Tem casas que tem empregada doméstica. Eu deveria ter, é o que me dizem. Mas no nosso país essas relações não são sérias, não são afetivas e não são de trabalho.
A empregada ganha o sofá velho de bom grado. Ganha toalhas velhas em ótimo estado. Ganha um resto de comida. Ganha... umas coisinhas que quem dá chama de lixo e ela chama de luxo. E depois, na hora que precisa cuidar de um familiar doente é chamada de ingrata. A moça cuja casa foi mobiliada pela patroa, mas que na necessidade da patroa a abandonou (indo cuidar de um familiar adoecido).
A empregada recebe o salário, é considerada tratada com respeito, apesar de morrer de medo de quebrar coisas que não são suas, de esquecer coisas, de falhar. Ela vai trabalhar deixando a filha em casa com febre, a patroa precisa e tá pagando. Ela não tem forças pra preparar sua própria ceia porque saiu tarde e fez muita coisa para a ceia onde ela não come.
Ela foi trabalhar no dia da mudança na própria casa e chegou na outra casa no fim do dia, mas foi ajudar a limpar os banheiros da casa nova da nora da patroa em outra cidade na ocasião da mudança, ela recebeu extra pra isso.
A filha dela, de 4 anos, um dia teve que ir com ela pro trabalho. Ela viu os morangos, ela quis. Mas não podia porque eram pro neto da patroa.
A outra vira a chacota da vida porque pergunta se São Paulo é longe do Brasil. O cara que é tão bonzinho mas que uma das coisas mais marcantes nele é o fato de não se contar os dentes faltantes, mas sim os restantes.
E é claro que tem mais. Quantas casas tem mais histórias pra contar? Quantas empregadas e empregados são gratos por terem emprego, por acharem que estão num bom trabalho? Ou seja, que validam a máxima de que é melhor ganhar pouco e ter uma renda do que a miséria? É o que tentam me convencer: essas pessoas precisam de dinheiro, você estará ajudando. Ajudando? Numa relacao de pagamento por serviço?Quantas são as pessoas em empregos do serviço básico que são vistas de verdade, como iguais numa relação de trabalho?
É bem verdade que sinto falta de uma ajuda pra organizar e limpar as coisas da casa. Isso porque optei conscientemente por escolher cuidar dos meus filhos em detrimento da casa, do meu sono, dentro do possível. Eu vi muito nova um filme chamado "Domésticas", filme nacional que revi anos depois e gostei menos, mas que adolescente eu gravei como sendo dos melhores filmes que já havia visto. Ecoou e ecoa pra mim ainda hoje uma frase no final do filme que dizia algo assim: eu deixava os meus filhos em casa e saía pra cuidar dos filhos da patroa. E não tenho muito mais a dizer.
A lógica que reina é a logica escravocrata
essa é a mais pura realidade, não só com domésticas mas com a maioria dos trabalhadores q trabalham pra "enricar" seus patrões.
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