sábado, 28 de dezembro de 2024

Perseidas ventaniadas 2024

Faz a pose de que vai pegar a lua!

Eu faço, faço sim

Era noite de chuva de meteoros

Não perco mais. Eu ia! 

Tem quem não perca mais:

Éramos 4 adultos e 3 crianças 

A chegada foi triunfal

Um pôr do sol por entre nuvens

O belo tão acessível 

Mar de nuvens coloridas 

Tons pastéis, aquarela viva

Embevecidos vamos chegando 

Libera o peso

Escolhe o lugar menos desconfortável 

Monta a barraca, arruma as coisas

O melhor lanche do mundo

Um vento frio que nos faz esquecer que é quase verão 

Agasalha as crianças 

Deita na pedra

Respira

Piquenique farto

Energia boa

Passou ali uma fraquinha

Uau! Você viu? Aquela foi grande.

Mas estava devagar

O céu claro pela lua cheia

E com nebulosidades

Mais aberto, mais fechado, olha que lindo!

Vamos dormir? Já é tarde, no meio da madrugada a gente volta!

Volta nada, um vento danado 

Pouca visibilidade 

Curtimos a noite difícil quentinhos na barraca 

Será que a barraca resiste?

Dormimos mal

Rimos do desconforto

O sol nascente estava esplêndido 

O vento era tanto que atrapalhava a guardar as coisas

Guardamos e, pesados, descemos 

Um vento que quase nos levava

Impossível de explicar

Só vivendo na pele

E todos atentos e fortes

Temendo e respeitando

Chegamos cansados

Eu estava descabelada

Mas com beleza nos olhos

Aprendi a olhar que aqueles cabelos

Não são tão apresentáveis 

Daquele jeito não são belos

Mas é essa uma das minhas melhores verdades

Mesmo preso

Uma verdade presa?

Aparece beleza no meu não aceitável 

Eu que tenho tantos inaceitáveis 

Vou tentar pegar a lua!

E observar as estrelas que caem

Sentir o vento que balança a casa

Balançar no vento, me leva!

Não leva não! Me ancoro

Base forte perto do abismo

Me alegro e me salvo

E depois nos vemos

Nos rimos

Há um caminho possível 

Apesar dos impossíveis 

Com tropeços, com riscos

E com belezas mesmo nos embaraços 

Nos arrepios do cabelo e da alma

Estou viva, com beleza no olhar

E tenho uma cama para descansar.

Caminhos divergentes

Um cheiro bom
Um bolo saindo
Um desejo de bolo
Um bolo no prato 
Um gosto esperado

Um encontro bom
Um encontro que vai acontecer
Um encontro muito esperado
O encontro é hoje
Não sei bem o que vai dar

O bom encontro é o que esconde o fosso
No bom encontro o fosso do outro é longe do nosso
O encontro bom tem concordâncias 
E discordâncias que não nos ofendem
No bom encontro há mistério e surpresa 

Nos desencontros as feridas são reabertas
Nosso valor é posto em xeque 
As dúvidas de quem sou emergem
E o que se faz com isso?

Nos bons encontros feridas são cuidadas
Algumas dúvidas são respondidas
As palavras trazem conforto e entendimento
Sorrisos se abrem, declaramos afetos

Quando a diferença do outro desqualifica a nossa diferença 
Ou quando no ideal do outro o nosso possível não foi o bastante 
Parece que a relação vai escorrendo entre os dedos
As vezes falta um olhar, uma palavra, um silêncio, escuta 
Abismo entre eu e você, que se faz com isso
Apesar dos afetos ...?

Quando o que é pra mim um grande valor
Em você é uma grande falta
E o que você tem como conquista
Eu penso que não vale nada

Como conseguir valorizar o outro apesar das apostas em direções tão distintas?
Como conseguir saber  ouvir os valores e conquistas do outro pra além das próprias questões e das ambivalências que nos ocupam? Sem que a inveja atrapalhe ou entendendo que não dá pra ter todas as escolhas. Fazemos um caminho. Cada um o seu. Vivemos um misto entre honrar o caminho escolhido e lamentar os caminhos que não percorremos? 






quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Trágico

Uma folha em sua árvore resiste
Ao vento, ao sol, à chuva
E cai
Umas mais velhas, outras mais novas
Dependendo da folha 
Dos bichinhos que a ocuparam
Da severidade das intempéries 
Mas ela cai

Um ser humano vive sua vida
E ele nasce imaturo, muito cru
É ensinado mais ou menos 
Pelos seus responsáveis 
Pelo seu meio, instituições
O salvam mais ou menos dos perigos 
Mais ou menos...
E, se tudo der certo, ele se tornará um adulto
Responsável por si mesmo
Terá aprendido uma série de coisas
E outras tantas seguirá aprendendo 
Algumas não conseguirá mesmo após uma vida longa
Temos limitações 

As limitações que temos são evidentes
Todos temos apesar de não querermos ver
E há vezes em que tocamos o trágico 
O trágico muitas vezes cola no azar
Escorre pelas nossas mãos e acontece 
E depois vivamos com isso
Quantos de nós não viveu o trágico por falta de azar?

O trágico do outro é sempre fácil de julgar 
Nós que tentamos ser os peritos da vida 
Que aprendemos a definir o que gostamos ou não 
Que pensamos ter um certo controle
O controle sempre parcial
Ter todo controle adoece
Não ter o controle é um perigo 

Uma pequena distração e podemos ser atropelados
Uma pequena distração e tropeçamos e quebramos um osso
Uma pequena distração e, ops! Vem uma criança 
Uma pequena distração e lá se vai um casamento
Uma pequena distração e reprovamos o ano
Uma pequena distração e sofremos um abuso
Uma pequena distração e cometemos um abuso
Uma pequena distração e fomos levados por uma onda 
Uma pequena distração e não percebemos uma doença 
Uma pequena distração e erramos um diagnóstico 
Uma pequena distração e perdemos uma parte do corpo, ou tiramos de outra pessoa
Uma pequena distração e tomamos uma decisão da qual nos arrependemos por uma vida

Coisas acontecem

Coisas acontecem.

E escorrem pelas nossas mãos 

Nos fazem pessoas mais vividas

Que as vezes ficam mais experientes, as vezes mais petulantes, as vezes mais entristecidas

Coisas acontecem.

E aprendemos a viver com elas e apesar delas 
Alguns aprendem com isso
Outros não 
E alguns carregam a culpa 
Pesada culpa
Insuportável 

Culpa que não transforma
Que não engrandece ninguém 
Que não cura

O limite do erro da vida é a morte 
A culpa nos faz morto em vida
Pois paralisa
E diante da morte e do horror
Ao invés de superarmos, aprendermos e assumirmos
Ficamos ali, estatelados, olhando pra morte
Oh, a morte dançando comigo
A morte escorrendo pelas minhas mãos 
Eu que sou vida e sou morte
A morte que é tão forte diante da vida 
No fim ela sempre vence

E, honradamente, se assumo que o meu melhor foi pouco
Mas foi o que pude dar
Se assumo que o trágico tangencia minha existência 
Que tem sua sujeira, sua praga
Com as quais pouco soube fazer
Quem sabe possa tentar de novo
E dar a mim mesma nova chance
De, diante do esfacelamento, criar
Fazendo contorno ao impossível da vida
E à morte que em mim habita

É Natal!

Um dia de comilanças e encontros
De fazer farra e dar risadas
Celebração do nascimento do filho de deus
E de ganhar muitos presentes de um homem barbudo que mora na neve

Aqui está calor, nunca vi neve
E a grana pros presentes não é farta
Não acredito num deus
As chances de briga são tantas que as risadas podem chegar atrasadas 
E teremos mesmo muitas comilanças - que exigem uma dedicação enorme, uma casa para ajeitar... - e encontros também marcados por desencontros.

Que fazemos quando temos nossa mesa farta e finalmente nos vemos?

Lembro-me, nostálgica, da minha tia tão viva e atarefada, 
do Sr Orlando contando suas histórias, risonho,
do meu pai, cansado daquilo tudo, pacientemente acompanhando nossos momentos,
da minha outra tia feliz, com uma vida estruturada, e nossas conversas carinhosas,
do meu avô tão forte e saudável... 
dos jogos entre adultos e amigo-oculto tão engraçado
e dos melhores presentes que eu poderia ganhar, do lugar de princesa que eu ocupava
Meus quereres tão relevantes.
E as familias se juntavam
Quanta gente!

E hoje sei que esse universo não existe mais. Pessoas estão ausentes. Situações que aconteceram. Meus pequenos não tiveram essa chance. E sobra a família cindida, com um dia para cada lado. A exigência de um feliz natal que ajuda a esse natal não ser assim tão feliz. 
Ainda que eu não acredite num deus, esse ideal de amor, de perdão e tolerância é muito atraente.
Mas esbarramos sempre naquela questão do bem. O bem! Que é um pra cada um. E o que se dá não é o que se quer. E faltam reconhecimentos. O que se queria não chegou. Há marcas da falta da vida. Irremediável. E uma dificuldade entre saber os limites da tolerância e do abuso do outro. Quem cede? Fica entre a falta de tolerância e da inflexibilidade do outro. Aparece o quanto não somos lógicos e, nas expansões de cada universo, é mais fácil pisar no calo do outro do que parece...
No meu natal perfeito eu teria quem me olha, me escuta, a quem olho e escuto. Ouvimos músicas. Mostro as minhas, conheço as suas. Preparamos juntos os pratos, nem tantos nem tão poucos. Alternamos trabalho e descanso. E o Natal vai acontecendo num espaço afetivo seguro, onde pensamos o mundo e planejamos pequenas ações para que ele seja melhor. Afinal, não reconheço um filho de Deus. E mesmo sua mensagem é tão atravessada. Mas o esforço de que sejamos melhores a cada ano é muito válido. Não em nome de um homem que morre crucificado para nos salvar numa ode ao sofrimento e à culpa, mas em nome das nossas próprias cruzes e da nossa humanidade, das incoerências e multiplicidades! Que as expectativas de alegria, amor e bem sejam reduzidas e nós nos olhemos com afeto hoje e sempre.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Frustração

