Tempo que não cessa e se acaba
Corpo que nada pondera
Simplesmente é e faz, navega
"Quando a gente gosta é claro que a gente cuida
Fala que me ama só que é da boca pra fora
Ou você me engana ou não está madura" Caetano Veloso - Sozinho
Fui fazer compras maiores de hortifruti. O carro me deixara dois lances de escada abaixo do estabelecimento e pergunto preocupada ao que parecia ser a dona dali: tem carrinho pra levar as compras? Afirma que sim. Pego a vontade tudo o que preciso e ao final, no caixa, peço o carrinho.
O carrinho tinha dois braços fortes e cor negra. Fiquei tão embaraçada. Não era possível que fosse isso. Mas era. A proposta era que eu o acompanhasse. Esse que tudo aguentava e a quem o peso das minhas compras caberia. Queria deixar tudo ali mas já estava pago. Disse que iria levar aos poucos, que não se preocupasse. Riu pra mim. Ou de mim? Garantiu-me que estava acostumado.
Dividimos as caixas. Carreguei o máximo que conseguia. Ele incomodado, reclamou. A dona do estabelecimento sem entender ou entendia, parecia incomodada. Ele também carregou coisas minhas... que desconforto. Dois andares, um corredor... abri o carro pra pôr as compras. Ele aguardou, precisava da caixa.
Nunca mais voltei. Como que ainda tratam pessoas assim? "Ah, Ana, mas ele é pago pra isso. Ele ganha com isso. Ele precisa desse emprego"... é gente! As vezes a gente precisa mesmo de algum apoio. Precisa de um trabalho. Um trabalho que acaba com seu corpo, que te massacra de alguma forma, ele precisa ser muito bem pago. Aquele menino paga com o corpo. Como pagam os trabalhadores de funções pesadas. Trocam sua saúde por sua subsistência imediata. E quando não tiverem saúde pra trabalhar serão descartados. E como sempre receberam só uma ajuda pra não morrerem de fome, não têm reservas. E agora lhes resta a saúde pra cuidar e o dinheiro pra ganhar.
Não entendo nenhum trabalho pesado como um mal necessário. Eles dão seu preço, alguns me dirão. É verdade, as vezes ganham o quanto cobraram. Mas não é simples assim. Herdeiros da desigualdade pedem o quanto vale o seu serviço. Não porque assim acreditam ou o quanto precisam num mundo ideal. Se encaixam num sistema perverso que transforma pessoas em carrinho de carga. Talvez porque se não for carrinho de carga corre o risco de não ser nada.
Hoje é meu dia de aniversário. Ontem quando estava quase chegando a hora eu pensei que faria 36 anos. "Nossa! Um arremedo de gente", pensei. Depois achei que não. Não sou uma quase gente ou cópia mal feita - fui conferir no dicionário a precisão do nome. Apenas chego aos 36 anos sem um lugar no mundo do qual me orgulhe. Profissionalmente nem preciso comentar, mas vou. Escolhi das profissões que considero mais próprias a mim, mas não fui capaz de conseguir trabalhar. Depois de escolher a psicologia escolhi a psicanálise. E chego ao brilhante momento em que me pergunto se serei capaz de trabalhar com ela algum dia. Não por incompetência propriamente, já que até considero minha trajetória satisfatória e tem tudo a ver com como vejo o mundo. Mas por insegurança. Trabalhar justamente com o não-saber porém no lugar de suposto-saber. Ocupar lugar de furo com certo semblante de mestre. Trabalhar com transferência sem responder à demanda quando me sinto mal com a sensação da impotência. Ainda posso incluir a demanda do nosso tempo e a questão das redes... Psicanálise é o meu amor. Será um caminho sem volta?
Daí investi na família. Sonhei com filhos bem resolvidos, amorosos e sei lá o que mais. E o que tenho é uma maternidade que nunca dá conta do que eu queria e filhos desaforados e desrespeitosos. Maravilhosos também, mas arrisco dizer que sinto-me mais infeliz que feliz com a forma das coisas. Também não consigo me ver sendo muito diferente de quem sou nesse quesito.
Já meu marido, sonhei que seríamos felizes para sempre. Ele não é feliz. É bem lamentável. Sim, não é exatamente eu. Mas construímos uma vida juntos. Juntos. Uma vida que pra ele tem pouco valor ou ânimo de viver.
Agora, tendo localizado um pouco onde estou, vamos lá: 36 anos...
Essa é uma pergunta para todos do senso do Ibge. E é uma das que considero mais emocionantes.
Tem umas três ou quatro versões de resposta, lembrando que é um questionário sem margem pra subjetividade. Mas... como quem faz a pergunta é uma pessoa e como quem responde é uma pessoa, ela aparece, a bendita subjetividade!
Primeiro subtipo: o que tem um histórico já mais estabelecido quanto ao acesso à educação: sabe ler e escrever? Sim. Um sim quase cansado, a pergunta parece redundante, boba, meio absurda. Só falta a pessoa perguntar: tá pensando que eu sou o quê?
O segundo subtipo é o de famílias em ascensão educacional. Uma maioria sabe ler, mas a mãe, a avó, o avô não sabem. Se orgulham muito em falar dos que sabem, quando alguém da família chega à universidade é citado ainda que não tenha sido perguntado. Algumas famílias se orgulham daquele que "terminou os estudos" o que significa que concluiu o ensino médio.
O terceiro grupo é o que não sabe ler ou escrever. Acontece de dizer logo que não sabe e acontece também de dizer que sabe escrever o próprio nome. O que me chama a atenção nesse grupo é uma tristeza para responder a isso e um similar de pedido de desculpas, algo que justifique aquela situação, em geral um relato sobre a precoce inserção no mercado de trabalho e a necessidade de lutar pela sobrevivência.
E essas pessoas muitas vezes não apenas não sabem escrever, intelectualmente acabam se desenvolvendo menos, vivem uma vida de precarização. E quando você olha toda conjuntura parece tão absurdo cogitar que aquele ser não teve outro futuro, não foi capaz de algo mais, por falta de esforço, como julgam alguns... e ainda, o segundo grupo, dos que tiveram a oportunidade de estudar um pouco mais, em sua maioria não o fizeram vencendo as intempéries exatamente mas sim tiveram apoio dos que não puderam fazer o mesmo.
A meritocracia é uma injustiça sem precedentes. Julgar uma pessoa por seu insucesso é desconhecer sua história e subjetividade.
