quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal

Eu não queria querer um natal farto
Eu poderia não fazer questão das rabanadas
Eu não preciso salvar as gemas fazendo quindim 
Muito menos agradar meus filhos com musse de chocolate

Eu poderia não ter sido atravessada por natais com aquele pernil delicioso, com som de sotaque paulista
Eu não faria um empadão de palmito para que meu companheiro tenha algo sem carne para agraciar o prato
Nem dois tipos diferentes de feijão, um deles com carne prestigiando meu sogro 
Poderia não aliviar minha mãe da maior parte dos afazeres ou auxiliar minha sogra

E eu não teria o trabalho que o Natal me dá 
E não teria uma comemoração de Natal 

Natal, data vazia 
Data de Deus, de presentes, de hipocrisia 
Corrida em lojas, em mercados, olhando pra pobreza
Dos que ficam na porta das lojas
Minha mesmo, que não entro em tantas delas e compro preocupada com a conta do cartão 

Natal que não une as pessoas 
Que cria guetos e intrigas
Que tenta definir quem são os seus
Natal: data de família 
A família que temos, que tínhamos, que teremos 
Natal para poucos, cheio de graça 
Às vezes tão sem graça 

Natal de excesso de trabalho pra uns 
E de ususfruir para outros
De arrumar, limpar, lavar e cozinhar
De aguentar ansiedades e seus efeitos 
De precisar de descanso
Cansada estou do Natal 
Mas não faz mal... Falta pouco para acabar
E mais um pouco a "comemorar"

sábado, 20 de dezembro de 2025

Tristeza

Tristeza não tem fim, felicidade sim. 

É a luta da vida: cada adulto com seus problemas. Problemas, muitos problemas. Problemas maiores ou menores são sempre muito valorizados, tomam as pessoas. E as crianças, cada uma com seus problemas, quanto mais protegidas, menos vislumbram as dificuldades que as circunda ou as espera.

E é uma tristeza característica desse tempo. Tristeza muitas vezes medicada e tornada opaca. Hoje opaca era eu, e minha tristeza, viva. Num momento meu pequeno me olhou. Perguntou se era sono, se era cansaço... Não cogitou que era tristeza. E dizer cansaço não está de todo errado. Às vezes a gente cansa.

Na minha exaustão olho o entorno, entristecido. Estarão todos preocupados? Todos atravessando dificuldades? Será a alegria mesmo tão pontual? Tempo de viver e resolver os problemas da vida.

Para além da arte, da palavra e dos momentos de desfrute, que será a vida da gente senão uma montanha de problemas a serem vencidos? Que o cume tenha bela vista, pelo menos... Quero aprender a vislumbrar beleza também nessa caminhada.

Sem luz

Fica dia e fica noite. Todo dia, dia. Toda noite, noite.

Hoje fiquei sem luz e por isso pude ver a luz da noite. As estrelas sobre mim todos os dias por ali, não as conheço, não identifico senão as três marias e o cruzeiro do sul. Depois soube que as três marias são o cinturão de Orion. E com sorte mais um pouco identificarei as demais estrelas dessa constelação.

Não vejo a lua. Onde estará? A noite é escura, mas nem tanto. Há de ter a fonte luminosa da noite. As estrelas lá estão, procuro seus rastros. Esse ano perdi Perseidas em dezembro. Sinto muito por mim. 

Vejo as nuvens vindo, baixas, acariciando a montanha pela lateral. Turva um pouco do meu céu. E pro lado das nuvens piscam uns vagalumes discretos. Bem mais fortes que eles, carros passam rápido pela estrada causando rápidos e fortes rastros luminosos. 

Me falta luz mas não celular. Tenho lanternas carragadas e fogão para aquecer minha água do banho. 

Quando falta luz, a luz que não falta aparece. A luz de todo dia, de toda noite. 

Assim como "amanhecer é uma lição do universo", provavelmente anoitecer também é. Quando anoiteço preciso procurar a luz possível, sejam rastros, sejam estrelas e, melhor ainda, se houver lua. A luz que ilumina minha escuridão e faz com que haja beleza nos momentos de trevas. De algum modo me acompanha até que eu adormeça e possa aguardar novo dia, iluminado.