O que é aquilo que se perde?
A gente vive a perder
E quando algo acontece
É preciso pagar pra ver
Pagar com nossa alma
Pagar com nosso dinheiro 
Pagar remediando a falta

A gente perde os dentes, o cocô, uma aposta
Aprende a dar tchau com certo lamento
Perdi minha vesícula há alguns anos
Achei que perderia a vida 
E aqui estou 
Perdi meu pai
Tive vontade de ir com ele
E aqui estou
Perdi o ingresso na residência 
E aqui estou
São tantas as perdas que é difícil elencar as mais significativas 
Também perdi quando o cão me mordeu
Já descobri o quê?
Hoje perdi uma fatia de um sonho
E olho pro meu lugar no mundo
Eu, tão cantante, num mundo ruidoso
Ou diante de tanto silêncio 

Procurei os olhos certos
Os tais que venero
E eles estavam fechados
Talvez estivessem meditando ou dormindo
Talvez estivessem olhando pra outros lados
E me faltou minha imagem naqueles olhos 
Fiquei apenas com a minha própria imagem
Aquela que me traduz mais pobre
Que diz que não valeu a pena
E me bateu uma tristeza
Há uns tempos seria um espancamento
Hoje dialogo: oi, tristeza! Que faz você por aqui?
Contingências acontecem... É chato pagar por isso.
Sua presença ocupa muitas ausências, eu sei...
E hoje dou as mãos a ela, que me acolhe
Para amanhã dar vez a novos sentimentos.


sábado, 16 de novembro de 2024

Amizades

Vem chegando uma data 
Que balança o meu coração 
Esse dia que não vale nada
Mas curto essa ilusão 
E a reunião para que me vejam
Que seja ao menos nesse dia 
Façamos uma comemoração!

Quero esses olhos para olhar
A esperança que tenho na amizade
Uma chance de aprofundar 
Um pouco da nossa verdade

E o degradê daquilo que valorizo
As multiplicidades das relações 
Os possíveis que construímos 
As palavras, olhares, emoções 
Estarão comigo nessa data
Os apresento, os alimento, os venero
Amigos para quem abro minha casa 
Minhas bagunças e meus possíveis 
Minha alma íntegra em suas partes
Dadas, lapidadas, (des)valorizadas
E espero que de alguma forma
Creditem valor aos pedaços do que sou

Que eu renasça nessa 38° chance
E que supere meus desconfortos
Arrisque mais ser quem sou
E encontre mais forças na minha jornada
Que sejamos esteio nessa estrada
Uns dos outros, façamos rede, união 
E se um dia eu tiver um lugar 
Certamente lá vocês estarão.





Neurose?

Quando uma pessoa adentra nossa casa 
Entra na nossa vida 
Em particularidades, intimidades
E quando essa entrada é para um serviço 
Ela continua entrando em nós 
Sabendo de nós muito além do que saberia.

E quem recebe?
Recebe uma pessoa
Com suas histórias, com seu modo de ser
Que passa o dia nesse universo outro
Totalmente adverso das suas vivências 
Da sua própria casa

E ela nos dá o que tem
Seu ser, seu corpo, suas palavras, sua força de trabalho e de existir 
As vezes uma hostilidade
Natural do fosso entre os seres e as realidades
Que coexistem a partir de um contrato financeiro

Tenho uma amiga que sublima a hostilidade
É um doce, tem uma entrega linda
E outro dia caiu um ímã da patroa em sua bolsa
Nunca sumiu nada - antes que o leitor identificado ao patrão desconfie
Mas sumiu um ímã de marcar as emoções 
Quadrinho da criança da casa
E estava na mochila dela
Achou, devolveu, poderia estar tudo certo
Sintomas: insônia, ansiedade
Vida que pára, o que eu faço? Como me vêem?
Poderíamos apenas dizer que é neurose dela
Ora bolas! Se ela sabe que não fez nada...
Mas como ocupar esse lugar?
De estar na casa do outro sem intimidade 
Sem que o outro saiba quem sou, minha verdade
Ocupando o lugar de quem quebra, quem rouba, quem perde 
Relação que já sai de um ponto de desconfiança 
De quem está lá por pouco, porque precisa
Que não é visto por uma troca justa mas por ser ajudado
Sendo que o injusto certamente é o valor pago 
Que não sustenta quando o corpo, gasto,
Precisa de remédios, médicos, descanso
Cuja realidade da qual se reclama
Se mantém também pela remuneração 
Que não permite que a pessoa
Mude também a própria realidade
Tendo a chance de ter um carro, se desejar
Passando a mais estudo, mais posses, mais proximidade 
Da casa na qual adentra pra trabalhar
Para poder fazer frente a essa relação desigual 
Mais segura de si e de seus direitos

Fique bem, minha querida!
É só mais uma linha torta na vida.



quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Contrapontos de um corpo

Mais uma vez o corpo...
Luto por assumi-lo
Por não desejar ter os cabelos que não tenho
Nem em formato nem em cores
E também o nariz, os seios, a barriga
Hoje a bunda, coxas, braços...
Caramba! 
Aproveito olhos 
Mas não as olheiras, que são partes significativas de mim 
Muito menos as sobrancelhas!
As orelhas, a boca, mãos e pés são ok.
As pernas também não 
Nem o formato e nem cuido delas
Vivem marcadas das feridas dos mosquitos
Eu tiro as casquinhas e aí... Tudo roxo, cheio de marquinhas. Já esteve melhor...
Mas como não uso sutiã com bojo e não aliso nem pinto os cabelos sabe que eu me sentia assumindo o corpo?
Ah! Também incluo nessa lista o fato de tirar a roupa na frente de qualquer pessoa a fim de usufruir de praia ou cachoeira 
É um trabalho mental exibir um corpo do qual não se orgulha e que foge aos padrões
Mas percebi, não faz muito tempo, como sou tola!
O quanto os cabelos precisam ter sido penteados
O quanto é sem bojo mas é com sutiã 
O quanto exibo o corpo se for preciso, mas escolho uma calcinha alta, 
No dia a dia nunca uso blusas curtas
Vejo se a roupa me cai bem ou mal
A roupa que mostra mais ou menos o corpo que tenho
E aprendemos assim: esse está ruim porque está marcando 
Disfarço,
Apesar de ser impossível,
O corpo que tenho, que busco abraçar
Do qual tenho certa vergonha
Ou mesmo desconfiança 
Que adoeceria sem me dizer nada
Que tiro pedaços se eles forem me matar
Que acontece lá dentro uma dança da qual sei pouco 
E que é eu também 
Outro dia estive numa viagem com um monte de pais da turma do meu filho
Depois de um dia inteiro sem ir ao banheiro, apareceu a vontade
Ponderei se segurava outro dia inteiro e optei por usar o banheiro - viva eu!
E quando fui evacuar estava com a maior prisão de ventre 
Não sei quando informei meu corpo sobre meu desconforto
Não sei como
Mas ele soube bem
E respondeu de forma bem equivocada
Porque é bem verdade que eu não queria ir ao banheiro naquela circunstância 
Mas igual eu aceito o cabelo e vou a praia
Se dá vontade, eu tento cagar
E se tá tudo preso é um desserviço 
Ele tinha era que ajudar!
E a relação com o alimento?
Que desgraça!
Se ele precisa de bons alimentos certamente não me conta
Pelo contrário!
Os pensamentos, a ansiedade, os venenos que já experimentei 
Tudo isso me leva para gostosuras 
Que não nutrem o corpo - é o que dizem!
Que me deixam com imagem ainda pior de mim
Meu corpo nunca pede: coma salada!
Se pede, nunca ouvi...
E se a salada estiver cheia de agrotóxicos também não informa
Os resultados são vistos de fora pra dentro
Ou sob forma de dor, em geral sem aviso prévio 
Então, como se vê decerto,
Vivemos um descompasso eu e ele
E vivemos assim, juntinhos e com intenso convívio 
As partes que gosto menos não são inaceitáveis
São ok e aliás muito me servem
Mas a verdade é que sou uma montagem de mim
Me preocupo com minha imagem
Sou extremamente atravessada pelo social e pelo olhar do outro...
E fico sonhando com uma relação mais amorosa comigo
Onde eu me alimentaria melhor 
Teria uma imagem que admiro mais
Compreenderia melhor minhas próprias mensagens
E viveria melhor comigo mesma



segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Uma boa visita

Quase não nos vemos
Mas recebi hoje sua visita
Estranho em mim uma alegria
Diante da relação distante que temos

Não entendo por que me visita
E também não sei bem por que convido 
Contatos parcos, na superfície 
Pouco trocamos sobre a vida

Quando te vejo há um pouco dele
E você em mim também o vê 
Estaremos juntos em sua memória?
Estaremos juntos por uma lembrança?