Se tem uma experiência que nos coloca em xeque o quanto podemos ser especiais pra alguém, essa experiência é a maternidade. É muito rápido que podemos ver o quanto que só serve a gente, o quanto as nossas dimensões são valorizadas: nossa voz, nosso colo, nosso carinho, nossa presença. A mãe é o conforto, a segurança, um tudo para seu filho.
E com o ingresso na escola, passamos por uma experiência muito bonita, óbvia porém que é muito digna de nota. Quando juntamos os pequenos num grande grupo, cada um deles tem o seu adulto de estimação. Ali, as mães e pais, todos presentes e capazes dos cuidados de uma criança. Ali as crianças, aprendendo a conviver no mundo e prescindir um pouquinho de seus pais. E se, num instante, ele perde seu responsável de vista cai em prantos, se desespera e nada nem ninguém é capaz de preencher aquele lugar. Se ele cai, se se machuca, todos os presentes são capazes e experientes nos cuidados, mas não servem. Cada miudinho tem sua referência.
E aí pode ficar parecendo que isso é uma ilusão, que na verdade pais e filhos são curingas e que a troca dos fatores não altera o produto. É o que comédias as vezes põe em cena: só muda o endereço.
Mas... não creio. É mesmo uma relação de muita intimidade. É muita dedicação, essa relação tão primordial. E o encaixe dos corpos é único, o tom de voz é único, a perspectiva de vida é única.
E crescemos continuando nessa busca dos afins. E se algo nos acontece, há aqueles a quem confiamos a especial tarefa de nos dar colo, de nos reconhecer nas nossas particularidades. E, de repente, poderia parecer que é tudo gente, tudo igual. Não é. "Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez dela tão importante".
Essa caminhada é um sonho há muitos anos. Sempre pareceu tão grande, tão longe, tão difícil. Hoje é realização, experiência e vontade de voltar.
Precisava me preparar, ter energia e pernas pra subir muito, precisava saber o caminho, entender os riscos, organizar tantas coisas. Foi o projeto mais ousado após o nascimento dos filhos.
Precisava de uma parceria. Eu não topava ir sozinha e o Diogo foi a melhor companhia que eu poderia ter tido. Eu fiquei tão feliz de estar com um amigo tão querido e termos também um tempo rico e intenso de trocas.
A subida não foi fácil mas dá vontade de dizer que foi. Não pensei em desistir. Soube, um passo após o outro, que eu conseguiria. E a alegria dessa certeza junto às belas paisagens energizavam ainda mais o caminhar. A cada momento que eu pensava que agora sim a subida ficaria mais suave vinha outro trecho íngreme. E olhava pra trás, já havia vencido tanta altura, estava indo tão bem! A cada marco que chegava eu pensava: "eba! Já! Achei que seria pior". E assim fui indo até o Chapadão.
Quanto mais em cima mais silêncio e beleza. As montanhas que víamos como gigantes foram ficando em nossa altura até as olharmos de cima pra baixo. A vegetação que vai ficando menos densa, as flores singelas de altitude, beija-flores e outros passarinhos que nos acompanhavam pelo caminho faziam tudo valer a pena. Houve um momento que nos meus devaneios me parecia que a morte por ali seria plena, que era o sentido em si mesmo, que nada mais era realmente importante. Sentia-me parte da natureza e a natureza ecoava dentro de mim.
Chegando ao Chapadão, animados, perguntamos a uns passantes sobre o Mirante Graças a Deus. Estávamos em dúvida se ele já havia passado. Responderam e tal mas perguntaram: "estão sabendo da mudança de tempo né? Vem temporal por aí. É... mudança de tempo no meio da madrugada. Não pense assim não, vai dar tudo certo.". Acabou o meu passeio e a minha alegria. Eu esqueci, só esqueci de ver a previsão do segundo dia. Vi da subida mas não do segundo dia. Achei que tinha capa de chuva na bolsa. Diogo não tinha porque, como ele disse: confiou em mim. E confiança dele martelava na minha cabeça. Como também martelava a culpa de uma vida misturada com incompetência, irresponsabilidade e dúvidas sobre ser e não ser alguém.
Fiquei mais cansada. Minha mente não desfrutava mais. Pesava a manhã de brigas em casa entre as crianças e o marido irritado com a corrida da manhã e as mudanças de planos para o início da empreitada, a sensação que pairava já há uns dias de que tudo poderia dar errado a qualquer momento. Um dito que exigia: se prepare melhor pra isso. E estava dando errado por minha causa. Um pouco eu me sentia dando errado como em tudo. Eu e errado bem imbricado.
Apesar de dentro de mim já estar chovendo, havia sol, continuávamos indo muito bem, a tarde ia ficando mais alaranjada e o castelo aparecereu já não tão longe, imperando misteriosamente em sua grandeza. Desconfiava o quanto meu amigo Diogo estava de fato em paz ou o quanto o fazia para diminuir meu pesar. Ponderava dentro de mim o quanto de aborrecido ele poderia estar comigo, o quanto dele estava ali por mim e não por auto-realização e ainda o quanto ele já preferia nem ter subido no sol, quem dirá saber de passar perrengue com chuva. Ele era suave o tempo todo.
E eu era a responsável por todo risco que pudéssemos passar. E por todas as preocupações de terceiros, o trabalho do marido no dia seguinte que dependia da minha presença junto aos filhos, o ter filhos pra criar. O papel de responsabilidade por mim e pelo Diogo que eu assinara na entrada do parque... que idéia subir uma montanha dessa! Onde eu estava com a cabeça?!
Quando chegamos fomos recebidos por um jovem rapaz que nos sinalizava o caminho. Era o Uriel, super amável e quem mal conheci logo anunciei: estou preocupada com a chuva, não estávamos contando com isso.
Minha mente inquieta procurava soluções enquanto o Diogo e o Uriel preferiam esperar que cada coisa acontecesse em seu tempo: e se só chover amanhã a tarde? Não pense assim...
Mas eu penso. Minha cabeça é um furacão. Ainda mais se criei um problema, eu que busco ser tão correta, fixo atrás de uma solução. E além de procurar uma solução reproduzia ao mesmo tempo que desviava dos mais diversos xingamentos, desvalias, auto-depreciações. Os que tivessem sabido da minha empreitada, todos em eco me acusando de maluca, alguns até com um sorriso no rosto e carinho, outros com desdém e repreensão.
