quarta-feira, 1 de maio de 2019

A falta que recebemos como presente

Ontem eu tive um vislumbre.

Eu vi o pai abraçar a filha de 40 anos como quem abraça uma história, um lugar, um investimento, uma vida. A vida de uma filha. E que 40 anos fazem tanto e tão pouco.

Eu vi uma filha reclamar de sua criação, das faltas de sua mãe. As faltas que sempre haverão, que sempre houveram. As faltas que são maiores ou menores e que são mais ou menos marcantes pra cada filho.

Eu vi a mãe, tentante, esforçada e saudosa se queixar dos reclames de uma filha. Pelo reconhecimento e mérito de sua própria mãe faltosa e por ver o amor em si, em seus esforços tal qual em sua mãe. Sentia-se injustiçada.

E sempre ouvi de minha tia querida, Neiva, que sempre serei pra ela sua bebê. E hoje me sinto tão autônoma, tão responsável e desamparada, e entendendo essa fala. Vejo meu filho mais velho, do alto de seus 2 anos tentando assumir seu lugar, seus desejos. Pondero sempre em suas falhas o que ele é capaz ou não de dar a si mesmo, a mim e ao mundo. Ele, desamparado como eu, contando comigo. E eu, faltosa que também sou, tentarei lhe dar o mundo. Eu e meu desamparo é o que posso lhe dar.

E assim seguimos nas relações, ofertando aos nossos amores. Eu preciso agradecer a doação de si que me fizeram e aos meus amores. As vezes é difícil vermos as faltas do outro, o seu desamparo como também seu presente. Agradeço. Quando qualquer um de vocês falta pra comigo, eu sangro. Mas hoje entendo que só é possível dar de si dando também sua falta, por isso agradeço. A falta que em mim chega diz de todas as suas histórias e marcas. De tudo que lhes é mais profundo. E agradeço por receber e também espero poder arriscar-me em ofertar.

E que, além do meu agradecimento, eu possa colaborar com as melhores formas de nos ofertarmos e com maiores cicatrizacoes de nossas feridas para nos relacionarmos cada vez melhor

Com amor.

2 de maio de 2019.

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