domingo, 19 de maio de 2019

O relato da morte

Se eu fosse mais madura teria dito ao meu pai sobre sua doença.
Se eu fosse mais madura teria eu dito ao meu pai sobre sua doença?
Se eu fosse menos madura talvez tivesse dito ao meu pai sobre sua doença...
Se eu fosse um dito meu pai talvez jamais tivesse essa doença.
Se eu fosse madura, teria o meu pai me dito sobre sua doença?
Será que seu próprio corpo, maduro, lhe contou?
Meu pai morreu.
Revisitei ele no hospital outro dia, voltei em novembro de 2009, há poucos dias da sua morte.
Eu, sentada a sua frente, ele com dores e dialogando comigo. No meio do que dizia apagou. Eu ali e ele abre os olhos: "ora veja! Ainda agora eu estava numa festa, como pode?", digo a ele que estou presente para que possa ir a festa. E zelando seus sonhos, canto e o admiro sem saber que era das últimas cenas que teríamos juntos.
"É preciso amar
As pessoas como se
Não houvesse amanhã
Na verdade não há"
E deitada na sala toca o telefone com a notícia mais estranha do mundo, a inassimilável. E me pergunto ainda se eu teria dito a ele e por que dizer a todos e não a ele. Teria sido covardia? Eu o estava poupando? Aguentaria trocar com ele a verdade de que eram nossos últimos encontros e que eu não sabia precisar quantos seriam? Ele aguentaria saber o quanto estava difícil pra mim? Teria ele me consolado de sua ausência eterna? Eu não poderia consolá-lo da falta de si, do corpo que rateia e das dores que não cessam. No máximo que cumpriria e cumpri seu pedido: que fizesse o necessário pra que não se prolongasse esse estágio. Cumprimos eu, minha mãe e o médico. Mas o pacto não foi cumprido. Não foi preciso. Não houve tempo.
E me vejo tão madura e tão frágil. Enxugo aquelas lágrimas que nunca secaram e ainda insistem. E me pergunto se diria, se deveria... o quão mais verdadeiro seria se o verbo fosse aberto... acho que ainda prefiro que ele tenha ido a festa. Que falta que ele me faz. Que falta...


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