Perdemos o por do sol montando barraca. Eu que queria tanto já não fazia questão de nada. Quase não fui ver o castelo de perto. Ia ter perdido o melhor do passeio. Felizmente o Diogo iria com ou sem mim e o acompanhei. Minha lanterna mostrava o bizarro daquela existência gigantesca e tão milimetricamente posicionada cada uma das pedras monumentais, era de uma beleza indizível, era um presente estar ali.
Tentava manter o bom humor apesar de por dentro estar destruída. Voltamos pra perto do abrigo e o casal que subira na mesma tarde passou por mim. Troquei com eles: vocês estão sabendo da chuva? Eles estavam sabendo e estavam preparados pra chuva, não me deram muita bola não.
Dormimos ainda sob as estrelas, algumas nuvens. Eu estava cansada. O corpo bem moído da subida mas menos do que eu esperava, os ombros um pouco magoados com o peso, mas nada significativo. Não foi difícil desligar, mas assim que as primeiras gotinhas bateram no teto da barraca eu as ouvi: que merda! Agora sim o caos estava se anunciando de forma mais presente. Pergunto ao Diogo: agora realmente está chovendo, o que vamos fazer? E ele seguiu impassível: vamos aguardar para ver como estará de manhã. A impressão que eu tinha era de que ele só se preocuparia conforme as coisas acontecessem. Enquanto eu buscava saídas e uma definição clara de qual seria a forma de enfrentar aquela situação. Minha paz não estava em esperar o meu destino mas sim em costurá-lo com o máximo de ferramentas que eu pudesse. Dormi de novo. Acordava com a ventania sacodindo a barraca. Em alguma acordada mais longa eu encontrei umas saídas: não descer naquele dia, mas me preocupava a comida que não era muita; solicitar um guia para nos ajudar na descida (mas será que eu conseguiria essa proeza assim pra mesma hora e sem sinal de celular?), criar meios de reconhecer um caminho pra voltar se precisássemos. Pensava no André, meu companheiro, tanto preocupado como super crítico a mim. Pensava que ele podia aparecer na portaria do parque pra saber noticias e me perguntava se ele me arrumaria uma solução a distância. Meu maior receio era descermos e isso implicar em risco de vida: nos perdermos no Chapadão, molhados, no frio... que angústia! Uma amiga me contara uma história desse tipo: pessoas no Açú perdidos na chuva e no frio quase morrendo de hipotermia. Pensava com meus botões: que besta eu estar passando por isso!
Em algum momento Diogo foi ao banheiro e ao abrir a porta víamos que a chuva não era pouca e tinha bastante neblina.
Muita chuva e muito vento fizeram a barraca ceder à água, que foi entrando lentamente pelas paredes da barraca. O vento sacodia as paredes e jogava agua na nossa cara. Fui me ajeitando no saco de dormir de modo a conseguir descansar apesar de. Umas 3 da manhã eu estava bem acordada e Diogo me perguntou se eu ainda pretendia dormir, disse a ele que não sabia. Perguntou se eu queria cantar. Quis. Foi das coisas mais lindas que vivi na vida. A chuva lá fora, o vento que assusta, um nevoeiro danado, muita indefinição e medo e cantamos, revezadamente. Cantamos a chuva, o vento, as águas, os orixás e tudo que eu amo cantar. Conheci canções novas, todas belas, todas minhas. Isso que é viver. Não chorei, mas foi muito emocionante pra mim. Acabei depois de muitas músicas cochilando mais um pouco.
Ainda estava escuro quando percebi que algumas das minhas coisas estavam molhadas. Comecei a proteger outras pra manter o máximo de coisas secas. Mas ainda antes de 7 horas o saco de dormir, que era muito bom, começava a estar molhado ja mais internamente. E o piso fora do isolante também estava todo comprometido, minha calça ja tinha um ponto da coxa molhado. Eu não queria ficar ali mais nenhum minuto. Decidimos que íamos falar com o Uriel. Diogo ia ao banheiro e eu ia com ele pra já falarmos de uma vez. Mas ele não quis. Pediu-me que aguardasse pois nossos "estados mentais" eram diversos e ele temia que brigássemos. Eu não me via próxima dessa realidade, mas respeitei e aguardei. Só quis conferir: "você vai dizer a ele que está tudo molhado?", ele responde "não, porque não está", continuo: "ok, mas você vai dizer que está quase tudo molhado e que vamos nos molhar todos em breve?", ele concordou. Em pouco tempo ele retornou dizendo que podíamos ir pro abrigo. Peguei minhas coisas principais aliviada.
Fomos recebidos com saco de dormir seco, café quente e muita tranquilidade. Em pouco tempo descobri que ele sugeria que nós descêssemos e que levaria a gente até certo ponto e daria orientações. Sugeriu também que esperássemos o casal acordar porque melhor seria descermos os 4 juntos e que ele aconselharia o casal a não seguir a travessia pois era risco de vida.
Soube também que tinha 3 pessoas subindo. 3 pessoas subindo... 3 pessoas que escolheram subir com chuva, sem grandes vistas, sem abrigo. E o casal que seria convencido a não continuar. Sabia que eu me considerava uma irresponsável por não ter visto a previsão do tempo e também que entre eu e aquelas pessoas havia o abismo do conhecimento, elas deviam saber bem o caminho. Apesar disso, o que eu vivia com certo terror elas viviam por escolha. E o que eu queria era conseguir escolher ficar bem, continuar vivendo o sonho realizado, eu que há anos queria estar ali.
O casal demorou muito a decidir o que faria e resolveram dormir lá ainda naquele dia. Cheguei a cochilar no saco de dormir seco no quarto. Diogo pegou 3 livros que levara e escolheu um pra ler.
Acordei do cochilo com a ideia da capa de chuva que eu montaria. Consegui 3 sacos de lixo grandes e me pus a trabalhar. Ficou bom. Foi chegando a hora de o Uriel nos levar e fomos desmontar a barraca. Separamos coisas secas de molhadas. Ponderamos se conseguíamos deixar umas coisas pra trás a fim de facilitar a descida, o que ele assentiu.