Sou grata a você...
Por ter me recebido quando precisei 
Por ter sido você mesmo em sua família 
Por ter me levado, me buscado...
Na sua casa aprendi muito
Sobre outros universos
Outras formas de ser
Vi seus filhos maduros, ainda jovens 
Vi sua postura na vida
Conversamos e trocamos algumas vezes
Na sua casa fazia a principal refeição do dia
E te falei de temas difíceis 
Ouvi sua forma de ver
Queria saber meu lugar pra você 

Nunca saberei

Mas te convidei 
Você veio 
Trouxe presentes tão bacanas
E conversou com meus pequenos
Esse seu sorriso, esse seu jeito bonachão 
Nao sei bem o que somos
Será que cabe o meio-irmão?





segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Aventura

 Dizem que gosto de aventura. Eu gosto... aventura é estar vivo! Como não vislumbro o meu não-vivo, me aventuro. E menos do que queria. Há anos gostaria de ousar mais, rindo mais das idiossincrasias, não qualquer ousadia... E, ainda me preparando, fui curtindo outras aventuras:

Aventuro-me a atravessar ruas, apesar das velocidades e riscos inerentes, das cabeças ao vento,

Aventuro-me a manter um casamento, com seus bônus e ônus, investindo em relacionamento, construção, insistindo num necessário fantasiar,

Aventuro-me a criar filhos, às vezes quero desistir, às vezes insistir, às vezes modificar, e sigo entre flores e espinhos, num eterno semear cheio de fé,

Aventuro-me a ter bons amigos, sempre, para sempre, cultivar os laços apesar das distâncias, uma entrega da qual me orgulho e que sempre desejo e sempre falta,

Aventuro-me a ser psicanalista, a ouvir impossíveis, a encontrar subjetividades. Quero me aventurar mais, busco as incertezas onde mentiras sinceras me interessam,

E, por fim e não somente, me aventuro pelas montanhas. São, das aventuras, as menos aventureiras. Mais garantidas, mais certeiras, quase não me arrisco. Experiência que me dá vontade de voltar. As dificuldades vividas me mostraram que a superação é dentro de mim. A montanha ajuda. A montanha mostra. A montanha alimenta. A sede de seguir nos meus investimentos, as ponderações dos caminhos, do meu lugar. A certeza de um fim e da fração do planeta que ocupamos. Apenas ocupamos. Buscando a serenidade para  continuar e o vislumbre do não-ser. Se não for um vivo-morto, a aventura mesmo é viver. 22 de maio de 2024

domingo, 29 de setembro de 2024

Cantando de novo

 Quando eu era bem pequena, algo entre 7 e 9 anos, morava de frente para um grande BNH. Com o olhar se hoje entendo que pros meus pais talvez fosse um certo desgosto, mas a verdade é que pra mim era interessantíssimo. Em algum momento das minhas brincadeiras eu entendi que ali estava o meu público. Era uma casa de dois andares e no sobrado havia uma grande varanda onde eu me punha a cantar em alt9 e bom som para todas aquelas pessoas. E cantava minhas músicas de criança. Por sorte, de todas as janelas havia pelo menos duas onde a luz ficava acesa e me aplaudiam. Eu não tinha acanhamento com aquele natural agradecimento. Cantava mais. Não me lembro bem como os meus shows noturnos tiveram fim... mas eu bem sei que segui gostando de cantar e até querendo ser cantora. 

Meu pai, coitado, se ele me incentivou de algum modo não me lembro. Só lembro do pior: ele reclamando de minha voz de taquara rachada. É... não sei o quanto minha queixa é justa. Hoje, adulta, estranho que meus pais não tenham coibido meus shows para a vizinhança. Também não me lembro de nenhum mal-amado que tenha se queixado. Ou simplesmente alguém que só tinha aquele pouco tempo para estudar para uma prova ou ouvir a sua novela e que não havia pedido ingressos pro meu show...

Enfim, o meu próximo passo musical foi a entrada no coral da Uerj, o Altivoz. Eu já admirava o trabalho deles pela minha cunhada ter participado, coral incrível, com pegada brasileira, com músicas exuberantes e sacadas inusitadas. Ali eu tinha bastante constrangimento. Cheguei nervosa, sem saber como me colocar. Fiz uma primeira experimentação de vocalize solo com o maestro. Foi um va-ô-vá no qual me senti péssima. Resultado: contralto. Já achei aquilo um mau sinal. As cantoras mais cantoras eram sopranos, isso eu sabia - não pensava nas Zelias Duncans ou nas Anas Carolinas... E eu queria aparecer! Pra piorar meu drama as contraltos em geral faziam a segunda voz e a verdade é que eu ficava completamente baratinada. Tinha uma senhora que cantava perto de mim e vivia com a mão tampando o ouvido do meu lado. Eu podia jurar que era pra que eu não a atrapalhasse. Depois relativizei e assumi que talvez fosse pra evitar o som que vinha das sopranos... fato é que com a minha rotina de estágios logo, logo eu perdi, mais uma vez, a minha chance de ser cantora.

Mas segui cantando mais. Reavivei um caderno de tive quando adolescente com letras de músicas. Naquela época era um caderno miúdo apenas com músicas do Cidade Negra. Agora teria de tudo e seria um caderno grande. Ele existe e eu o amo.

Tivemos um grupo chamado Sarau Itinerante. Eu cantava a capela. Cantava com amigos. Dedicava músicas. Era lindo. Hoje canto no coral da escola também.

Poucos sabem mas o nascimento do meu filho mais velho tem muito a ver com uma música que cantei para aplacar a dor de talvez estar gerando um bebê com microcefalia -tive zika na gestação. A música "Tempo Perdido" me trouxe todas as respostas que eu procurava dentro de mim numa tarde onde busquei abrigo na casa do meu amigo Diogo. Ele! Que cantou comigo numa madrugada em que não conseguíamos dormir, vivendo uma tempestade na montanha.

E hoje estou vindo contar que meu filho me pediu para repetir a noite de ontem, quando cantei apenas Gilberto Gil pra eles dormirem. A música dele tem umas letras complexas que eu não decorei e como, para eles adormecerem, canto de cor as músicas, acabo oferecendo pouco de Gilberto. Mas ontem abri as letras e hoje acabei repetindo o feito. Percebi que em algumas músicas eu me sentia insegura com o ritmo ou a métrica. Mas ia. Poucas eu não conhecia. Me ouço e acho bonito. Canto longo, canto cheio, canto de floreios. E termino essa rotina com eles preenchida da satisfação com esse cantar diário que é muito mais pra mim do que pra eles. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Falas num coletivo

Você já foi lá?

Isso é do seu interesse.

Vem cá. Aí está muito sol.

Aí vai ser um negócio de cultura.

É no próximo!

É... não dá pra ficar assim não.

O problema ali é enchente. Quando chega o verão varre tudo.

Lá em casa esfriou à beça.

O quê que é isso!? Está se achando o dono da rua!

Espera aí, motorista!

É isso: o negócio é ganhar dinheiro.

Ela me empurrou em cima do banco mas aí eu fui pra cima dela e o celular caiu no chão. Tá funcionando a internet, tá bom.

Olha, ela tá grandona!

Tá bom, até mais tarde! Beijos!

Foi ou não foi? Foi, né?

O pior é que eu só vou achar no centro.

A menina não vai pegar o ônibus, ela está brincando. Acho que foi ao médico.

Eles estão limpando.

Ela não tem jeito. É o jeito dela.

Acho que ele mora aqui no terminal.



domingo, 18 de agosto de 2024

Meu pai

 Quando meu pai faleceu eu o via por toda parte. E naquela fração de segundo eu tinha a esperança de encontrá-lo. Nos segundos seguintes eu ia me conscientizando que eu jamais o encontraria na rua. Nunca mais. Aquela ausência ia ficando cada vez mais evidente e insuportavelmente fatídica.

Fui deixando de ver meu pai pela rua com o passar do tempo, o que também me aliviava de um enorme sofrimento em constatar novamente sua morte. Assim como sonhar com ele vivo foi ficando menos comum. Era terrível acordar e me deparar com a realidade.

Ontem eu vi um amigo cujo rosto conheço bem e há muito anos. Olhando-o nos olhos de repente senti um pouco de algum traço do meu pai. Ainda não sei precisar qual... talvez a ternura com que me via... talvez algo no brilho dos olhos. Mas desconfio que sejam marcas da idade. Ele vem envelhecendo como todos nós e abaixo dos seus olhos está formando uma certa bolsa causada pela flacidez nessa pele. Fixei os olhos ali por um momento e meu pai esteve presente naqueles olhos. 

A saudade não me trouxe às lágrimas. De certa forma eu gostei de viver aquele momento. Eu não tive dúvidas de que, na verdade, não era meu pai. Eu não precisei relembrar que não poderia ser, da ausência do corpo. O que a experiência me trouxe foi o quanto meu pai está no meu olhar para as coisas. No meu mundo. E que posso ter sua presença em tanto do que eu sinto e vejo por aí. Ele vive em múltiplos fragmentos. Como numa pele que envelhece e se torna flácida junto ao olho, ou em formas paternais nos olhares. Em grandes barrigas duras masculinas. Na crítica que faço das tantas besteiras que escuto - crítica essa que também me silencia a fim de não ser tão tola. Na relação com meus filhos todos os dias. Enfim, poderia ir falando dos cabelos macios grisalhos, da voz - ah! Aquela voz... tomara que algum dia eu ouça algo assim que me lembre a voz dele com clareza... - o nariz parecido com o meu e as unhas dos pés de cascos de cavalo, de tanto traço, de tanto enlace, de tanta falta que ele faz.

