sábado, 4 de maio de 2019
As coisas como são (1)
Ele vem cortar a minha grama. Pega um sol que só. Apenas sei seu nome. Eu não tenho almoço, ele não quis quentinha. Traz alguma coisa, nunca quis esquentar. Não sei se é casado, se o filho adoeceu, se dormiu bem, se tem problemas com álcool ou espanca a esposa... Mas ele vem no dia marcado. E de vez em quando passa o dia em minha casa. No sol. E corta, corta, corta até o dia escurecer. Começa pela calçada sem que eu tenha pedido porque sabe que acordamos tarde. Nunca solicitou o banheiro. Nunca me pede água. Eu poucas vezes ofereço, fico perdida correndo atrás dos meus filhos e mal me lembro que ele está ali. Deixo ele por conta do marido. Não sei se ele oferece... mas não vejo sinais de que use a casa de forma alguma. Ele corta a grama. Corta, corta, corta. Nos livra do incômodo dos carrapichos, dos ninhos de aranha, daquela coceira de pisar no mato. Não o pagamos em dinheiro. Pagamos por um meio solicitado por ele que não é uma transferência. Segundo ele, como a conta vive negativa, ele prefere que pague de outro modo. Já pagamos acima do solicitado por ele, mas a verdade é que não paga e não me sinto nada bem.
Meu filho tem me ensinado sobre isso. E estou ainda mais atenta e mais triste com o modo como as coisas são. Outro dia viu um homem e disse: ele é um Eliézio. Digo que ele é um jardineiro, assim como o Eliezio.
Quando ele acorda de manhã eu já anuncio: tá ouvindo esse barulho? Ele sorri muito feliz e diz: "Eliezio! Vê, vê!" E vamos ver o Eliezio, que muitas vezes está olhando pra baixo e com tamanho barulho no ouvido que não nos percebe.
E quem acha que ele usa protetor solar? Protetor auditivo? Protetor na máquina de cortar a grama?
Outro dia andávamos de bicicleta em casa e Davi só falava: Eliezio, Eliezio, Eliezio. Sr. Eliezio diz: ele gostou do meu nome. O Davi gosta do Sr. Eliezio, do moço, é agradecido pelo trabalho ofertado: quando termina ele lembra no dia e nos dias seguintes: ao andar na grama ou olhar o quintal diz que Seu Eliezio cortou.
A sensação que tenho é de que eu deveria morar numa casa que eu conseguisse dar conta da grama. Ou o Seu Eliezio fosse um cara mais bem remunerado, entendendo melhor nossa relação de humano pra humano: de usar o banheiro, de esquentar a comida... de uma certa troca de quem somos. Uma relação que é apenas serviço por dinheiro é definitivamente uma invenção bizarra.
Mesmo que eu nao queira, aqui reina a lógica escravocrata...
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