Demos continuidade com o Uriel, que nos levaria até o mirante Graças a Deus. Pediu que fôssemos na frente para avaliar como nos saíamos. Acho que fomos tão lentos que ele logo assumiu a liderança o mais rápido que dávamos conta. Também muito no início ele nos orientou que não evitássemos as poças, mergulhássemos logo os sapatos e seguíssemos em frente. Foi muito bom! Gostoso. Muito menos desconfortável do que eu imaginava. Uma coisa é ficar com pé molhado na cidade, outra é descer 8km de vez em quando mergulhando o calçado.
Quando chegamos no Mirante, por algum motivo ele nos levou até o inicio da trilha, atravessando todo Chapadão com a gente. Ou achou que tinha muito nevoeiro ou quis mesmo me deixar mais tranquila. Ou não quis correr o risco de ter que sair mais tarde à nossa procura. Enfim! Quem sabe um dia saberei.
Descemos muito bem. Aproveitando as paisagens, aos pulos, com corridinhas e bom-humor. Um ou outro escorregão aconteceu, mas muito poucos e sem machucados, a descida era muito grata, sem oferecer risco ou dificuldade. Dava pra ter voltado com mais coisas...
Assim que consegui sinal alinhamos a chegada com o André. Deu tudo certo. Foi incrível.
Subindo a montanha com sentimento muito enorme de alegria e gratidão ao universo e a existência, olhando a vastidão, a grandeza e a independência da montanha sentia o não-sentido da nossa forma de viver nesse mundo.
Compreendia, sem os pés no chão, forma de subsistência mais primitivas, meios de cortar vínculos com esse capitalismo selvagem e as neuroses inerentes aos meios urbanos de relações.
Evocava todo o espiritual, que ali já se presentificava, transcenderia toda complexidade, apenas observava o quanto tudo ali faz sentido.
Senti dentro de mim que se por ventura a terra me tragasse, minha missão estaria finda e nenhuma pendência ou desejo teria ficado para trás. Eu-natureza junto a natureza-ela-mesma fazia todo sentido.
Até o momento em que me foi anunciada a tempestade. Muita chuva, ventania, incertezas mil para o nosso destino.
Estremeci, me humanifiquei, senti todos os sentimentos que podia, principalmente os piores. Lembrei-me de cada um dos meus amores tendo algo a me dizer. Lembrei-me dos meus filhos e marido, da minha presença estruturante em suas vidas - ou ao menos é assim que eu imagino.
Ativei meu senso de auto-proteção, julguei mal me perder na pedra e ali ficar. Não me vi em paz junto à chuva, aos raios, aos pássaros comedores de carne. Senti-me responsável de manter-me junto aos meus. Queria mais que o fim de mim.
Estou trabalhando no IBGE e por esse motivo tenho contato diário com moradores de uma comunidade petropolitana. Tento ficar atenta ao que foge da rotina tradicional a fim de receber presentes que a vida queira dar. E o contato com gente de toda sorte nos traz algumas amarguras e alguns presentes.
As vezes imagino que moradores pensem que apenas estou no celular. Mas estou cadastrando ou alterando algum dado daquele local. Numa dessas me veio uma senhora a quem eu já havia entrevistado. Negra, de baixa estatura, boca desdentada e postura levemente arqueada começou a me dizer coisas em rápida velocidade e sem aviso prévio: "eu moro ali com o meu filho e eu ajudo ele porque ele precisa. As pessoas são o que são: uns melhores e outros piores cada um faz o que sente no seu coração. Eu tenho outros 3 filhos. Um deles é bem de vida, trabalha no banco. E todo mês ele dá um dinheiro pra nós. Pode ser 200 reais, 300 reais. Ele dá o que pode. E ele dá porque ele quer. Eu nunca peço nada nem cobro nada dele, mas ele dá porque está no coração dele. Acontece eu tive que trabalhar muito, e por isso eu não sei ler nem escrever. E o meu mais velho, esse que mora comigo, eu precisei muito dele. Era meu braço direito, trabalhou muito também, ele era o que me ajudava. Ele também não sabe ler e escrever, vive comigo e eu ajudo ele. E por isso esse outro filho pôde ir pra escola e sabe ler e escrever e tem um emprego bom. E ele sabe que ele conseguiu isso porque o outro não conseguiu nada e pôde dar apoio a ele".
As palavras não foram gravadas e transmito apenas a ideia com a imagem da senhora na minha cabeça. Lembro dela quase todos os dias. Deu uma lição sobre meritocracia e também me falou mais um pouco sobre as pessoas nascerem diferentes, precisando de olhares diferentes e podendo ofertar mais ou menos, cabendo a nós observar, acolher e fazer a nossa parte.
Não bastasse, ao saber que eu estava com dificuldades em encontrar uma moradora quis prontamente me ajudar também.
Os olhos dela me levavam a um mundo tão estranho e tão encantador. Um mundo escrito em seu corpo, tão sagrado, tão resiliente, ao mesmo tempo tão frágil, sensível.
O filho eu também conheci. Pouco articulado, com clara dificuldade intelectual pediu ajuda para responder às simples perguntas que eu fazia, sua fala me soava embolada. Veio a esposa, mãe de seus 3 filhos, super bem articulada, letrada, bonita. Eu me perguntava: o que faz ela aqui? E seguia perguntando...
Tem casas onde eu pergunto respondendo: "a agua chega encanada no domicílio... quantos banheiros com chuveiro e vaso sanitário tem na casa?" Ali eu perguntei: a água chega encanada dentro de casa? Sim, veio a resposta. Alívio.
E esse questionário dias depois tendo sido expandido qualitativamente pela entrevista não solicitada me causa a indignação do desamparo que, é certo, é pra todos nós. Mas pra alguns é muito desamparo. Quem pra amparar essa família? Quantos olhos como o meu passaram por ali e só passaram? Quantos 60, 70 anos se passaram sem que ela aprendesse a ler? E hoje seu filho também, acostumado a essa realidade. A troca do mínimo do sustento e dos cuidados com os filhos pela possibilidade de se tornar outra pessoa. Ela vende tempero pra comida a base de alho. Quer?
Poderia ter sido apenas inconveniente no meio do meu dia de trabalho, mas foi um presente.
Tive o prazer de reviver a escuta do cotidiano alheio passeando de ônibus. As realidades, os olhares, as escutas tão diferentes, tão de outro mundo, há um fosso entre nós. E curto participar de alguns desses segmentos de vida como quem assiste a um filme.
Hoje o rapaz dizia eloquente que ao ter anunciado conhecer o juiz/desembargador/promotor (já não lembro ao certo a função) o outro olhou pra ele e pensou: "não é pouca merda não".
