domingo, 26 de maio de 2019

Mais um bis

O primeiro foi Davi. Davi é o sonho vivo. A esperança no amor e numa vivência em harmonia. É bem verdade que eu esperava poder ser mais. Temos ido bem.
A vinda do Davi me ensinou muitas coisas. Vivemos numa bolha quase ideal, propícia a florescer. E na gestação descobri outro corpo, sentimentos... descobri que meus medos quanto ao processo do nascimento não eram assim tão graves, que corte em vagina não era natural, era violência. Que anestesia pela coluna não era obrigatória, que a dor do parto era natural e que passaria. E me preparei com lindas músicas, com o amor de quem recebe um filho, com fé de que daria certo. Me preparei para não deixá-lo em encubadeira, que não lhe pingassem um colírio violento, que seu tempo de nascer fosse inteiramente respeitado. Muitas nuances de que viesse ao mundo da forma mais amorosa possível. E não deu. Muitas coisas conseguimos e muitas outras não. O dia de glória também foi de trevas. E das trevas renascemos com o tempo. O amor era suporte para o que veio depois: restaurar e cicatrizar um tempo onde nasceram Davi e mamãe. Tempos difíceis que foram ficando pra trás deixando pelo caminho sorrisos, esclarecimentos, cuidados.
E chegou o momento possível de pedir bis. Nao pra outras mulheres, a quem instrui como se fossem eu mesma, com sangue nso olhos para que não vivessem o que vivi. Era a minha vez, de novo. Minha chance de vencer o sistema e a mim mesma. Meses de insegurança, incertezas, novas expectativas para no grande dia conseguirmos realizar o feito de trazer um bebê ao mundo como pensamos ser o mais respeitoso possível. Uma experiência corporal difícil como da primeira vez, mas com paz de espírito e senso de humor. A equipe muito boa fez uma diferença tremenda. Parto não precisa ser o horror. 
Fica o meu desejo de que cada vez mais mukheres possam parir respeitosamente, que todas as dificuldades que eu e Davi vivemos sejam transpostas e que os profissionais do nascimento sejam mais engajados. Aqui, nascer alguém é um ato de amor.

Veio Davi
Dos sonhos e encantos
Veio com músicas e planos
Dos sorrisos e prantos

Davi filho do amor
Fiz por ele o mais que pude
Um processo de muita dor
Cheio de flores meu açude

Fora da nossa bolha
Se presentificou o mal
Nao me salvei nem minha cria
Acontecimento muito normal

O trabalho do nascimento
Que deveria ser sagrado
É sem qualquer comprometimento
Sistema ruim e retrógrado

Quando engravidei do Iuri
Desisti de romances e musicas
Nao queria nenhum bisturi
Queria todas as coisas básicas

Tivemos todo tempo do mundo
Incentivo, amor, tranquilidade
E dali ele foi oriundo
Meu desejo, realidade

A luta uma a uma faz efeito
No nosso caso nao foi luta, foi dinheiro
O saber não basta pra ter respeito
E nem um ótimo companheiro

Sigo na reza de que melhore
Que o nascer seja bem tratado
Que mais nenhuma mulher chore
Por seu desejo não ser acatado

Que nascer seja dar luz
Que o puerpério seja mais leve
Que o amor que nos conduz
Melhore o sistema mais breve









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