domingo, 11 de agosto de 2024

Dia dos pais

Pouco me preparei para o dia de hoje
As homenagens ao pai dos meus filhos ainda passa bastante por mim
Lembrei a data, propus que eles preparassem alguma surpresa
Mas não insisti, não estruturei nada, não me pus a trabalhar
Quer dizer... sabia que o almoço do dia dos pais contava comigo
E trabalhei bastante planejando, comprando coisas, preparando pratos para todos
Fiz pensando no pai dos meus filhos um empadão de queijo com gorgonzola e almondegas de soja
Fiz pensando no pai do pai dos meus filhos um escondidinho de carne e um feijão com paio que ele adora
Lá pelas tantas me lembrei do buraco desse dia
Da vontade de poder disputar umas horinhas para dedicar ao meu pai também
De tudo que fiz, lembrei que os morangos com chocolate da sobremesa poderiam agradar ao meu velho se fossem com creme
No final do segundo tempo fiz o creme
E pensei que oferecia a ele uma sobremesa de restaurante
Dos deuses, que ele lamberia os beiços
Que pediria: "morangos com creme" e seriam servidos
Se ninguém mais quisesse, eu comeria sozinha os morangos com creme
Fiquei satisfeita em acreditar que quem comeria seria o meu pai que habita em mim
Estavam gostosos
Mas se eu for falar a verdade
Se eu pudesse tocá-la
Eu contaria o quanto ainda dói
E dói estranho...
Porque na última semana eu fui prática
Consegui tocar a vida como se não fosse passar um dia dos pais - mais um - sem o meu
E sem chorar sua ausência, minhas saudades...
Sem contar histórias tortas a fim de dar aos meus filhos a dimensão de quem ele foi
Mesmo sabendo que nada que eu diga trará a consistência daquele corpo
E que depois de tantos anos uma boa parte de quem ele é foi criada por mim
Que não tenho a figura real para contrastar com a imagem que faço dele
Queria terminar essa noite vendo as estrelas cadentes
Hoje é o ápice da chuva de meteoros perseidas
Conhecidas como lágrimas de Sao Lourenço
Eu e as estrelas-lágrimas
Num dia dos pais a mais


terça-feira, 6 de agosto de 2024

Minha casa bagunçada 2

Esse assunto da casa realmente me ocupa
Certamente uma solução é ter a "secretária"
Secretária é o nome que alguns dão para empregada doméstica
Ajudante, outros dizem... faxineira
Não me vejo aderindo a esse serviço
Nunca vi essa relação com bons olhos
Talvez se fosse muito bem pago, serviria
Mas aí eu não posso pagar
É uma relação muito desigual
Sei que pensam que é apenas uma relação de trabalho
Não é fácil para mim não
Receber na minha casa para resolver as minhas coisas
Alguém em cuja casa não entro
Que limpará e cuidará de coisas que não são suas
Das quais desconhece valores e histórias
Observando as escolhas subjetivas que me causam minha bagunça
Julgando - quem nunca? - minha vida
Percebendo nossas idiossincrasias
Sem fazer parte 
Sem ser convidada senão para arrumar e limpar tudo do nosso jeito
Sem desejar se sentar junto à mesa
Sem ser prioridade na divisão apertada do finalzinho do feijão
Vivendo, aprendendo, percebendo
Aqui, presente sem alma
E se ficarmos amigas possivelmente sentirei vontade de pagar para que não venha
Vai viver sua vida
Curta, aproveite!
Cuida do seu corpo, surrado de trabalho pesado
Vai fazer a fisioterapia, cuidar da hérnia, fazer caminhada
Tenha uma tarde de qualidade com seu filho
... com o seu filho...
Vendo como trato os meus
Vendo o lugar que eles têm
Sentirá alegria? Raiva?
Não saberei...
E melhor não saber muitas vezes
Ela vem é pra arrumar e limpar
E só
Não pensa, não sente, não é gente
E eu não quero ninguém assim na minha casa
Eu queria era uma aldeia
Onde vivemos de apoio mútuo
Cozinhamos, arrumamos, cuidamos
E o que temos é cada um por si 
Espero que a casa esteja a contento para receber vocês
Com o que eu puder dar
Arrumo a casa um tanto
E vivo também
Mais vivo que arrumo a casa
E quem vier me ajudar que seja por afeto
Com alma pra dar


Minha casa bagunçada

Minha casa me incomoda
Não a casa em si
Que as vezes também me incomoda
Mas sim as coisas na casa
As coisas que se acomodam em todos os móveis
Que se mudam e retornam
Nunca melhoram
As coisas com as quais me acostumo
Coisas feias, amontoadas
Que contam histórias de exaustão e desamparo
E também de sonhos, de lembranças, das quais não quero me desfazer
Vai que preciso delas...
Vai que me vou pro lixo junto com elas...
Arrumo, sobrevivo, funcionamos
Tem roupas lavadas
Tem comida todos os dias
Tem onde servir a comida
E compramos frutas, legumes e tudo o mais
Tem armários as vezes lotados
As vezes ociosos
Do tanto que mora fora deles
Lixo a beça, sempre há o que não foi
E roupas jogadas pelo chão e pelos cantos
Um desânimo e tanto
Mas mesmo no meio do caos
Se me convidam a ver o verde das matas
Ou sorrisos sobre uma bicicleta
Simplesmente vou.
Se o amiguinho quiser vir brincar e tiver um cantinho pra sentar
Eu digo: vem!
Se alguém me chama pra cantar
Se podemos ir ver alguém
Lá vamos nós, vou esperar a casa ficar boa?
E vamos sendo felizes nesse viver
Mas quando vejo a casa e seu estado
Que desgosto, que chato
Precisamos te dar um trato
Mas não é por falta de tentativas
Passam os dias de aula
Aposto que vamos resolver nas férias
E passam os dias de férias
Voltam as esperanças nos dias com aulas
Porque mesmo com um fazer constante
Tem as coisas que precisam ser repostas
E refeitas
São várias refeições no dia, a roupa que torna a sujar, que precisa ser guardada
Ainda que só façamos às vezes
E fica uma sensação ruim
De que isso nunca tem fim

segunda-feira, 29 de julho de 2024

8M

A mulher não existe, dizem uns por aí.
Essa mulher que não existe é A Mulher, ser total. Diferente do homem com H maiúsculo, que cada vez mais mulheres dizem que não prestou... Coitados. Acreditaram nessa falácia da masculinidade.
Mas a mulher com M maiúsculo a gente vem procurando por aí. E não acontece mesmo. E até as próprias mulheres ficam ali ditando as faltas a ser mulher. Ainda me lembro, na minha análise, eu procurando a substância que me garantia o meu lugar feminino...
E hoje é o Dia da Mulher, que se acha e se perde reforçando o seu lugar. Existe, pede garantias, se empodera, luta pela vida. A sua e a de seus filhos. Povoa o mundo.
Mais um ano se passando. E a minha busca também é a delas. Alguns mesmos lamentos. Uma luta.
Nesse vir a ser, penso que eu queria ter...
a fé da minha mãe
o capricho da tia Neiva
a liberdade da tia Ivone
a organização da tia Sandra
a noção do próprio lugar da tia Clara
a elegância da avó Emília
a dedicação da sogra Natercia
a entrega profissional da cunhada Tatiana
a sensibilidade da cunhada Biah
a musicalidade da tia Bluettinha
a praticidade da Aline
a sensatez da Angelita
a autenticidade da Juliana a articulação da Janete
a força da Luciana
o companheirismo da Larissa
o comprometimento da Rosana
a disposição da Monika
a maternagem da Josi
a receptividade da Michelle
o humor da Patrícia
a persistência da Lyla
a segurança da Jaqueline
a disciplina da Bruna
o acolhimento da Rebecca
a inquietação da Camila
a cultura da Sônia
a sagacidade da Cristiane
a oratória da Denise
a clareza da Bianca
a sinceridade da Rosi
a gentileza da Sabrina
a ética da Ivana
a resiliência da Erediana
a alegria da Priscilla
o olhar da Maria
a delicadeza da Marianna
a firmeza da Carol
a serenidade da Lélia...
E tantas outras queridas eu poderia citar com suas características marcantes. E como que não cabe num ser toda essa potência e multiplicidade do feminino, busco meu caminho meio torto, meio lindo. A gente vai se descobrindo. Pensando o que fizeram de nós e conosco e o que queremos de nós no mundo. Tenho tirado umas fotos minhas. Só minhas.
08.03.2024

Cachoeira da Macumba

Quando eu era menor meu pai me levava nessa cachoeira. Sempre que estou aqui estou com ele. 

E, tambem por esse motivo, trouxe para conhecê-la muitos dos meus amigos, que -de algum modo- vivem minha infância, meu pai, inspirações. E hoje ela carrega em suas águas os sorrisos desses amigos, olhos fechados, meditativos, os corpos dos meus filhos e suas agitações por entre as pedras.

No grupo da escola de caminhada pelas montanhas viemos aqui algumas vezes. E como a caminhada é curta subimos mais e mais. Descobri como chegar na queda d'água -sempre sonhei- mais um pouco descobri a janela do céu e mais ainda uma fazenda de bela paisagem, outra cachoeira e bois soltos. Hoje fui ver seu véu mais cheio. Levamos conosco outros corações para compartilharmos vida. Rostinhos felizes sprayados dessa energia. 

Seguem as águas sem parar. Anos e anos. Seguem as pedras no mesmo lugar. E passamos por elas até passarmos nós. E ficarem elas.

29.03.2024

Uma flor entre pedras

Pedras sobre pedras
Formam escadas, vãos, paredes 
Montanha alta, bela, árida 
Poucas plantas, poucos pássaros 
Muito céu, secura, aspereza 
E num pequeno vão entre pedras 
Faz-se flor na natureza 
E me pergunto a cada passo 
Em que traço dali me enlaço 
O coração batendo forte 
O cansaço e um sinal da morte 
Ali meu corpo tão singelo
Tão frágil, estranhamente belo 
Batendo vento, sentindo o frio 
E seguindo em frente no meu vazio 
Como viver essa rede do humano? 
Num limiar entre a dependência e a independência 
Entre a autonomia e confiança em si 
E entrega ao outro, ao que o outro tem que eu não tenho 
Como ofertar esse saber adquirido? 
E receber também com confiança... 
Construir no mundo esperança 
No meu mundo Construir
Uma flor no meio das pedras áridas

25.07.2024

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Sem especialidade

 Venho querendo dizer ao mundo: sou psicanalista

Seria uma vitória e tanto conseguir subsistir disso que é a minha paixão

Algumas pessoas sabem que sou psicóloga e que quero trabalhar com isso. 

Outro dia, a fim de me ajudar, imagino, uma pessoa perguntou a respeito de eu ter uma especialidade

Fiquei assim tão encucada

É bem o problema da minha verdade

Não há em mim nada de muito especial. Nada a ser anunciado, vendido, ofertado. Talvez um pouco do meu vazio, do meu percurso. Coisas tão não palpáveis.

Ou, por outro viés, que assunto eu dominaria? Querem que eu saiba sobre TDAH e autismo, sobre transtornos mil: ansiedade, depressão e pânico.

E como é difícil para mim dizer que minha maior oferta é minha escuta, um lugar que fui aprendendo a ocupar, uma possibilidade de saber do outro a partir do meu não-saber... 

Como explicar que a formação em psicanálise se dá no caminhar da própria análise? Coisa que fiz com bastante seriedade. 

