quarta-feira, 1 de maio de 2019

Ter ou não ter filho- palavras de uma puérpera

Há quem diga que uma mulher só se realiza tendo filhos. Vinicius dizia a verdade: "filhos, filhos, melhor não tê-los, mas se não os temos como sabê-lo?". Penso que, ao contrário, uma mulher se realiza tendo ou não tendo. Sendo que não tendo ela pode ou não se prender na imagem que tem do que é ser mãe. E tendo pode se prender na saudade do tempo que não tinha.
Ou seja, do tempo que tinha, porque na maternidade o tempo é escasso. Ah! Na maternidade vívida. Ou nem tanto... desde que se seja, de fato, a mãe do filho.
Eu diria que o maior ganho com a maternidade é um saber. Um saber sobre si. Um saber que seria impossível sem ser. Outro dia eu ouvi a seguinte frase "não é preciso ser mãe para saber como é desesperador um bebê chorando". Mentira! É preciso sim. É possível imaginar como é desesperador não um bebê chorando, mas o seu bebê chorando. Mas isso não abarca a realidade de estar de madrugada, exausta, com dores, com um corpo que você mal reconhece e por horas com bebê chorando sem saber o que fazer para acalentá- lo. E nesse momento a sua preocupação é em fazer com que o seu filho esteja bem e você sente que nada está bem. Nem você, nem ele, nem a casa, nem o marido. Nada. E isso não tem nome. Isso  não é transmissível. Sabe  quem passou por isso. E o que vem primeiro plano é o bebê, que no fundo é uma potência de filho.
E mesmo com todo desejo e todas as ações para o bem estar dele e ele chorando chega uma hora em que você só quer que ele pare de chorar. Eu pedi - risos! - pelo amor de Deus,  que desse uma pequena trégua de poucos minutos. Chega uma hora em que você já tentou tudo e ele segue parecendo que você o tortura. Me arrependi de ter tido filho, desejei que ele sumisse, para dizer pouco. Reconhecer em si a raiva, ou o quanto você preza pelo próprio conforto,  como é difícil doar sem o retorno. Como é difícil não saber ou mesmo não ter pra dar.
Também aparece a ambivalência viva quando você investe e investe no bem estar daquele pequeno ser e ele te arranha, aperta, bate, abocanha, chuta. Ai! Eu com dores absurdas para amamentar, ofertava meu leite já quase chorando. E ele nem sempre pegava calmo. Pegava veementemente e, as vezes, insatisfeito se debatia e chutava o outro seio, também dolorido. Pensava eu: a fase em que eu precisei lidar com violência física já passou... e, contudo, la está ele em meus braços, adormeceu. Satisfeito e em paz. Que cena divina. E por um lado você respira aliviada que terá um refresco,  por outro você se vê perdidamente apaixonada por esse pedacinho de gente. Um pedacinho de mim. Me lembrava o quadro do perverso polimorfo.
E sigo falando em geral de dificuldades em ser mãe. A minha relação com o mundo já não era das melhores. Com as pessoas me tratando como se eu não soubesse ou quisesse cuidar do meu bebê ficou pior. Todo mundo tem uma uma uma super dica para te dar. Se metem o tempo todo. Não ouvem o bebê... nao te ouvem. É bem cansativo.

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