Para além de ele ter intuído o pensamento do outro, a expressão "não é pouca merda não" ficava ecoando na minha cabeça. Não é pouca merda, ou seja, é muita merda... e é melhor ser muita merda que pouca merda. E eu? Eh... acho que sou pouca merda. Mas prefiro ser pouca merda que muita merda, embora as vezes me seria bem útil ter uns contatos que me elevassem a uma merda maior.
A verdade é que conhecer o tal "juiz" era uma carteirada. Os homens brigavam segundo o relato que eu acompanhava. E percebi que era um tipo de situação que sempre me deixa muito ocupada psíquicamente, atormentada. Um tentava se sobrepor ao outro. Os fatos que cada um evocava se encavalavam e as palavras anunciavam que a civilidade estava ameaçada. Medo. E diante do risco de esfacelamento ele se aprumava, uma merda completa que era com seu amigo juiz.
Como muitas conversas do tipo não tenho o desfecho. Já não me lembro se depois do "pouca merda" eu devaneei nesses pensamentos de Ana ou se voltei a me concentrar em minha leitura ou se o papo teve outros rumos, desceram da condução, enfim.
Ainda me sinto jovem demais, inexperiente demais, com poucas habilidades e certezas.
Farei 36 anos esse ano. Encaro minha existência com razoável desprezo. Acho dificil arriscar outra existência mais digna pra mim mesma. Mesmo percebendo que estou na minha oportunidade de existir e que, por pior que seja o resultado, o máximo que me acontece é o não existir.
Noto que aprendi algumas coisas e que penso de uma forma da qual me orgulho. Sinto-me menos presa a questões aparentemente menores mas por ali algumas me abocanham.
Entendi que entre eu e o dono do mundo ou o mais vil cidadão há muitas diferenças, mas que no básico somos a mesma coisa. Os anseios humanos, as fragilidades, o que importa... é igual. Mas diante das aberrações da realidade se faz diferente com isso que é o mesmo.
Esse amontoado de órgãos orquestrados que funcionam mais ou menos do mesmo modo e que nos governam, dos quais somos reféns e senhores, eles somos nós. E não somos. Ou somos? Essa fagulha que pensa e sente, dependente de um cérebro.
Quero que a vida me queira. Mas as vezes desdenho dela. E a quero. E nem tanto.
Eu quero andar com a minha confortável calça rasgada. Sentir-me bela com todos os pêlos que meu corpo me deu e sem me ferir para extrai-los. Curar-me de acometimentos com as ervas da natureza, sem laboratórios. Aprender a gostar dos alimentos certos, com os quais meu corpo se alegra em silêncio. Sou ludibriada pelos sabores que meu corpo rejeita secretamente e a longo prazo, mas se alegra imediatamente, efusivamente. Anseio por ser acolhida nas minhas incertezas, que são tantas. Quando olho pra mim vejo uma moça cheia de ideias, cheia de vontade, cheia de capacidades e querendo se dar. Insegura, cheia de medos, olhando pras incompetências que se estabelecem com inveja.
E sonho com o momento em que eu me baste mais. Preciso que não seja mais só sonho. Tenho 36 anos, quase.
À minha mãe agradeço primeiro a vida
Vida essa que nem sempre quis e nem sempre quero
Mas que possibilita-me a escrita dessas palavras e os inúmeros prazeres que vivi
À minha mãe agradeço por todos os empenhos
Fui sua primeira filha e hoje entendo o quanto de tentativas e erros são as vivências da maternidade
E o quanto nos perdemos e nos achamos nos inúmeros afetos que nos preenchem nesse maternar
E dos encontros e desencontros com a nossa criança e o maternar que nos ofertaram
A minha mãe reconheço como fundamentalmente aquela que fez de mim gente e não pedaço de qualquer coisa.
Que investiu cuidados essenciais, muitas horas, choros, alegrias, vivências intensas que nenhum outro alguém representa.
E cujas faltas perdôo o mais que posso e busco confiar no amor que conquistamos.
À minha mãe devo também a falta, que me permite ser assim prenhe de um vazio que hoje mais admiro que rejeito, que faz parte do que eu sou. E que me afasta também de uma plenitude estranha, própria aos que não se separam nunca de suas mães.
Busco saber também que esse eu que sou e as marcas que tenho são uma mistura complexa do que ela me ofertou mas também das minhas leituras e possibilidades diante da existência e dos valores que dei a cada uma das minhas vivências, meus enigmas.
A minha mãe me cobria no frio como ninguém e esse aconchego guardo comigo, assim como no fundo é dela o colo que busco no obscuro da minha alma e no desamparo que me acompanha. A pergunta fundamental de todos nós: fui amada? Qual o meu lugar? O que queres de mim?
E sem resposta precisa mas com sentimento terno agradeço pelo lugar que tive e ainda tenho e respondo também de minha parte, já que talvez a pergunta lá ressoe: sim mãe, te amo muito!
Tem uma tristeza que me preenche de vazio. Uma lágrima presa, contida, que não desce por não saber pra onde ir ou por quê. E a sensação de não valia ou desvalia contra a qual luto dizendo quem sou aparece com força e me mostra: não és tu, nem eles. Que pouca coisa que somos, tão insignificantes. E a vontade de não ser me lembra de um tempo que eu tinha. E as crianças que por vezes me salvam por vezes condenam também me fazem vislumbrar essa incompletude desajeitada, um quebra cabeça cujas peças tem irregularidades. Talvez a vida seja um quadro de Van Gogh. Meus filhos que tanto amo e cujas vidas valem a minha, a missão de materná-los justifica minha existência e a valida, pois bem, esses mesmos filhos as vezes me cansam tanto e apesar de todo amor que sustenta a existência deles, penso que não os queria. Nem o caos e o trabalho que dão, o que nunca faço o suficiente ou bem feito. E meus olhos fecham sobre as letras, os sonhos sobrevêm me levando pra um outro mundo, onde as vezes eu me perco e queria nem me achar. Fora de mim um vento frio. Aqui dentro bem quentinho.
Tá aí duas palavras descombinantes. Uma aponta pra tudo quanto há, pro infinito de possibilidades. A outra pro encarceramento, pro compromisso na relação.
Como a vida é uma só, às vezes sinto vontade de retomar minha vida de outro ponto, com outras cores, pleiteando outras demandas. E experimentar uma verdade longínqua: a de somos livres e escolhemos a vida que queremos.