Resta cantar a música: "você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui"... e não fiz curso de transtorno. Não é o que eu faço. Não é parte do meu sentido de existência. Meu caminho é outro e eu não o fiz a fim de ganhar dinheiro. Eu quis ganhar a vida. A minha própria. Primeiro a gente coloca o oxigênio na gente mesmo, depois cuida de quem nos acompanha.

A verdade é que eu sou muito angustiada com o que eu farei nesse encontro com meus pacientes. Com tudo que não sei, inclusive. E, ao mesmo tempo, sigo investindo há anos em como "não saber" com mais qualidade, com mais capacidade de escuta a fim de poder acompanhar uma jornada absolutamente particular. 

E com tudo isso acho difícil divulgar o meu trabalho. Quero. Como faço?

Fiz uma página no Instagram. Ela poderia estar cheia de arte. Vou insistir, eu gosto. Mas falando em análise: o medo de dar errado é tão grande quanto o medo de dar certo. As lógicas não funcionam. É um transtorno só!


terça-feira, 25 de junho de 2024

Dívidas


Há dívidas muito pesadas
Que os bancos cobram
Perturbam
Nos vendem e lucram
E ficamos enforcados resolvendo contratos
Injustos, abusivos, mas assumidos
Apesar de todas as críticas sabemos
Mal ou bem
Suas taxas
Valores mensais
Prazo de extinção
Consequências de inadimplência

E os contratos afetivos?
Cujas cláusulas são vagas
Cujos juros são móveis
Cuja assinatura é dúbia
Cuja inadimplência custa um pedaço da nossa alma, da nossa lealdade, da nossa integridade?

Quando os custos não são significativos
Diminuímos o outro
Será que ele se acha o último pacote do biscoito?
A cereja do bolo?
E seguimos adiante
Não cumprindo com as expectativas do outro
E nem ligando para isso
Ou fingindo bem que é assim

Agora, e quando nos sentimos em dívida?
E quando o outro nos deu mais do que podíamos ponderar?
Quando fez do nosso nada um algo
E esse algo que nos tornamos 
Em parte
É pela graça, pelo afeto, benevolência
Desse que poderá nos cobrar
Devemos ao outro algo que agora somos nós...

Se esse outro for esclarecido
Saberá que fez por si próprio
Que somos apenas uma parte daquele sonho
Que o olhar que nos vê
É atravessado por muitos véus
Apesar deles nos sentimos vistos
Investidos
Admirados
Valorizados

E o preço?

E o preço?

Inquantificável
Altíssimo
Inestimável
E se o outro cobrar?
E se formos ingratos?
Não há mais como devolver o valor recebido
Nem tampouco fazer a quebra do contrato
Sentimo-nos acorrentados

Ou, se mais ou menos entendidos,
Sabemos que temos direitos outros
Que o algo que nos foi dado era por nós merecido
E que sendo com ele,
Fazendo bom uso
Tornamo-nos dignos de ter recebido

E a dívida?
Oras...
A dívida que é cobrada
No reino dos afetos
É tão ilegítima e de tão mau caráter
Quanto a dívida do banco
Onde podemos legitimar porque havia contrato
Podemos achar justa
Porque foi a solução encontrada
Mas é desleal do mesmo modo
É aprisionadora de forma semelhante
E, assim como no banco, podemos escolher por não pagar
Não pagar, nesse caso, nos faria livres...
Talvez não da nossa consciência
Que tantas vezes se mantém pesada
Mas de uma relação que parecia ser de afeto mas era opressão
Amor quando é pago é prostituição
Prostituição não é prestação de serviço
É o abuso de outro corpo legitimado
Abuso de corpo vulnerável
Pago
Onde se paga o impagável

Que consigamos afetos mais livres
Menos dívidas
E que aprendamos a lidar com expectativas
Com as multiplicidades dos desejos, dos destino
Com a força desse olhar pro outro
Que produz um corpo próprio onde não havia
Uma voz mais bela e tão intensa 
Onde havia silêncio ou rouquidão...
E produz vontade de voar!
E, se voar, que possamos assistir satisfeitos
E não procurar as gaiolas
Que garantam que o novo cantar tenha dono
Que nos tenham como troféu de um dito bem
Não! Deixe voar! E veja como é belo esse voo pleno

E façamos nós
Novos investimentos
Livre de nós
Livre de outros
Livre!

E se assim for, voaremos alto e belo
E voltaremos não por obrigação, mas por afeto!


quarta-feira, 19 de junho de 2024

In verso

Pingo pingo pedra
Sentada encucada quieta
Céu vento tempo
Voa com a gente
Voa sem a gente
Passa devagar
Escreve escreve fixa
O que se fez
Existência
Ausência
Nulidade
Nada
Fim
Livro enrolado de olhos castanhos
Respiração de boca aberta
Buscava estar ereta
Sentia-se deslocada
Usava meia trocada
Esquecia casaco e guarda-chuva
Aonde irá parar?
Toda a roupa que foi lavada
A louça limpa
Limpa de novo
De novo
De novo
De novo
O almoço que foi sustento
Que foi suculento
Que foi sempre
Que foi 
E algum saber
Os jogos
Os troços
Tudo que não foi
Os gritos
Os silêncios
Sentimentos...
Livro que não foi escrito
Não foi lido
Livro escondido
Desinteressante
Póstumo
Palavras 
Me vestem
Me versos
Atraversos
Reverso
In verso

terça-feira, 18 de junho de 2024

Quando existe afeto?

Em muitos quesitos me faltaram orientações
Em outros tantos tive orientações segundo certas perspectivas
Perspectivas certamente equivocadas
Acontece que os critérios de amorosidade, bondade ou gentileza são realmente muito dúbios
Diante deles tantas vezes julguei se era amada ou considerada...
E hoje vejo como que os atos não dizem nada
O que nos diz algo é a relação

Vou então contar a história:
Fomos fazer uma caminhada de alto nível. Ele veio de outra cidade, arrumou a mochila, íamos acampar. Eu, da noite pro dia fui adoecendo. Não iria se não fosse uma circunstância tão chata que envolvia uma viagem, as horas e os reais que isso implica. E a minha vontade, é claro! Eu estava animadíssima com o projeto.
Fomos subindo e eu fui piorando. Chegou uma hora que parava para descansar e quase dormia. Não era exatamente cansaço. Era o corpo dando seu limite: cama. Muito triste mas decidida abandonei a mochila no caminho e segui para dar a notícia: não vai dar pra mim. Sugeri que ele seguisse. E ele iria mas os dois miúdos que conosco estavam quiseram voltar juntos. Acabei com o passeio de todo mundo. É das piores sensações pra mim. 
Fui descendo sozinha, devagar e sempre. Um pouco cansada, bastante arrasada e meio preocupada em dar conta da descida.

No caminho senti aquela exaustão. Ia beber água mas nem tive condição: sentada debrucei sobre a mochila e fiquei aguardando forças pra prosseguir. Chegaram minhas companhias (companhias?) e o amigo catou minha mochila. É bem verdade que por um lado eu preferia carregar... eles eram rápidos, impacientes, um lado desse feito era para que eu me apressasse. E eu queria ir lenta, no meu tempo, calma. Mas com uns 15kg a menos inegavelmente era mais fácil. E ele desceu algo parecido com 1km com todo peso. Dureza pra mim. Dureza pra ele. Não me dei mais o direito de descanso. Segui mais lenta que eles, mas sem parar. Ao final sugeri que trouxesse o carro e entendi que ele não queria levar o carro naquela pista ruim. 
Era aqui que eu queria chegar. Tudo que me ensinaram é que ali faltaria afeto, respeito e tudo mais que se possa imaginar. Hoje vejo como que não é assim. Desci mais uns 500 metros moribunda, me apoiando nos bastões, menos ruins que os últimos 2km. Ele levou todo peso por mais 500 metros... e é isso. Faz sentido? Pra mim não. Pra ele sim. É prova de amor? Definitivamente não. Nem o carregar a mochila nem o não levar o carro até a porta. Os afetos são muito atravessados. Muito multifacetados. E, ainda que de forma parcial afirmo categoricamente: existe afeto. O que cada um idealiza, produz, espera como afeto é de um jeito. Um jeito marcado pelas vivências, crenças, particularidades. E no enlace algo se produz ou se desarticula. Eis das maiores belezas e dificuldades na vida.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Devaneios

 Um sonho, uma vida, um vôo

Escolhe o que leva

Porque quando fica demais, pesa

Quando se leva de menos, falta

Subir, subir, subir, sempre em frente

Com o peso daquilo que se quis,

Cada vez mais alto

De quantos "falta pouco" é a nossa caminhada?

E às vezes falta muito... Terei perna?

E segue em frente

É o desejo escrito no corpo se realizando

A beleza que mora num abre e fecha do tempo

Insistência que não cessa

Sente o vento cortante

As nuvens que passam por nós, o frio

O sol que racha, embeleza, aquece, 

Que nasce e se põe

Esse lugar, tão novo, tão diferente

Que está ali desde sempre e tão presente

Do qual me tornei visitante assídua

Que me nutre, que me assusta e encanta

Olha, olha, que será que queremos desse outro mundo?

Sobe, desce, às vezes melhor nem saber que dificuldades teremos pelo caminho

Porque a gente rateia

E sem saber a gente insiste, sempre em frente, até já não fazer sentido voltar atrás

Ou não ter como desistir

Aprende, amadurece, cresce

Ainda que o destino pareça mais distante do que gostaríamos

Pensando tudo que se fez

Que pra toda ida existe uma volta

Pra todo começo existe um fim

Usufruir das pequenas coisas, flores, passarinhos, respirar

Ver graça nos formatos que surgem, na janela do tempo que se abre, na sua sombra na nuvem com arco-íris

Uma beleza quase sem sentido

Que me dá sentido

Com boa companhia, a cumplicidade de testemunhar, um olhar

Divide a vida, oferta apoio, pensa junto na direção

Ali onde não tem lojas pra comprar

E a cooperação é um pouco mais presente

Assim como a troca de olhares, o desejo de um bom dia, de que o outro se supere também

Não se quer deixar ninguém pra trás

Não falo de um compromisso contratado ou pago

É uma ética própria dali

Dar a mão, esperar, perguntar se está tudo bem

Trocar telefones

Cada um no seu tempo, o que importa é chegar

Depois voltar, desmontar, descer

Retornar àquela outra realidade

E com uma realidade dando sentido à outra

Vamos seguindo com  encantamento

E eu aguardando um novo momento

Pra montanha eu poder voltar

9set2023

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Por quê?