Nossos momentos de escuridão, repletos de medo e às vezes desespero, por vezes são tão fugazes quanto as alegrias. É um tempo, é uma travessia e um atravessamento. Sabendo respirar e dar os contornos necessários, construímos nova realidade, novos valores, novo olhar sobre a noite. 

As noites sem lua pedem de nós maior recolhimento. As noites com lua nos permite enxergar melhor do que imaginávamos. Há quem confie nos olhos da alma. Eu prefiro contar com as luzes possíveis e confio nos meus olhos mesmo. 

A luz voltou. E é sempre assim. Uma hora a luz volta. Se demorar podemos perder os alimentos da geladeira... Mas é preciso saber atravessar os períodos sem luz.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Contingências

Assaltado. Levado pela enchente. Caiu da laje. Afogado. Atropelado. Soterrado.

Tragédias acontecem. 

Vamos repassando o horror para que todos saibam, para que todos vejam, para que todos sintam. 

Alguns sentem muito: optam por não ver.
Alguns sentem muito: choram, se enlutam, repassam.
Alguns sentem pouco: estão anestesiados.
Alguns sentem pouco: não acreditam ou culpam alguém.

E aqui estamos.

Em dúvida se continuaremos nós e os nossos ilesos e por quanto tempo. Eis uma questão: se os acidentes ou atrocidades não nos levarem, serão as doenças ou a falência do corpo. Tem algo desse anúncio que na verdade é a realização de um fim único. 

Não que o tempo não faça diferença. Faz. Queria eu que meu pai tivesse durado mais. Durou menos. E o que o levou não foi uma bala, uma enxurrada... Foi uma doença. Poderia ter durado mais e foi só até aquele dia. 68 anos e não 69, 70, 71... 68, precisamente. Foi o seu tempo. Tenho 39 anos. 39 já me foram garantidos. Estimo que chegarei aos 40, mas garantias não temos. Há sempre fatores externos, do horror. E o desespero ao olhar pro fim em nada prolonga ou melhora. Pelo contrário! Viver sabendo da morte para viver melhor. Viver com medo da morte é viver pior. Viver enquanto se vive é o possível e o impossível de estar aqui.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Cabelos brancos

 As mulheres têm assumido os cabelos brancos. Não me esperaram sustentar essa imagem em mim, como planejo há muitos anos. Meus cabelos brancos estão atrasados, é meu corpo me enganando sobre minha juventude. 
Algumas lindas amigas têm cabelos brancos aparentes. Eu as observo admirada. Observo a pele, o olhar, a presença e o contorno dos cabelos, alguns longos outros curtos, com os brancos ali, marcando posição no mundo. "Eu, mulher, tenho exatamente esses cabelos. É assim que sou". E reparo bem que às vezes os brancos diferem um pouco dos coloridos, tem uma forma outra, mais velha talvez.
Poderiam escolher a aparência mais jovem. É uma verdade que os cabelos brancos envelhecem? Ou seriam os cabelos pintados que rejuvenecem? Uma juventude que anuncia estar ficando para trás.
Eu tenho poucos cabelos brancos. Meu esposo com a minha idade já era bem mais grisalho que eu. Mas ele é mais velho desde que era criança. Nele os cabelos brancos chegaram cedo. 
Sinto-me jovem, algumas vezes bem mais jovem do que a realidade. Estou a caminho dos 40 anos, acho que os 40 anos que estão me perseguindo. Tão despreparada pra vida e ao mesmo tempo tão vivida. Há algo em mim, da minha história, que conta um percurso. Sou vívida em mim e nas minhas conquistas. E que fique claro que conquista não é ser medalhista de nada, é conseguir alguma sistematização sobre a travessia e seus atravessamentos.
Quando meus cabelos branquearem quero colorir de outras cores. Pensei em ser mais ruiva, pensei em serem azuis, e talvez nada disso. Estou envelhecendo pouco, meus cabelos não são brancos. E os cabelos delas, que não são meus, estão ótimos, em paz. Como será que elas se vêem? São belas, são elas! Bem assim.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Arriscando vida, sob outro ângulo

Sozinha nunca estava. O medo era meu fiel companheiro. As vezes mais discreto, às vezes barulhento, apostava na vida porque era o jeito. Vida, perigosa vida, me oferece a morte no seu avesso.