Mas a responsabilidade me prende num escopo, me dá limites claros os quais eu mesma não transponho. Não viveria bem sem saber dos meus amores, sem ter a segurança de seus braços e sentindo-me os abandonando. A responsabilidade com seus afetos e até com a garantia do lugar deles em mim. E suporto alguns dias sem fim, sensação de querer fugir desse mundo. E penso: passa.
E quando passar eu sei bem: sentirei saudades do meu investimento, orgulho dos gritos que não dei, das brincadeiras que inventei fugindo do caos, das refeições com todas as cores por tantos dias e dias a fio. Dos nãos que ofereci, dos abraços que tudo acalmam. E me tornarei desnecessária. Não tenho dúvidas de que será assim. Um dia. Um dia.
E o mesmo tempo que quero atravessar logo esse momento, preciso vivê-lo com vivacidade. Esse momento não voltará. E hoje estou tão cansada. Até meu ouvido fica cansado. E as vezes também minha criança é chamada à cena. E preciso acalmar ela e também os meninos, meus filhinhos. E só queria ficar um pouco deitada. Ou tomar uma chuverada prolongada. Ou deixar o almoço pra lá e comer só uma batata frita. Mas todo dia, todo dia, todo dia, todo dia eu tenho os meus meninos pequenos fazendo lama, brigando por criancices e atenção, usando objetos de modo inadequado, fazendo coisas sem educação, pedindo leitura dos livrinhos, precisando de um bom banho, querendo mais um picolé que eu fiz, falando peido e bunda aos montes, enfileirando carrinhos, pedindo água pra brincadeiras e comendo um almoço bem nutritivo. E mais um tanto de coisas e cansaço. E penso: cadê minha liberdade? E respondo a mim mesma: você escolheu a responsabilidade...
Mulheres, oh! Mulheres...
Quanta ilusão, desilusão
Nossos corpos, nossa vida, nossos seres
Pedir por igualdade, coração?
Que igualdade, ora, como?
Se só de nós a vida brota
Se só por nós há um autônomo
Esse ideal é uma lorota
O aprendizado de uma casa
Da gestão do corpo e de uma vida
Escolhas duras, e só atrasa
E logo ali pensa: estou grávida!
E escolhe se vai ter tempo pra parar
Ou se entrega o filho ao sistema
Um dilema que nunca vai fechar
Que não se explica nesse poema
O que é dar tchau pro seu trabalho
Perder poder, lugar, autonomia
Passar o dia com fraldas e chocalho
E quem sabe alguma alegria
Ou ainda ir pra rua trabalhar
Deixando aos cuidados de outros seu rebento
Ir embora sem pra trás poder olhar
Produzir sem um lugar pro sofrimento
E uma mulher sem filhos o que é?
Não sei ao certo o seu lugar social
Exigem dela filhos, marido, bunda em pé
Não tem voz, o seu lugar é desigual
Aliás qual a mulher que é ouvida?
Desequilibrada, louca varrida
Tem tpm, é frágil demais ou sapatona
O meu respeito às que passam a vida numa zona
E nossos corpos depilados e bonitos
Cujas formas nem sempre são aceitas
Apertados, sobre saltos, maquiados, infinitos
Exigências para parecermos direitas
Mas é isso, mulher não há direita, só esquerda
De uma forma ou de outra somos sinistras
Nossa história atravessada pela perda
Somos deusas, castas, monstras
Estamos entre as loucas e as santas
E entre as puras e as putas
Estas questões entre outras tantas
Nos faz emaranhadas, irresolutas
No entanto, apesar de tantas lutas
Vivemos em nossos corpos violências
E piadinhas e outras pautas
Que tenham cada vez menos conivência
Acredito que somos meio sequeladas
Pela vida e toda essa presepada
Mas transpomos tantos obstáculos
Somos Fênix, damos espetáculo
Merecemos todo o respeito do mundo
E também um silêncio profundo
E do nosso blablabla incessante
Que se veja uma produção interessante
Daquilo que somos e queremos dizê-lo
De um trabalho intenso e singelo
Água, água, água
Vai com a terra, vai com as pedras
E leva onde passa
Carrega mesmo, cria estrondos, limpa escostas e enche os rios.
Treme o chão, derruba casa, carrega ônibus, faz uma onda. Carro sobre carro.
Derruba os muros, carrega o chão, cria pânico na população.
Acaba a luz, não tem mais água, pra onde fugir? Não tem mais nada.
Água vai indo, vai diminuindo. E quanta destruição...
Noite de longas caminhadas. De violência de toda parte. A violência até da consciência que não capta a realidade.
De incertezas: você está bem? Ufa, eu também.
E de certezas: não atende, não sei onde está. Faz anúncio: desaparecida.
E se criam os pontos de apoio pra tanta gente que não tem mais chão nem colchão. Que não sabe bem como começar de novo. Como se faz isso? De onde partir?
Tem criança sem espaço, sem roupas, querendo brinquedos.
E tem brinquedos na lama, lançados, sem suas crianças.
Tem bombeiros, defesa civil, ambulância, polícia, exército, cachorros farejadores, helicópteros, máquinas, caminhões e mais caminhões, reportagem, curiosos. Muitos sons, uns cheiros, vertigem. Bipes e sirenes de toda sorte.
Choros convulsos, pernas bambas e braços fortes.
E procura por vivos. E procura por mortos. Querem ver os corpos, enterrar seus amores. E se falta quem faça se juntam pessoas e remexem na terra, puxa uma laje. Ali, logo ali vamos encontrá-la. E nada. E nada.
E a desaparecida? Poxa, vida... falecida. Meus sentimentos. Lamento.
A outra foi encontrada com vida! Mas sem o pai, a mãe e o irmão. Entubada, com terra no pulmão. Gritou na queda e foi encontrada muitos metros depois, sem roupas, meio enterrada.
Tem casa inteira onde não se pode entrar. Vai cair, vai desabar, vai ser esmagada por uma pedra, pela casa de cima, pela encosta desprotegida.
E entra e sai. Não, não cai. Não parece. Aposto que não. Um aperto no coração. E a chuva e o trovão. Sai. Sai. Sai. Correria, apreensão.
As minhas coisas. A minha vida. A minha história. Não!
