quarta-feira, 1 de maio de 2019

Bis

No meu luto, luto
Por elas, todas
Pelo melhor e pior dia
De desgraça, de graça,  de glória
De Maria
De Marias
Todas mães de deuses
Dos deuses, as mães
Pelo ciclo da vida
Pelo respeito à eternidade
E tento , num lamento
Que seja digno e justo e possível
Que a faca não corte a carne
Ainda que a alma não se salve
Mas que não salve porque é inerente
E não por violência
E que o sangue derramado
Seja puro e sagrado
Que toda marca seja como é
Pelo esdrúxulo
O bizzaro
Inominável
Que é o ato de criação
Luto pelo trabalho
Pela singularidade
Pela possibilidade
E eis que surpreendente
Quando me vejo na Amélia
Naquela que me recebeu
Que fez sua própria busca
Como eu
Sonhou,  planejou, construiu
Aguardou como pôde o grande dia
E eis que chega
E ela, a Ana
No espelho é vitoriosa
Não toda, mas o possível
E minha alma se enche de luz
Sou eu, venci, aprendi, transmiti
Mas do lado de cá do espelho
Me vejo ainda sangrando
Ainda...
O tempo que viaja no espelho
Não passou
O corpo ferido e em frangalhos
Admira sua bela imagem no espelho
E conclui o óbvio
A parte bela não sou eu
Mas agradeço tê-la
[Pelo nascimento da Sofia, parida por Isabelle]

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