Apostava na morte, caminhando sozinha, quem sabe? É preciso dar chance pro azar. Quantos fins imaginários podem sustentar nossas práticas... Mas mesmo que haja possibilidades de não-ser, termino minha aposta viva, com vida, e tendo vivido um pouco do que tangencia a morte: entre o horror e o belo.

Vivi mortes em vida. Abandonos, solidões, crises, mordidas, desencontros, perdas, despedidas, faltas. A vulnerabilidade é uma conhecida da qual quero distância. Apesar disso quero ficar velha. Só não fica velho quem morre novo.

Eu queria que a vida fosse uma escada ascendente. Com isso aprenderíamos muito, cresceríamos e morreríamos bem. Mas, se existe uma escada a subir, alguns sobem na escada do entendimento da vida e aceitam mais resignados ou resilientes as suas condições e intempéries. O fim da vida é apenas o fim da vida, merece tanta dignidade quanto os outros pedaços. Dignidade que nos preenche e nos falta ao longo do percurso.

Com sorte teremos aproveitado os momentos em que encontramos pares, as alegrias pontuais e belezas fugazes. É o possível e precioso ar da vida.


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Arriscando vida

 Sozinha, sozinha. O silêncio me acompanhou. Caminhando e percebendo o medo de não estar só. Quando estamos realmente sós?
Quando eu era mais jovem tinha medo de levar o lixo no meu andar do prédio. Eu ia até a lixeira e quando virava de costas a sensação de que alguém me perseguia era forte demais. Cheguei a correr, outras vezes conferia se vinha alguém e, com mais confiança, conversava mentalmente comigo mesma que aquilo era uma criação minha, me obrigando a não conferir nem correr. Conseguia, fechando a porta com coração acelerado. Esse medo me acompanha muito menos intensamente. 
Já tem um tempo que penso subir montanha sem depender de companhia. E assim já fiz e amplio minhas experiências. Hoje subi o Cortiço. 
Essa montanha fica num bairro bem povoado, o acesso é muito fácil e a trilha curta. O dia não estava muito bonito e, por isso, eu não esperava encontrar nenhum montanhista por lá. Tudo estava muito úmido, o barranco vermelho exposto, logo me preocupei com acidente. E se caio? Escorrego? Pouco pra dentro da trilha eu já vivia o verde intenso e a sensação de estar longe da civilização. Mas os sons de cachorro eram muito altos e eu, que tenho medo de cachorro, comecei a pensar se aqueles insistentes latidos não eram mais um sinal pra eu não subir. O medo vai contando umas histórias trágicas ao pé do ouvido. 
Segui subindo. Parava, olhava, pensava pontos de esconderijo caso eu escutasse gente descendo. Me perguntava se estava valendo a pena... Apesar de seguir, de vez em quando parava para refletir e conferir algum barulho, já que os latidos tinham ficado pra trás. E ali, tão sozinha, eu apenas parei pra escutar. Faltava silêncio. Eram muitos pequenos barulhinhos em vários pontos da floresta. Não estava só. A floresta é viva. Não era por isso que eu estava ali? Ouvi por um tempo os muitos poucos sons que aconteciam naquela largueza verde ao meu redor. Até que, de repente, ouvi um piado alto, canto de pássaro bem localizado. Segui minha caminhada na direção dele, seguindo a trilha pra cima e, passando, deixando o som dele pra trás. E resolvi que ia, que o risco valia a pena. Pensei na morte digna. Cheguei ao cume, nenhuma pessoa, nenhum bicho, nenhum perigo real. E desci sem  encontrar pessoas, sem bichos e sem perigos. Não tropecei, fui atenta também às pedras. Os sons já não me tocavam tanto e sentia o silêncio da floresta. 
Cheguei com a missão cumprida: viva, vivíssima!