Outro aspecto que eu super valorizava era o meu peso e aparência. Mulher bonita é a magra. Recentemente até vejo umas mulheres gordas e as acho bonitas. Provavelmente de roupas... meus olhos, semelhantemente aos seus, foram treinados a contemplar beleza em corpos magros.
E eu não conseguia fazer dieta. Mas queria muito ser magra. Então eu resolvi pular uma refeição. Foi a solução ideal pra mim. Chegava a noite e eu optava por dormir ao invés de comer, afinal dormindo eu não sentiria fome. O problema é que as vezes eu corria pra escola de manhã contando que comeria por lá. E ficava tonta... e tinha certo orgulho de que meu método era razoavelmente eficaz.
Também me interessava a bulimia, já que a anorexia me parecia distante da minha realidade. Quando soube da existência dessa prática ou, em outras palavras, dessa doença, achei muito promissor! Eu seguiria sentindo o sabor das coisas, comendo compulsivamente mas depois poria pra fora. Um breve desconforto e eu poderia manter momentos de prazer. Por um tempo fiquei receosa de isso se tornar mesmo uma questão pra mim. Passou.
E por toda a minha vida sempre que emagreci fui considerada mais bonita. Inclusive por mim mesma. Não importa se estou anêmica, se passo tontura, se ponderava vomitar a comida, eu me cuidava. Manter um peso adequado é coisa de mulher que se cuida. Nas fotos estou ótima.
Qual mulher? Talvez todas.
Se cuidar no universo feminino significa o quê?
Ho ho ho! Significa uma montagem em cima do que se é.
Ainda me lembro de eu, pequena pequena, dizendo a uma amiguinha ainda menor que eu que o melhor, mais certo e mais bonito era descolorir os pêlos do braço.
Naquele dia aproximou-se de mim uma mulher, bem mais velha e eu a considerava muito bonita, pra me mostrar seu braço de longos pêlos finos e pretos afirmando que era possível ser bonito sem descolorir. Nem sei qual a minha opinião na época sobre aquela estética, mas lembro bem da sensação desconfortável de ser desmentida. O que aconteceu foi que tive que reavaliar minha verdade. Nunca me disseram que o braço bonito era o de pêlos descoloridos. No entanto, quando eu ia à praia notava que a preocupação das mulheres que eu gostava era marca do biquíni e a descoloração dos pêlos. Talvez graças a esse evento eu abandonei logo a segunda prática, mas a primeira me acompanhou por longos anos. Eu achava linda a marca do biquíni, sexy. E eu não passava protetor solar a fim de tê-la. Podia ser vermelha, efêmera, mas eu cavava a marquinha do biquíni o mais que pudesse.
Também já passei muitas situações desagradáveis por causa de depilação. Porque, você sabe, ne? Mulher bonita, que se cuida, é depilada.
E aí você junta: depilação com água oxigenada (é o que se usa pra descolorir os pêlos). Arde. O sol da marca do biquíni na minha cara eu detestava. Mas sim, eu era puro elogio quando voltava marcada de sol, com pêlos descoloridos. Os carniceiros pela rua uivavam ao me ver passar. E eu me sentia bela.
Oi, oi, bom dia! Ou nem será bom nem será dia? Que cansativo... pelo menos já é noite? Descanse ou cante. Veja o que lhe convém. Esqueça também. De mim? Sim... fazer o quê? Agora só importa você. E ficarei ali, esperando, mais um encontro que teremos. Oremos.
Silêncio! Ou pensa que não preciso de um tempo? Lamento. Cá estou já escrita. Segue, leia, meus intervalos já foram dados. Entre um colo, um dia, um cansaço, eu vim tecer nossos retalhos. Quem sabe construímos um templo com eles? No altar colocaremos uma foto nossa. E em nosso ritual ofereceremos nossos desencontros e venerações, serviremos uma mesa farta de água, pedras e dos frutos que plantamos. Hoje já nos alimentam. O espelho que vejo em seus olhos também está aqui registrado. E as músicas que compus estão cheias dos seus abraços. Enquanto as faltas que nos permeiam abriram espaço para distanciamentos ou criações.
E desejando ser amada e ao mesmo tempo amando amar te digo: não siga se não quiser. Basta o templo construído. Pode vir comigo. Você faz parte de mim. E pode ficar também, tenho aprendido a caminhar só.
O mundo secreto das mentes engana inocentes. Acreditam que muito são, muito sabem e não entendem nada. Por que ele grita? Por que não fala? Há quem responda. Não creio, desvio. Sinto arrepio, um pouco de nervoso, um carinho sem alvo certo. Não sei nem se estou ali pra ele, se sabe meu nome, se significo alguma coisa. Curiosidade de saber seu universo de criança, suas vontades nas músicas que escolhe, no olhar que se acha e se perde, que tanto entende mas nem sempre retorna. O grunhido que os pais diferenciam se é de alegria, angústia, chateação.
Que será que lhe aconteceu? Será uma escolha subjetiva? Serão os remédios? Foi a zika? Que faz esse menino tão querido tão distante do meu normal? Serei eu pra ele também meio esquisita? Eu e as minhas inserções e concepções. Eu e ele: tão livres e prisioneiros de nós mesmos. Sorte a minha que escrevo. Ele urra. Sorte a dele que urra. Eu escrevo.
Me pego ponderando o carpe diem, as múltiplas possibilidades que se apresentam andando sempre pra frente desapegada de lugares, pessoas, coisas e confortos. O que me impede de constituir outro modo de viver ou o quanto a minha realidade é escolhida dia após dia. O preço do medo que anula a minha liberdade. O quanto de violência eu viveria pela liberdade escolhida... e, finalmente, o meu compromisso com os que contam comigo, que de forma mais visceral são os meus filhos.
Hoje realmente me sinto enredada na minha responsabilidade com esses seres. E mais que isso: eu os amo tanto que jamais abandonaria o meu trabalho pela metade. Esse esculpir junto deles as pessoas que se tornarão... e também a sensação de que o desamparo é um rombo. Eu me interesso por eles mesmo, de corpo e alma. Essa fantasia do largar tudo sem destino certo é na verdade uma necessidade de tomar ar, ter outros viveres. E também ensaia meu vôo que ainda não dei, e que as vezes me larece sem referências, sem segurança. Um passo para a liberdade e para o perigo. Poderei voar ou cair. E será preciso me arriscar um pouco. Não em direção ao nada, mas em direção ao reino que construí pra mim. Não um devaneio, um saber.
