrei-me de um dia quando encontrei um irmão teu. Ah! Que alegria! Eu o admirava e só de vê-lo meu coração transbordava. Corri. Dei nele um abraço terno. E ao tocá-lo percebi que nao era ele. Ou não era eu? Não éramos nós. Ele parecia uma tábua e eu me senti tão estranha. Também não mais trocamos palavras, sai envergonhada de amar. Ele estava certo: o menino para quem eu olhava naqueles olhos já havia morrido. Eu não sabia... Como pudera não saber? E os meus braços já tão gastos também sequer foram reconhecidos.
E hoje, do mesmo modo, vi um morto-vivo.
E é tão triste a morte...
Por vezes é melhor ficar com a saudade.
Os mortos tem seu valor enquanto os vivos trabalham duro pra conquistar algum.
E assim vamos passando pela vida: vivendo e morrendo até um fim.