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Processo de escrita

 Escrevo pra mim. Desde que comecei a escrever eu quis escrever. Quem quer escrever tem algo a ser registrado.
Escrevi e mostrei pro meu pai, pra minha mãe, pras professoras. Meu pai tinha um defeito grande que era apontar os problemas. Então, se algo está muito bom mas tem um detalhe que pode ser aprimorado, ele aponta o detalhe. E nada mais. E se tem muito a ser aprimorado, ele tem muito a menosprezar. Minha mãe hoje valoriza meus escritos. As primeiras lembranças que tenho das leituras dela são as lágrimas. Mas não lembro desse processo incial de escrita. As professoras corrigem e dão nota. Corrigem e dão nota. Eu sempre gostei de fazer as redações apesar disso. 
Escrever me localiza. Depois olho pra mim num tempo e espaço. Leio minhas passagens, sinto com vivacidade o que me atravessava. Bem eu que não lembro de tanta coisa. Sinto e isso me conecta com esse eu que é uma construção no tempo.
Durante muito tempo escrevi pela minha solidão. Divido comigo mesma o que transborda. E troco com minhas próprias palavras buscando que outras apareçam para que haja uma travessia: começo, meio e fim. Mas muito mais meio. Eu quero chegar em algum lugar, quero caminhar pelas palavras que me ocupam. 
Hoje eu não sou tanta solidão. Sigo sendo bem esquisita, um pouco fora da curva, procurando a curva e seus limites. Mas há quem olhe pra mim, quem goste dos meus descaminhos e torça pelas minhas conquistas. E sempre que me aproximo eu vejo que a matéria prima é parecida. É do humano. 
Queria falar, comunicar, ser ouvida. Quando adolescente me perguntava como se fazem os amigos. Fiz amigos e amigas. E eram mesmo. Não deuses, amigos. Confiei que eram mesmo amigos. Não deuses, embora eu os endeuse. Os deuses de carne e osso. Decifrei um pouco dos afetos. Não é a toa que escrevo sobre as relações, os amores, os deslizes, as faltas... Tudo isso que somos nós. E um pouco confusa entre a qualidade do que escrevo e a qualidade do que sou, arrisco um partilhar. Do que sou e do que produzo. Ainda que isso não determine quem sou ou o que produzo. Mas falo contigo, confiando no afeto. No meu mesmo. Desconfio que eu não seja assim tão deslocada. Que a curva seja turva pra todos nós e torço pra que nos encontremos na esquisitisse e na falta, nossas mais sinceras verdades.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Você aprendeu a amar?

 Hoje eu estava ouvindo um livro que comentava sobre como as mulheres amam. O modo mesmo, de que maneira. E fiquei me perguntando sobre quem teria me ensinado como era ou deveria ser o meu modo de amar, afinal de contas eu sou mulher e há quem escreva sobre observações dos amares das mulheres. E embora muitas coisas me disseram sobre como uma mulher é no mundo, de repente percebi que sobre o tema do amor talvez eu estivesse muito despreparada. E o pior: não é despreparada para amar em si, mas amar formalmente falando, guias, instruções... aconteceu de eu ter encontrado caminhos por vias não muito seguras, a partir de observações e impulsos. Essa experiência criou para mim uma grande questão de quantas mil outras coisas eu fazia ou me apresentava de certas formas sem que eu estivesse devidamente preparada para assumir aqueles papéis. Por outra via, me pergunto para que funções eu estou definitivamente preparada.
A profissão que escolhi é das coisas mais loucas que esistem. Sou onde não penso, a gente estuda pra aprender a não saber. E é muito difícil, pode ter certeza. Como você vê: estou às voltas por tudo que eu gostaria de saber fazer adequadamente. Minha inadequação é, por um lado, absoluta, por outro, sou verdadeira marionete da cultura. Falam sobre como eu amo sem sequer terem me perguntado! E ainda me identifico! Um absurdo daqueles! 
Outro dia me falavam sobre o abraço espontâneo ser bem-vindo e o abraço burocrático, aquele que é dado porque assim deve ser feito, não ser. Mas a verdade é que aprendemos os momentos em que se dá um abraço como resposta. Os abraços mais verdadeiros ou mais burocráticos são todos atravessados pelo modo de fazer que aprendemos. Incorporamos esse modo de viver e ler o mundo. E até de criticar e tentar mudar os modos estruturados. 
Tão curioso... Porque queremos a autonomia de sermos nós mesmos, de termos um lugar autoral. Mas estar dentro da cultura é preciso, a forma, os limites, tentativas de dialogar com o que já é consolidado trazendo para uma discussão da coletividade. Estar fora da cultura, adquirindo formas muito próprias de amar gera desconexão, estranhamento. É o louco, assumindo uma forma muito própria, porém incompreensível. Precisamos de pequenas fissuras pra loucura entrar. Deslizes que garantem a nossa particularidade. E a legitimidade, que tem um viés legal, aquilo que participa da norma, mas também tem autenticidade, marca própria. Será assim o nosso amor?

