Eu morava num prédio. No prédio tinha apenas um zelador. Quando comecei a morar havia uma síndica. Quando fui embora era a mesma síndica. Participei de 1 ou 2 reuniões de condomínio, ou seja, fui em 100% das reuniões que aconteceram no período de minha residência. O zelador trabalhava no prédio há 17 anos quando cheguei, há 22 quando saí. Ele e a síndica pareciam bem amigos. Ela morava no prédio há mais tempo que isso.
O cara pegava as 9h. As vezes as 21h ainda me despedia dele. As vezes ele dormia no prédio por motivos que desconheço, mas dava-se um jeito. No dia da minha mudança de chegada, nao por minha culpa, ainda havia caminhão descarregando as 2 da manhã, e esse zelador no portão...
Esse zelador não tinha um salário muito acima do que se costuma pagar na função. Não sei precisar o valor, mas em algum momento vi que, no papel, nao chegava a 2 mil reais.
Ele limpava tudo. Quando conseguia, recebia o carteiro e entregava tudo porta a porta. Também era ele quem abria portão sempre que estava por ali (ele não ficava direto na portaria, afinal ele fazia tudo), se oferecia pra carregar peso, ele recebia e "supervisionava" funcionários que fossem realizar quaisquer serviços pelo prédio.
Ele não tinha feriado. Domingos não estava no prédio, exceto por exemplo no cha de bebê do meu filho, que foi no 4o andar do prédio que nao tinha elevador e que eu teria que descer a cada visita para abrir o portão. Paguei por fora, mas não me sinto bem em saber que, pelo meu dinheiro, ele trabalhou duas semanas sem repouso. Ainda que no meu evento tenham sido poucas horas e liberei ele tão logo todos chegaram. Mas ele esteve lá...
Se o natal caísse na segunda-feira ele ia, afinal, ele "precisava" resolver o lixo. Essa parte eu descobri já com data pra sair dali. E assim com todas as segundas, quartas e sextas... nem que fosse pra resolver o lixo do prédio ele iria. O lixo que nenhum dos 26 apartamentos podia resolver naquele dia, ja que era feriado e seria no mínimo bacana que o Marcelo pudesse ficar fazendo o que quisesse. Todos estavam se ou se divertindo, ou em família, ou enchendo a cara. Mas o Marcelo tinha a responsabilidade pelo nosso lixo. E há quem acredite que ele é pago pra isso.
Marcelo não tinha férias pelo mesmo motivo, sabe como é... o lixo... então ele não queria as férias, preferia sempre o dinheiro. Há anos. Não o terço que a Lei assegura de o patrão comprar caso o funcionário se interesse. As férias inteiras.
O Marcelo também recolhia o lixo do prédio ao lado no seu horário de trabalho (horário de trabalho? Qual será que era o horário de trabalho dele?). Ele as vezes ficava de papo com o português do portão cinzento, um tempão. Não era segredo pra ninguém. E sabe-se lá o que mais ele fazia por ali por fora a fim de complementar a renda... as vezes o via subindo as compras da síndica.
A nossa garagem era alugada no prédio e o dono da vaga não tinha qualquer constrangimento em pedir que pagasse ao Marcelo que ele receberia. Eu não aceitava. E se o Marcelo perdesse o dinheiro? E se fosse assaltado? Quem responde? Não era a função dele nem responsabilidade dele. Mas as pessoas "usavam" o Marcelo a seu bel prazer, afinal, ele era super disponível e amável. Nem sei quantas vezes recusei que ele levasse minhas compras porque eu estava grávida e carregando um bebê e as compras. Acho que ele nem entendia.
E eu nunca me meti nas questões trabalhistas do Marcelo. Questão amarrada há anos, em que ele parecia satisfeito, não me parecia que nenhum morador tivesse questão, o próprio Marcelo teria que trabalhar diferente pois o tempo no prédio seria só pro prédio, enfim.
A relação não me parecia simplesmente serviço por dinheiro, mas ficava evidente uma exploração do dócil rapaz. Todos amigos, mas só um resolve o lixo em pleno natal.
A lógica que reina é a logica escravocrata.
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