Um universo de engrenagens, sistemas correlacionados e de difícil percepção. Uma parte dessa incógnita mora logo aqui: quando faço meus exames fico ansiosa para saber o que dizem de mim. E dizem da minha alimentação ou de características próprias da minha pessoa, como minha quase anemia natural, e também se órgãos funcionam como se espera deles.
A finitude certa e os problemas de saúde que já se apresentaram em mim me fizeram observar que, para muito além do meu saber e do meu sentir, minhas engrenagens escondem de mim seus segredos e, pifem rápidas ou lentas, pouco sei sobre seu funcionamento. Outro dia me contaram duas incursões por médicos: a moça com pólipo no útero, antes dos exames ouviu do médico que era gorda e por isso o sangramento aumentado, já o senhor, que aguardasse com seu câncer de próstata para decisão terapêutica adequada. Com medo procurou outro profissional que logo extraiu o tumor dizendo o quão agressivo ele era... e, nada fosse feito, a moça seguiria sangrando por ser gorda e ele seguiria sendo tomado por um tumor agressivo aguardando que se decidissem caminhos. E o que eles próprios sabiam de si? Nada. E os médicos? De posse dos exames faziam apostas...
E se no meu funcionamento desconheço causas, efeitos, vicissitudes do meu corpo até que ele dê sinais de avaria ou ainda, que mesmo em pleno funcionamento preciso observar concentrada meus sentimentos, minha respiração, minha fome, sede, gula, vontade de fazer xixi... vou sendo tomada por esse corpo cujo funcionamento ppuco acesso.
E fora de mim? As engrenagens que nos une, que move nosso planeta num universo, que mobiliza as decisões animais e a força vegetal... cadê os exames para que possamos vislumbrar essa dança?
Até quando meu corpo vai optar por manter sua regularidade? Meu pai se foi já faz 12 anos. Meu avô tem 96 anos, em breve 97. Está vencendo a Covid19 nesse exato momento. Minha tia morreu aos 52. Nossos corpos imprimem limites.
Na intimidade com meu corpo dou a ele minhas sobras, meus excessos e minhas faltas. Dou a ele marcas, alimento feridas. Cuido dos ouvidos e da boca com mais cuidado, as palavras e a água são bem observadas. As vezes sinto pontadas, coceira nas costas, cutículas incômodas. Prisão de ventre fez algumas histórias, e muitas infecções urinárias curadas com água em excesso. Cabelos foram alisados muitas vezes, mas de forma permanente apenas uma. Ainda bem jovem priorizava dinheiro para coisas que considerava mais úteis. Unhas pintadas muito raramente. Incovenientes pêlos nascidos no queixo são retirados. Nunca me depilei permanentemente por pena de matar minhas própria células, vai que elas respondem iradas. E sobrancelha grossa e buço marcado são lamentos na minha imagem. Luto contra uma postura curvada. Há risada com gengiva aparente, mas pior que a imagem eram os deboches de imitação de seu som, sentia-me oprimida.
E muitos poderiam ser os relatos referentes à minha existência num corpo. Mas quanto mais escabroso fica, mais penso em recuar. Vai que alguém lê... e lendo-me descobre mais do que posso dar ou descobre de mim coisas que ainda não descobri. Então o sono é um ótimo álibi nesse momento. Meu corpo pede cama. Amanhã eu precisarei acordar e meus olhos quererão se manter fechados. E minha mente seguirá precisando de um reset, o que já há bastante tempo ocorre de forma parcial. Que dirá meu corpo sobre isso? Acostumou? Faz parte da maternidade? Ou me cobrará as horas não dormidas com multa e juros logo mais?
Vim escrever uma coisa nova. Pensei no dia cheio de atividades, tantas singelezas para relatar e... pouco de mim pra dar. Fui mãe a maior parte do dia. Não que ser mãe não seja eu. Sou muito mãe. Mas ser mãe é ser num outro, por um outro. Do meu jeitinho único de ser a mãe que sou. Mas é num se dar tão intenso que minhas questões são secundárias, meus desejos têm pouco lugar.
Onde mais me vi hoje foi na minha sensação de vergonha do corpo. Ela ainda é muito presente. Hoje simplesmente assumo que o corpo que tenho é esse e que não me interessa os que não puderem conviver comigo como sou. Ainda mais corpo... a parte menos importante do que sou.
Apesar disso, me sentia na boca do povo. Indiscreta, motivo de assunto ou até de chacota. E, como confio pouco nos humanos que me cercam, não creio que comentassem como meus filhos pulavam felizes no meu colo ou como eu descontraía meu mais novo com brincadeiras para ele não ficar focado na água tão fria... ou como estávamos unidos fazendo um lanchinho saudável. Se falassem seria do que em mim destoava. Uma pena, mas é assim que somos. Tento não sê-lo.
No mais, pouco pude respirar com atenção. Toda a atenção é para fazer valer a pena, é pela proteção dos pequenos na água, nas pedras, na trilha. É ser apoio, indicar caminho, levantar do tombo. É incentivar experiências, mostrar a eles que ali se passa uma parte da nossa história e ensinar a preservação do espaço e os valores que cultivamos. Olhar a horta, as borboletas, as diferentes plantas e o movimento das águas. E vivendo com eles a gente também está ali, tão presente. Mas nesse se dar a gente revive o passado e constrói com eles um presente, um presente muito mais deles do que nosso. Ou não exatamente isso. A questão é que muito do que somos fica em segundo plano. Nosso presente é sermos os pais.
Chega cada vez mais o momento de me lançar. A sensação do tempo escoando e do serviço a fazer angustia um tanto. Sempre o medo de não-ser ou da incompetência estão massacrantes sobre mim. E, conforme o tempo passa, vem ficando uma pergunta que me fiz: menina! Mulher! Seja pouco ou seja muito, seja! Pois o tempo há de findar e sua chance de ser está indo...
Hoje meu filho pediu a definição de "incompetência". A resposta me arrepiou a espinha, certa das minhas. E, ainda que eu saiba que incompetentes somos todos, não consigo ainda agarrar-me às competências. Certa de que as tenho desconfio dos que as vejam.
Em breve farei entregas de partes de mim. Sentindo de antemão que não quererão me ver... saberei os retornos brevemente. E ainda que haja nenhum retorno precisarei saber o que fazer. Insistir para descobrir onde vou ser? Oh dureza de existir...