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Viola no saco ?

 Sempre encaro situações de embate com alguma dificuldade. E sigo observando o mundo com interesse para ver se aprendo algo de novo e me posiciono na vida de forma mais interessante.
Houve um tempo em que eu trabalhava com a hipótese de um modo certo. Eu sempre fui boa na argumentação e em conquistar posições a partir da empatia do outro. Mas também sempre me encantei de alguma forma com quem se impõe e deixa o outro sem alternativas que não a de atender àquele pedido, um lugar justo e devido. As duas formas falham e venho acreditando que há situações em que cada uma dessas versões ganha mais espaço. E aí tem dois problemas. Um é que, quando você aposta num caminho, dificilmente você consegue ir pro outro na mesma situação. E o outro é, para mim, sustentar um lugar de poder e de exigência diante do outro.
Hoje vivi uma situação intensa pra mim. Está começando o tempo quente e depois do almoço fomos pra cachoeira, uma grande alegria. Ficamos lá sozinhos por um tempo e chegaram dois homens depois. Um deles, mais simpático, entrou na água, brincou com a gente, desceu escorregando com a nossa garrafa. O outro ficou aguardando. O lugar onde ele aguardava caia água de quem descia escorregando. E meu filho desce escorregando muitas e muitas vezes. 
Teve alguma dessas descidas em que a felicidade do Davi foi proporcional às queixas do cara, que levou uma aguaceira nas costas. Ele estava num local inadequado pra quem não queria se molhar... Eu o ouvi esbravejar, irritado, e perguntei se ele estava reclamando. Falou enrolado, me respondeu meio atravessado e a minha vontade era a de entrar na mesma energia dele, colocando-o em seu devido lugar. Mas me vi ali: uma mulher sozinha com duas crianças numa cachoeira sem mais ninguém. Ele, acompanhado de outro homem e de uma garrafinha de cachaça... Imediatamente recuei da minha posição de tentar reivindicar o meu lugar e parti para o absurdo oposto: perguntei se ele queria confusão pois eu não queria e, se fosse o caso, me retiraria com meus filhos. O outro rapaz imediatamente se solidarizou e foi convencendo-o a ir embora.
Pudemos brincar por mais um tempo sem eles e quando fomos embora a garrafa de cachaça estava vazia no nosso caminho, mais um sinal de como ele se coloca: sem respeitar os espaços, as pessoas e o próprio mundo em que habita. 
E é com essas pessoas que é um desafio se relacionar. Elas são muitas. Enquanto eu sou só uma mulher no mundo. Uma mulher que leva os filhos pra se divertirem numa tarde quente na cachoeira. E que se apraz de observá-los subir e descer infinitas vezes, nadar e pular, colocando a viola no saco, disposta a dizer a eles: vamos embora porque aquele moço quer confusão e eu não. Eu não quero ser a pessoa que briga, mas eu quero saber brigar se for preciso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Ypuca

Chegamos com chuva e tivemos dificuldade de finalizar o dia. A previsão era de pouca chuva mas choveu a noite toda e fomos acordados às 5 com a água entrando no colchão. Essa talvez seja a pior forma de contar que eu gostei muito da experiência de camping do final de semana. E se eu começar assim fico pensando em como o leitor me julgará insana. Mas além de gostar da ideia de causar um certo impacto, não quero que pareça que há apenas méritos e prazeres na vida. Digo também porque é verdade: dormi muito mal cuidando do excesso de água dentro da barraca para manter meus filhos dormindo bem e mesmo assim às 5 não dava mais pra ficar ali. 
Dito isso, sinto-me leve para contar o que de tão maravilhoso pode acontecer em três dias de camping que possa justificar esse desprazer e alguns outros incômodos inerentes. 

