Estou envelhecendo. Desde que nasci. Recentemente nasci meu filho e me marcam as mudanças corporais: minha barriga, que sempre teve gordura, ficou graaande grande. Enoorme... fui endeusada por portar aquela barriga. E apareceram mais estrias do que ja tinha. Os seios encheeeram, murcharam e enchem e murcham ainda. Tive uma ziquezira na coluna. Sei lá o que foi. Travei, mal conseguia me mexer. Passou. Só ficou a lembrança do mal estar.
Desde que nasci, perdi dentes, ganhei dentes, ralei joelho, até hoje o joelho é fraco. Me cansava pra correr na educação física. Aprendi a gostar de correr na praça mais tarde. E agora quando será que correrei? Será que aguentarei?
Minha vesícula está com pedras, acho que vão retirá-la de mim. Apesar do apego que tenho a ela, que sou eu, tem me causado dores inimagináveis. Será que viverei melhor sem esse pedaço de mim?
Me olho no espelho e vejo, tem umas rugas ali junto ao olho. Até que são discretas. Estou gastando o rosto. Rindo, rindo, chorando, chorando, vendo.
Meus olhos também só pioram. Cada ida ao oftalmo um aumentinho no grau. Eu que não uso os óculos... ah! Me sinto tão direitinha sem eles.
E penso que uma hora, nem tão cedo nem tão tarde, na hora certa, estarei ainda mais marcada pelo tempo. Minhas gordurinhas flacidas estarão comportadas em uma pele ainda mais fina e com grau ainda menor de contenção. Terei rugas em todo rosto, nas mãos e, se o futuro me permitir, por todo o corpo. Os seios que já terão amamentado o bastante e me servido por toda uma vida estarão ainda mais desagradáveis aos meus olhos, ainda que tenham a maravilhosa justificativa do tempo para não estarem no lugar desejado. Eles, que nunca estiveram como eu achava que meus seios seriam, eu que pensava que seios são sempre como os mostrados como modelo. Os meus nunca foram e é bem injusto que assim tenha sido desde tão nova.
E quando minhas juntas começarem a doer que eu tenha a perspicácia de me cuidar e a gratidão ao meu corpo, que me serviu tanto e foi gastando, gastando...
Terei eu que puxar a perna pra entrar no carro algum dia? Agacharei com dificuldade me queixando do tempo que passou? Ou saberei usufruir do corpo gasto e com histórias escritas em si, que como objeto privilegiado meu, me acompanha e testemunha minhas lutas, minha existência.
E por fim, desejo que eu como mulher deseje o corpo gasto do meu esposo. O mesmo que me provoca e do qual usufruo, que estará também me contando suas sagas. E que ele deseje o meu, e não, como reza a cultura, cultue o corpo sempre novo, sempre ideal. Que lembre do que passamos juntos e aprendamos dia após dia a manter o desejo aceso e inquieto. Que juntos sigamos gozando de bons encontros, bons tempos, boa vida, um bom conto, que se conta, se canta, encanta num canto.
Eu gosto taaaaaanto da maneira como sempre usa as palavras. Acho de uma riqueza incrível. Escreve de forma tão rica e emotiva coisas que a maioria das pessoas passam a vida sem perceber. Sou um afortunado por viver ao seu lado. Te amo.
ResponderExcluir