 Não sei.

Tenho um filho na fase dos porquês. E é muito interessante que eles não cessam. E muitas vezes terminamos a sequência num fatídico "por que é assim". 

E nós, adultos, nos esforçamos em responder e explicar, certos de que eles estão aprendendo e de que estamos dando contornos a tantos "sem sentido".

E tem vezes que se pergunta coisas tão sérias como se qualquer coisa fosse, como quando querem saber da morte do meu pai. E me lembram e confrontam com vivências e sentimentos que não são da ordem das explicações. Mas a gente fala, fala, as vezes chora. E eles ficam surpresos. Por quê?

Os últimos dois porquês também deram uma chacoalhada. Um deles era sobre o amiguinho de mesma idade (5anos): por que ele não fala? Por que ele grita assim? O outro era sobre uma pinta grande na barriguinha. Por que tem pinta grande? E aí a gente fica ali, tentando entender também. E vemos que essas também são as nossas perguntas. E que as muitas teorias não respondem, não nos sossegam. 

Assim também é com as perguntas sobre a própria origem ou a origem dos seres humanos ou do início da vida. Também querem saber sobre a morte: quem morre primeiro, não querer morrer... e o planeta, o universo, o infinito. 

E cheios de palavras e saberes dizemos tudo que construímos nos últimos anos. Uns conceitos que não preenchem nosso próprio vazio da origem da coisas e dos mistérios da existência. Umas palavras. Só palavras...

Sendo tão poucas para dar conta de tanto. E sendo tantas segurando em muitas pontas pra dar algum sentido. E eles vão aprendendo e juntando suas próprias palavras e sacando seus próprios vazios de sentido. É muito bonito. Porque na verdade nos entregamos por completo nos nossos não-sentidos. E que eles possam também dividir conosco toda essa angústia de viver, porque voltaremos a essas perguntas quantas vezes pudermos crescer. Ainda me lembro de eu, adolescente, conversando com um amigo sobre a origem e o sentido da vida. Ele, muito sábio, disse que já havia passado dessa fase. Na época senti constrangimento... torci para que passasse logo essa minha fase. E aqui estamos...

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Doença

 Quando me dei por mim, ali estava você

 Achei que éramos um.

Aos poucos fui percebendo o quanto eu te percebia de formas distorcidas

E às vezes você não correspondia às minhas vontades e expectativas

Em muitos aspectos eu te desvalorizava

Tinha raiva, lamentava por você ser assim

Fui tentando aceitar

Fui vendo como que um tanto de como sou é graças a você

Tentei te acolher mais. Olhar com carinho. Cuidar. Me ver mais feliz contigo.

Você carregava memórias de atravessamentos nossos...

E eu percebia seus movimentos de saúde e doença, te percebia de formas diferentes, valorizava sua riqueza de detalhes. Interagimos de diferentes formas. Algumas vezes te usava para saber mais de mim. Brincava com minhas percepções. Regulava a respiração para mudar meu estado de espírito. Contigo vivi imensos prazeres e dores.

Um dia adoeci mais severamente. No hospital descobri que você estava tomado por bactérias. Elas também te ocupavam além de mim. 

Fui entendendo que por mais que eu quisesse continuar, precisava que você também quisesse e, mais que isso: que resistisse bravamente, que vencesse a luta

E o que eu podia fazer era tão pouco. Ali, hospitalizada, recebendo medicações que fizessem por mim.

Sabe lá se você seria mais ou menos forte que o necessário.

Eu estava razoável. Os exames ruins. Você não ia bem. Mas pouco me disse. Soube depois. Nossa intimidade desde sempre tão precária...

No momento torço por ti. Com uma dose de incentivo, uma de cobrança e uma de desespero.

Se nada disso der certo será o nosso adeus. Você ficará ali inerte sem mim, tomado de outros bichos até o seu eterno fim.

E eu? Sei lá. Que será de mim? Eu que sou eu+você, que me desconheço sem te ocupar. Apesar de só te ver pelo espelho, de estar montada, de ser através de você. Em você. Eu que aqui estou. Não sou você. Ou seria obrigada a reconhecer que não me avisei de meu adoecimento? Arrebatada por um possível fim precoce... 

Ó corpo, você que sabe o caminho, você que não vive sozinho, você que é deste mundo: faça o que deve ser feito. E eu aqui estarei. E se eu aqui não mais estiver, que você também não me represente mais. Será nossa separação, enfim. Estarei no ar, num todo a me levar. Estará no chão, pesado, vazio. Que fizemos juntos desde então? Não fomos felizes para sempre. Tampouco vivemos apenas infelicidades... sonharei sem você. Se você vencer, eu volto, acordo, vou à luta. E se perder sigo sendo um sonho que nunca mais acordou.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Sendo mulher

 Nasci numa situação bem delicada. Vinha ali uma menina. Filha de outra mulher e de um homem que tem mulher. Tem mulher, a mulher o tem? Eles eram casados. Há uma outra mulher, uma mocinha ainda tão nova e também filha. Rompimentos, problemas...

Fui crescendo. Na escola eu não devia ser tão alta, mas era a maior da classe. E nem tão gorda. Mas a minha coxa dava duas da de um amigo meu. E não devia sentar assim ou assado. Bunda pra trás, peito pra frente, me disseram.

Quando adolesci, meus interesses eram muitos. Aliás desde sempre... eu era a sereia, eu era a princesa, eu iria casar, ter filhos, segundo me contam, uns 20 mais ou menos. Eu sempre fui apaixonada. E quando ficava confusa sobre meus muitos amores me culpava: como posso não ter a certeza sobre de quem eu gosto? Eu não queria ser uma piranha, ser piranha era feio...

E procurei um parceiro. Parceiro pra viver melhor, compartilhar a vida. Essa vida tão cheia de percalços. Melhor não ter filhos... E com muitos encontros e desencontros com possíveis parceiros, acabei me aventurando pela Internet. Não podia. Mas eu só estava de papo com muita gente. E como proibido é mais gostoso e eu era muito apaixonada, aconteceu. 

Eu tinha 13 e ele 19. Hoje entendo  e legitimo as preocupações e proibições do meu pai. Mas a verdade é que eu gostava muito mais da confiança e liberdade da minha mãe. Namoramos. 

Eu, muito precisada de um amor.

Ele, muito precisado também.

Mas eu achava que era só eu. Oferecia-me como objeto. Parecia que era pra ser assim. Fazia-me de boneca. Fazia charme. Dizia coisas que não sentia. Sentia um turbilhão dentro de mim. Afinal: como se namora? Cumprimos cada um com o seu papel? Quem é esse tal? Quem quero ser nessa relação? E fomos construindo... construindo... casamos.

Era para ser o dia mais feliz de nossas vidas. Mas foi tenso, intenso, fizemos um caminho pelas nossas próprias pernas. Pernas ainda verdes e procurando firmeza. Fomos fortaleza um pro outro. Fomos ombro, aconchego, mobiliamos, passeamos, acordamos e dormimos cheios da alegria de estarmos juntos. Segui estudando. Ele seguiu estudando e trabalhando. Cada um procurando seu lugar no mundo. Mas o nosso lugar um com o outro era a certeza que precisávamos pra estar vivos.

Fui aprendendo a ser diferente. Aprendendo que as coisas não são sempre como parecem ser. Elas são como a gente fizer ser. E a gente pode. Fui descobrindo e não cesso de descobrir que existir é fluido e que se estiver respirando, se o coração bate, podemos estar vivos e inventando um jeito de ser feliz. Fui confiando nessa construção, nas possibilidades de que o belo se faça. Comecei a ter uma pequena vontade de ter filho.

Que será do mundo sem nossa contribuição? Eu pensava. Ele também. Fomos planejando  um filho que seria o efeito de um amor verdadeiro, de um lar agradável, de respeito. E veio a zika, desesperos, atravessamentos. Nasceu. Lindo, perfeito. Veio a alergia -aplv- e veio o que é a maternidade. 

O pai voltou a trabalhar. A mãe, em frangalhos, tentando dar conta do impossível. O pai, no seu possível, tentando dar apoio à mãe. De quantos desencontros se faz um verdadeiro encontro? Sentia-me traída pela própria natureza. Não era mais a minha fantasia que sustentava essa maternidade mas um certo dito inscrito nas células que nos faz reproduzir a espécie.

Quisemos outra chance, outra vez, um companheirinho pro pequeno, mais aprendizado. E veio. Tudo novo de novo. Novos desafios se impunham, novas perspectivas, olhares para o mundo. Toda a delicadeza de gestar e parir um filho tem mesmo a ver com o tamanho do que podemos enfrentar acompanhando esse desenvolvimento de seres que vieram do encontro dos corpos. Em especial para o corpo que é emprestado a esse ser para que ele próprio se constitua em diferentes aspectos.

E como a gente faz, a gente leva, a gente vive é também o que acreditamos, nos aprisionamos, repetimos. Ser mulher é ocupar esse corpo que precisa encontrar lugar próprio. Ser mulher, incompletude mais próxima da plenitude. Mulher é mesmo ser divino, gerador da vida. E estou tão cansada que quase adormeço aqui escrevendo.  


quinta-feira, 11 de abril de 2024

O presente

 Naquele dia eu quase não sabia meu próprio nome. Com medo de me perder de mim de vez me ancorei no afeto. E como todo bom amor, ele me daria o melhor, seu ser. Pedi: por favor, não me dê. O que eu quero nem eu mesma sei. Se me ofereces uma resposta eu saberei que é a sua. Para um problema desse tamanho é preciso que na resposta eu possa assumir autoria. E pedindo apenas companhia recebi a presença, um presente. Poucas palavras, muita verdade. Vamos cantar? Sim. Sempre.