Estávamos sobre o chão e sob o céu. Assim que levantamos, tocamos a grama molhada e vivemos as cores do amanhecer, dessa vez tons de cinza. Lindos tons de cinza com espaços cada vez mais brancos e que foram abrindo buracos de janelas azuis e a chegada do sol. O rio que ontem era transparente, estava cheio e barroso. Os meninos viveram o rio logo depois de comerem um pouco de laranja lima, iogurte natural batido com morango e bolo de cenoura com brigadeiro. Na beira do rio tinha um balanço, onde primeiro sentaram e só colocaram o pezinho na água. E de pouco em pouco ficaram, "sem querer", ensopados dos pés aos cabelos e roupas e tudo. As risadas eram as mais encantadoras e mesmo que eu tivesse apenas aquela roupa, teria valido a pena.

Banho, balanço, brincadeira. Aos poucos o dia foi acontecendo enquanto todos acordavam. A segunda parte do café da manhã foi de pão e corpo, conhecendo gente e contando história. Quem dormiu bem, quem dormiu mal, vivências, gente que usou o mesmo prato que eu no dia de ontem. Partilha de geladeira, fogão e utensílios, de vida, compartilha, convive. Talvez nunca mais nos veremos, mas no café de hoje somos uma família. Não temos a intimidade nem pro bem nem pro mal. Ganhei goiaba do pé da casa deles e carreguei o celular com o carregador dele, que encaixava na tomada, já que só levei carregador de pino chato. No dia das crianças outro grupo distribuiu doces e chamou pra brincadeira de sabão na lona. Não que eu goste disso em si, mas gosto desse viver junto sem hierarquia. Das diferenças postas mas que criam laço. Na arte de comungar de um tempo juntos.

Fizemos um almoço simples e delicioso, apesar do que cada um leva, existe troca. E assim enriquecemos nossa alimentação que também tem algo de encontro. Eles aprenderam que requeijão com alho é uma iguaria super simples de ter à mesa. E olhando com compaixão nossa guriazinha com o rosto picado de mosquitos, me ensinaram a fazer repelente natural com cravo e canela. Vou tentar!

Secamos todas as coisas para um descanso merecido.

A noite daquele dia foi mais desafiadora pra mim. O mais novo tinha sono e foi dormir num horário ótimo. O mais velho tinha mais vontade de brincar que sono e me prometia avançar madrugada a dentro. Junto das outras crianças, correu muito, eles fugiam, se escondiam. Lanternas faziam seus rastros ou anunciavam presenças. E gritos e risadas! Eu fiquei velando meu pequeno, que dormia pleno na barraca. O mais velho ia e vinha, com outras crianças e outros adultos. Olhei por ele menos do que gostaria. Dentro de mim um misto de realização por sua alegria e liberdade mas também uma sensação de risco, de estar abrindo espaço para que coisas nem tão boas assim chegassem até ele. Orientei, confiei nos quase nove anos de ensinamentos e curti aquele momento tão sublime que ele estava experienciando. Chegou em casa contando tudo com brilho nos olhos. Eles receberam, no domingo, um dinheirinho para irem comprar cebolas pro almoço. Foram em um conjunto de quatro crianças. E poderia ser só isso, mas era tudo isso. Essa experiência foi relatada com muitas palavras e ampla gama de viviências. Apesar da autonomia, ainda eram crianças indo comprar cebola. Tão simples, tão possível, tão raro.

No último dia, fomos acordados às 5 com a vontade do pequeno de fazer xixi e a sinfonia de passarinhos. Tentei que ele dormisse de novo em vão, o que acordou o mais velho. Embora ele não tenha aguentado ficar até a madrugada, foi dormir tarde. No último dia vivemos música, circo, rio, encontros, arrumações e voltamos pra nossa casa. Querida e confortável casa, com meu marido, pai dos meus filhos, dentro. Que maravilha! E quanta vida levo pro meu próximo ano aguardando pelo Festival Ypuca.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Ingratos

O problema da ingratidão é que ela já é, de saída, retroativa. Ela vem de uma ação anterior à qual se deveria ser grato. E mais do que isso: mover-se no sentido de reconhecer aquele benefício ofertado.