E num momento de abertura me pareceu que uma música era a minha resposta.

Porque depois de muitos dias chorando possibilidades, "todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou". O tempo urgia, dias vinham e iam e a resposta não se fazia clara mas até não tomar a decisão era ter decidido. "Mas tenho muito tempo, tenho todo tempo do mundo" para viver o que se apresentar. "Todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia", dias iguais, dias em que a gente chorava sem saber o que esperar, imaginando possibilidades e sem clareza diante delas. "Sempre em frente. Não temos tempo  a perder" e chegaria o tempo de decidir. Decidir que o "nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo", que nosso filho era feito desse suor, dessa vida e investimento. Abrir mão disso seria concretamente um sangue amargo "e tao sério". Tão sério pra mim decidir por interromper a gestação. Tão terrível diante  da nossa construção tão bonita e que desse "e selvagem! Selvagem! Selvagem" dos corpos, do encontro, havia dentro de mim um filho, desejado, idealizado e, naquele momento, o seu possível. E eu sabia que ele viria pleno, eu o via, eu o sentia. "Veja o sol dessa manhã tão cinza". Ele era o sol, ele era tudo, apesar das circunstâncias que faziam a manhã cinza. "A tempestade que cheha é da cor dos seus olhos castanhos". Castanhos... eram os olhos do meu filho. E a tempestade... Meu Deus! Quem saberia o que atravessamos? E cheia de coragem eu queria receber essa criança. "Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo", que meu filho não teria doença alguma, que eu não precisaria aprender a ser feliz com uma dificuldade desse tamanho. Mas tínhamos tempo se precisássemos. "Temos nosso próprio tempo, temos nossos próprios tempo, temos nosso próprio tempo" ainda faltava bastante para termos certeza do que seria nosso futuro. "Nao tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas" porque embora eu confiasse que viria essa criança maravilhosa, embora investir no meu ventre fosse a minha vontade e era querendo muito o nosso sonho, deixar as luzes acesas era saber que era melhor garantir, que o medo ainda nos pertencia no âmago. E, na verdade, toda gestação é uma caixinha de surpresa... nunca existiu garantia. "O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu", ninguém nunca sabe qual a circunstância de nascimento de um filho ou que dificuldades irá enfrentar. Sempre virão dificuldades para vencermos. Mas antes, essa fantasia do filho perfeito é muito forte para todas. Ninguém planeja um filho pensando que pode cair em você a pequena possibilidade de algo fora do previsto acontecer. E passei a pensar que acontecesse o que fosse "nem foi tempo perdido... somos tão jovens" nós aprenderíamos a ser bons pais de uma criança da forma que ela viesse. "Somos tão jovens", temos a plasticidade necessária para inventamos felicidade diante dos percalços da vida. "Tão jovens! Tão jovens!", temos muito pra viver juntos, temos tanto construído apesar de tão jovens. Nada poderá fazer de nós tão infelizes que não possamos aprender a contornar, a usufruir, a viver de outro modo. Temos um ao outro e teremos o nosso filho. E ele virá pleno de saúde. Mas se não vier aposto: aprenderemos a ser felizes de novo.

Tão jovens! Tão jovens!

terça-feira, 12 de março de 2024

Verdade

Eu quero uma verdade. Mas não toda. A minha, talvez. Não me diga pois posso não entender as palavras. Elas são dúbias, elas são falhas. Elas mentem. E eu minto também. Minto pra mim. Minto para todos. Fantasio-me. E você? Com que roupa vestiu-se hoje? 

Procura-se a Ana. Sem roupas, só a Ana. No dia de minha morte poderia entregar-me assim. Sem as palavras que me recobrem. Sem as roupagens que me escondem. Sem o pudor e os desconfortos de existir assim, crua.

Doem-me para uma universidade. E lá falarão de mim os jovens. Nada terei a dizer. Já terei ido. Terei dito tudo. Mas uma parte da minha verdade ficará na maca. E olharão pra ela sem entender nada. Como diariamente eu olho e não olho. Entreguem com meu corpo meus escritos. E ao menos alguns olharão para mim e serei eu. Chorarão minha partida?

Com tanta idade procuro minha substância e vejo que me encontro e me perco nessa busca. Às vezes tudo faz sentido. Às vezes nada faz sentido. E em geral estou boiando entre um tanto de sentido e outro tanto de sem sentido. É incrível como a verdade se esconde. Acho que tenho verdades contrastantes. Mas escolho a mais lógica e sigo, olhando pra ilógica com bastante interesse. Queria viver todas as minhas verdades. Mas o mundo me pede coerência. E eu também. 

Encarcero-me numa verdade. E parte do brilho diminui. É confortável, covarde, limitada, mas que escolha fiz e me fizeram? Eis que aqui estou. Tenho um tempo, uma escuta, o meu momento. E consigo permitir que o vento me sopre de tantos pensamentos.


sexta-feira, 8 de março de 2024

Mulher

 A mulher não existe, dizem uns por aí.

Essa mulher que não existe é A Mulher.  Diferente do homem com H maiúsculo, que cada vez mais mulheres dizem que não prestou... Coitados. Acreditaram nessa falácia da masculinidade. 

Mas a mulher com M maiúsculo a gente vem procurando por aí. E não acontece mesmo. E até as próprias mulheres ficam ali ditando as faltas a ser mulher. Ainda me lembro, na minha análise, eu procurando a substância que me garantia o meu lugar feminino...

E hoje é o Dia da mulher, que se acha e se perde reforçando o seu lugar. Existe, pede garantias, se empodera, luta pela vida. A sua e a de seus filhos. Povoa o mundo.

Mais um ano se passando. E a minha busca também é a delas. Os mesmos lamentos. Uma luta. 

Nesse vir a ser, penso  que eu queria ter...

a fé da minha mãe
o capricho da tia Neiva
a liberdade da tia Ivone
a organização da tia Sandra
a clareza do próprio lugar da tia Clara
a fineza da avó Emília
a dedicação da sogra Natercia
a entrega profissional da cunhada Tatiana
a sensibilidade da cunhada Biah
a praticidade da Aline
a sensatez da Angelita
a autenticidade da Juliana
a articulação da Janete
a força da Luciana
a persistência da Larissa
o comprometimento da Rosana
a disposição da Monika
a maternagem da Josi
a receptividade da Michelle
o humor da Patrícia
a segurança da Jaqueline
a disciplina da Bruna
o acolhimento da Rebecca
a inquietação da Camila
a cultura da Sônia
a oratória da Denise
a sagacidade da Cristiane
a clareza da Bianca
a sinceridade da Rosi
a gentileza da Sabrina
a ética da Ivana
a resiliência da Erediana
a alegria da Priscilla
o olhar da Maria
a delicadeza da Marianna 
a firmeza da Carol
a serenidade da Lélia...

E tantas outras queridas eu poderia citar com suas características marcantes. E como que não cabe num ser toda essa potência e multiplicidade do feminino. A gente vai se descobrindo. Pensando o que fizeram de nós e conosco e o que queremos de nós e conosco. Tenho tirado umas fotos minhas. Só minhas.





sexta-feira, 1 de março de 2024

Trabalho, desejo e dinheiro

Uma boa parte da minha vida foi tentando dizer que meu valor não está no dinheiro que (não) ganho.

O valor das coisas não é possível de ser traduzido apenas por dinheiro. Muito menos o de pessoas.

É possível ser feliz com pouco dinheiro. É possível fazer valer a pena...

A precariedade, se não é muita, movimenta.

Venho fazendo uma vida que vale a pena com pouco.

E ei de me convencer que, se eu tiver a chance de ter algum dinheiro, que eu poderei ser feliz também. 

Que eu seguirei não sendo o dinheiro que recebo.

Que sou digna de receber algum dinheiro.

Eu quero ouvir o impossível. E saber fazer com o não-saber. Acertar onde não vi. 

Nada de terrível há de acontecer, apesar do medo. Será incrível. Quando a gente caminha na direção do desejo dá um frio na barriga. 

E entre o pesadelo de cair no abismo e o sonho de ser alguém, a escolha de uma profissão sem garantias, gabaritos e fórmulas.

Que quero eu do mundo? Que quero eu de mim? 

Eu vou! Eu vou! 

Caminhando contra o vento... Eu vou. Por que não? Eu vou.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Lanterna

 Hoje estou sozinha. Fazendo café para mim mesma. Eu gosto de café. 

Fiz um pouco de tudo que faço nessas manhãs sem filhos, sem marido, só eu. Resolvo, produzo, limpo, escuto. Hoje escutei psicanálise e música. Eu sempre escuto psicanálise e música. Entrevistas...

Eu estou na lanterna dos afogados. Que tipo de problemas nosso corpo comporta? Quais problemas eu vou eleger para validar, exprimir e escancarar que eu sofro?

Quando eu não quis ter filhos era porque eu sabia a dor de viver.

Quando eu quis ter filhos foi porque eu apostei na beleza de viver.

E venho querendo observar como que viver significa, apenas, manter-se vivo. No sentido de que não há regra senão a de ocupar o próprio corpo. Corporificar.

Eu sempre quis, em algum lugar, pôr um fim na minha infeliz existência.

Eu sempre quis uma existência mais feliz.

Imaginava que ser feliz era um estado de plenitude. E é, né? Cadê?

Fui aprendendo a ver beleza na falta, nessa desgraça da existência. Mas, é bem verdade, é preciso um olhar. O olhar que dá corpo. A beleza está na subjetivação, na validação de algo. E o horror é seu oposto: a zerificação e invalidação daquilo que somos.

Quando meus filhos me culparem pela vida serei forte. Eu, culpada e glorificada, fonte de gente. Eu que povoo o mundo. 

Adiei meu suicídio por uns anos. Tem feito sentido. Vou seguir subindo a montanha. Superando as pedras que rolam se não me assolam. Buscando escutar e me encontrar. 


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Ana Luiza

 Meu nome é Ana Luiza. Dos meus pertencimentos vieram os nomes Ferraz, da família materna, Taves da família paterna e Bukowitz, marcando minha escolha amorosa e enlace no casamento. Quando me casei podia escolher como ficaria meu nome. Logo resolvi que não tiraria nenhum dos sobrenomes antigos. Não sabia se colocaria ou não o sobrenome novo. Me disseram: coloca!

Depois me arrependi do sobrenome novo. E reafirmei. E ponderei. E gostei. Mas fato é que meu nome mais nome ou, melhor diria, meu nome de frente é Ana Taves.

Apesar disso, meus pais às vezes me chamavam de Ana Luiza. Em geral era grave. Meu pai me chamava de Luiza eventualmente. Quando aparecia um paciente novo eu me identificava como Ana Luiza, queria que me levassem com alguma seriedade. Um amigo muito querido também muitas vezes me chama de Luiza. Adoro. Nem sei explicar... Acho que é porque o amor entre nós não está em questão. E, certo de quem sou, chama-me Luiza.

Quando eu era pequena, bem pequena, tipo ontem, eu era uma Ana Luiza que estudava com outra Ana Luiza. Ela, a Aninha. Eu, a Ana Luiza. Ela, lider das crianças, tão doce, tão graciosa. Eu, sozinha, procurando amigos, eu cheia de inveja da Ana Luiza, a Aninha.

Mudei de colégio e logo tive a chance de me tornar a Ana. Sem Luiza, claro! A Ana cujo apelido natural seria Aninha. E essa história já contei no início do blog. Mas eu queria era falar outra coisa. Esses dias eu estava com umas pessoas. Umas pessoas a quem estou me entregando aos poucos e cuidadosamente. Que sabem que me chamo Ana. Um dia se surpreenderão ao saber que sou Ana Luiza. E lá pelas tantas falaram da Ana. Outra, mas não notei. E eu disse algo que refutava o que estava sendo dito sobre mim. Eu, a Ana. Mas logo disseram que era outra. E o cabra seguiu dizendo: Ana tem um monte!

Ora bolas! Acredita que essa frase tá aqui reverberando? Já sou Ana há bem uns 30 anos. Será agora que vou me chamar Ana Luiza pra ser menos um monte e mais eu? Ser a Aninha já não me fascina. Mas ser Ana Luiza me leva num lugar que não reconheço. Ana tem um monte é mentira! Aposto! Ainda mais Ana Aninha. Ana Taves. Ana eu.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Um olhar pra mim

 Quando vou a São Paulo me encontro com uma parte de mim que conheço pouco. É também uma parte de outros que, diferentes de mim, fazem parte de quem sou. Uns mais outros menos. 

 Quando vou a São Paulo sinto-me grande e pequena. Sinto um cuidado, um carinho, tão particular, terno, estranho. Sinto que sou alguém e que, sem dúvidas, confiam em mim mais que eu mesma.

Sempre que lá estou sinto que tem um lugar pra mim no mundo. Que meus possíveis são mais amplos, que eu poderia arriscar. Lamento que são momentos num tempo-espaço. Que são limitados, bem pequenos, na verdade.

Também me passa um medo de não cumprir com o que se espera, de frustrar-me com visões da minha pequeneza, afinal, uma parte dela é o valor que vejo na vida. É o que sou.

E desconfio e me pergunto se na verdade essa potência de ser que tenho quando estou lá com aquelas pessoas tão fortes em mim e pra mim é de uma imagem que não é bem minha, mas com a qual me encanto vendo-a nos olhos que me vêem.

Não sei ao certo se quero o caminho que me destinam. Ele é belo e seduz. Não sei se o vejo nítido, se ele me pertence. Não sei se me alegro com um olhar que me vê a mais do que sou ou se me agarro e vou. 

Percebo que em poucos dias a carruagem virou abóbora. E eu, virei o que? Será que veriam valor no que de fato sou? Se arriscariam em me perder e olhar para além daquela imagem? Imagem que é eu e não-eu, que me alegra e me assusta, que me dá ao menos um lugar, eu, tão sem lugar... mesmo que eu não saiba bem que lugar me dão, qual eu quero e qual eu tenho... 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Eu e a montanha

 Peguei a Monstra, minha mochila, e iniciei preparativos. Apesar da extensa lista que eu mesma preparei para não esquecer nada, é sempre exaustivo conferir a conferência e ainda manter a bateria do celular no 100%. Até que finalmente saímos, sempre mais tarde do que planejamos.

Quando saio do carro é um misto da alegria de começar com o estarrecimento do peso da Monstra. Olho pra ela meio torto, puxo com força, jogo no quadril pra aguentar o rojão e visto a bendita, já pensando em por quanto tempo aquilo precisará ser suportável. 

O isolante, nem sempre bem colocado, às vezes esbarra nas coisas, o que é irritante mas em geral eu finjo que não me incomoda.

A Monstra acaba em segundo plano diante dos cuidados com o Iuri e das constantes queixas para que o Davi não suma da minha vista correndo sempre a frente do grupo.

Se tem alguém pouco experiente sinto-me responsável pelo bem estar do convidado e almejo que ele possa maravilhar-se como eu, que pra ele faça sentido aquela loucura.

Passa, passa, um passo e outro.

Vamos subindo, vendo e o vento no rosto.

Tempo bom, nuvens no céu, risco de chuva, avaliar os riscos, apreciar o presente, as cores, vamos em frente.

E chegando desço a Monstra e começa a arrumação. Ela me salva, trouxe de tudo, casa, calor, comida... Monstra, eu te amo. E monto a barraca e à ponho para dentro, quase a abraço.

E vivemos de tudo, tempo estendido, cumplicidade, cooperação. Olhos que procuram olhos. Olhos que vêem e chamam: vem ver! O belo. Belo que compartilhamos. O lanche é o melhor lanche. A companhia é a melhor companhia. E o momento é o melhor momento. Único. Pára tempo. Deixe que eu veja como cheguei até aqui. Vivi, eis quem sou. Será que volto? Sim, sim. Monstra mais vazia, preciso renovar. Limpar as coisas e a mim mesma. O melhor banho, minha cama, a melhor cama. E a vontade de voltar. Monstra, me leva de novo pra lá.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Mestre, me dá licença de falar?

Senhor, senhor,
Foste-me apresentado como mestre
Nome pesado, nome errado...
Ponderei sua mestria, me chateei, chorei
Senti-me traída, desiludida, fui embora
Apesar de sua modéstia, seu jeitinho manso
Acreditei num mito como se verdade fosse
Me entreguei de cabeça, uma proposta doce
Procurei, procurei, procurei
Fui encontrando o mestre dentro de mim
O mestre que sou em mim
E os mestres aí fora não passam de conselheiros
A quem escuto ou não segundo meus critérios
Sou meu próprio guia, responsável pelo meu caminhar
Irresponsável, certamente, humana
Busco ser minha própria mãe
Busco a mulher/sujeito que minha mãe é
Cuido de minha vida, cuido dos meus amores o melhor que posso
Tenho uma estrada
O rancor ou frustração se dissolveram
E busco no dito mestre, um homem
Olhando pro homem, me compadeço
Pela sua humanidade também
Pelos seus limitados possíveis, como os meus
Pelo lugar duro que ocupa, impossível
Mas que também semeia e colhe suas flores
Te vejo hoje com carinho
Figura paterna, carinhosamente me guiava
Ouvia, me via, fazia de mim alguém
Por ti tanto amor eu tive também
Misturado num espelho e num quadro perfeito
Que caído na lama, sem sentido, um drama
Acabou para mim, falido, um fim
Toda imagem, todo afeto mudou, meu bem
Imatura, chateada, desorientada
E hoje te enxergo de novo, de outro jeito
E não vendo um mestre, mas um sujeito
Te reconheço, te admiro, te agradeço
Porque entendo que o bem que me ofereceu
Era todo seu
Não meu
Mas era seu
E me ressurge a vontade de conhecê-lo
Um homem por quem tenho sim apreço
Desejo-te o bem, desejo a mim também
Fecha-se um grande ciclo
Inicia-se outro, cheio de possibilidades
Um abraço, meu amigo, 
Senti vontade de te falar...



Boniteza

 Já não aliso meus cabelos. Às vezes sinto vontade. Sei que a realização por um dia os fará mais fracos, quebradiços e opacos por um bom tempo. Não sigo.

 Já quase não tiro a sobrancelha. Detesto. Dói demais. Pêlos grossos, caem algumas lágrimas, esfrego o rosto. Diziam que eu ia me acostumar. Não tentei o bastante ou não aconteceu. 

Já não uso sutiãs que apertam meus seios a fim de que pareçam artificialmente próximos, duros ou interessantes. Observo com estranheza como esse universo me pertenceu. Como fui convencida?

Já não clareio pêlos de nenhuma parte do corpo. E nem sempre os depilo. Às vezes me sinto descuidada, tal como sou com tantas coisas em minha vida. E olha que sou uma boa cuidadora...

Ontem o ano viria novo. Coloquei colar, brincos e anel. Coloquei um vestido mais curto, embora meu shortinho por baixo me conferisse liberdade de movimento. Pintei a boca e só não pintei os olhos por não ter encontrado o lápis. Senti-me bonita. Sei que possivelmente me decepcionaria com as fotos. 

Ainda me vejo perdida entre a farça de estar uma mulher enfeitada, fantasiada de bonita...  meu próprio olhar, que vê beleza no conjunto com adereços e o meu ideal de ter uma beleza intrínseca, que eu mesma tenho dificuldades de ver, no cabelo da hora que acorda, no corpo como ele é, em sua verdade, uma maravilha de simplesmente ser... ainda procuro me achar. Um batom sem falsas promessas mas um olhar de mim pra mim com mais estima. Eu nao quero cinta, eu não usarei salto, eu não farei dietas loucas. Quero um lugar em mim.