Como  funciona a relação entre as pessoas de modo que a ingratidão seja aposta à mesa? Me parece que em geral a ingratidão vem de uma dívida não declarada ou de uma doação acima do regular, do possível, do aceitável. Quem dá, dá mais do que tem para dar e quem recebe, recebe achando que está tendo uma oferta de doação. No entanto, o que acontece é que o contrato não assinado estava implícito. Mas apenas para uma das partes. Ele foi considerado óbvio. Quem doa se sente onerado ou entende que o outro deveria fazer da mesma maneira. Mas o que eu tenho para dar não é o que você tem para dar. O que você tem para dar nem sempre eu terei. Inclusive se preciso é porque pouco tenho para dar, no entanto, se dou é preciso que seja de coração.

Quem dá de coração o faz por autorrealizacão. A realização está no ato da oferta, que sai natural, que não pede troco.

Acontece de não querermos receber algo que para o outro seria simples pressupondo o contrato do impossível. O contrato que não tem como ser pago e, mesmo que o outro diga que não há contrato, a gente recusa a oferta de modo a não contrair uma dívida.

Toda relação é desigual e sempre há um que dá mais e o outro que dá menos. Também é preciso notar que há os que sempre acreditam que deram muito muito muito e criaram dívidas enormes dentro de si. 

Existem as marcas de cada uma das pessoas: há quem muito dê por circunstâncias da vida e há quem muito retenha também por circunstâncias da vida e quando percebemos que podemos usufruir da relação que a pessoa faz com a sua própria falta deixamos de enxergar o outro pensando apenas em nós. Não é uma equação simples afinal o universo do outro é sempre misterioso.

Posso agora lhes desejar uma boa noite. E, se você nada me disser de volta, irei dormir em paz, minha oferta, mesmo tão singela, consegue vislumbrar que a essa hora você já estava em outra. Um beijo. Um beijo já é uma oferta um pouco mais avançada... Se mando-lhe um beijo que tipo de retorno me dará? Mandarei beijos fácil demais? Deveria escolher momentos mais certeiros? Quantas formas de amor medimos nos nossos encontros? Ingratos, depois de tudo que fiz...!


Prof Girafales: a senhora é tão simpática 
D. Florinda: o senhor também é tão simpático
Prof Girafales: a senhora é tão linda 
D. Florinda: o senhor também é tão simpático

Música: é isso aí - Casuarina

sábado, 4 de outubro de 2025

Né?

 Lá vou eu falando do meu pai. 16 anos sem ele e outro dia eu recebi um vídeo meu. O vídeo de eu falando da escola dos meus filhos, uma generosidade a fim de alavancar novas matrículas. E aí tem muitos desconfortos nesse encontro comigo mesma falando publicamente. Mas tem algo que absolutamente me atropelou. Eu fiquei muito, muito impressionada que eu repetia "né?" no lugar das vírgulas e pontos. Não era um detalhe era uma aberração. Imediatamente eu pensei o quanto eu seria uma pessoa melhor se meu pai vivo estivesse. Ah! Eu podia talvez não falar nada, mas falar daquele jeito inseguro e cheio das marcas dessa insegurança não. Ele me escutaria no dia a dia e apontaria o absurdo. E a cada momento ele criticaria. E eu ficaria indignada e irritada, mas perderia um pouco daquele mau gosto. Seria incômodo, mas não sei se o incômodo era ser exatamente do jeito que ele falava ou da crítica acirrada. Tudo que eu queria, ao ver aquele vídeo, era que ele tivesse me doutrinado o suficiente para me aperceber do inaceitável.
Não bastasse a sensação de vergonha de existir aquele vídeo e a ampliação desse sentimento para a minha própria existência, quando mostro pro meu marido ele não compreende qual é o grande problema do vídeo. Não consigo acreditar. E, ao final, ele reconhece como uma forma usual minha de comunicação. Oh, céus! Que horror!
E agora não sei o que é pior: o marido não acusar o absurdo ou achar tal vício de linguagem aceitável. 
Enfim, estou tentando me ouvir mais e precisar menos que o interlocutor concorde comigo. Né?

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Amor e Ódio

 Houve um tempo em que eu acreditava no amor. Esse tempo é o meu presente. Eu abro o presente e vejo que havia, ali dentro, amor.
 Houve um tempo em que eu acreditava no ódio. E olhando pra ele eu pensava: isso não é amor. E, pela negativa, o amor estava ali.
 Amor e Ódio eram nomes próprios. Eles me foram apresentados encorpados, sob uma forma, com uma roupagem.
 Aos poucos eu olhava praquela forma, aquela que me fazia reconhecer o Amor e o Ódio e elas se apresentavam diferentes, um pouco confusas. É como se os adereços estivessem trocados. Olhava sem reconhecê-los com clareza. E quem estava ao meu lado dizia: é amor. Ou então, é ódio.
Até que tudo ficou confuso de vez. As formas,.de fsto, não eram tão evidentes assim. Percebi que alguns presentes, onde o amor sempre estava, não eram assim tão bons. Esqueci de dizer: o Amor é bom e o Ódio é mau.
 Comecei a perceber que olhando de um lado parecia amor. Mas de costas ou de lado, mudava. Quando recebemos o presente, cheio de um amor que consome e que, como resposta amorosa, é preciso tudo suportar, já não faz bem, não é bom. 
Bem de quem ou bom pra quem? O bem não é quando faço a ti o que gostaria que a mim fizesse? Você não sou eu... E eu não sou você. E nosso sentir bem é tao diferente. Se respondo amorosamente ao seu presente, resta saber se tive amor próprio. E se o amor a ti, no verso, não é uma violência a mim. E se a violência a mim é amor ou ódio.
Fui conhecendo Amor e Ódio. Ambos me fazem muito bem, me dão sinais de mim mesma. Eu que também não sei bem quem sou, o que quero e pra onde vou. Dançam com uma beleza inigualável. E ficam muito bem quando ocupam, cada um, o seu lugar. A roupagem os define menos, embora às vezes ainda me confunda. As vezes se engalfinham como criança, rolando, uma confusão. Eu vou lá tentar separar. Nem sempre consigo. Claro que ficam umas marcas... E das marcas, marcos, limites. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Pedras

Há pedras, pedrinhas coloridinhas e bonitinhas
E pedrinhas mais comuns, miúdinhas fazem meu chão 
Pedras um pouco maiores sinto pontudas sob meus pés 
As um pouco maiores fazem ilhas onde saltito seguindo caminhos
E tão, tão maiores que as escalo e sento para descansar

Sinto que sou pesada
Muito pesada, muito mesmo
As roupas GG mal me servem
Sou grande, enorme, muitos lugares comuns nem têm roupas pra mim
Devo ser quase gigante
Praticamente uma aberração 

E, assim sendo, quem me aguentaria ao me dar a mão?
Pedras me aguentam, e olho pra elas pensando quem será mais pesada: eu ou ela?
Em geral, nelas eu confio
Sua força e solidez são capazes de dar-me suporte
Seguro em suas agarras confiante 
Muitas são tão estáveis que, mesmo estranhamente apoiadas, sei que meu peso em nada interfere 
Mas algumas, apesar de grandes, cedem como gangorras e me assutam com sua instabilidade 
Outras, escorregadias, apesar da capacidade de me terem, traiçoeiras, não me querem

Fui subindo o rio observando essa companhia tão variada e presente
Pedras por todo lado
Quais as pedras escolho por meu caminho?

Voltei pensando que moro entre duas grandes pedras
Numa tem se alojado muitas árvores e, mais cedo ou mais tarde, essa floresta deslizará no escorrega de pedra, ou seja, a montanha
Do outro lado vejo a pedra mais bruta e uma sorte de centenas de bromélias a enfeitando 
O chão da minha vila tem pequenas pedrinhas menores que as britas, onde meus filhos adoram derrapar de bicicleta 
E do lado de fora colocaram paralelepípedos, nada mais são que pedras retangulares... 
Percebo uma ampliação da minha percepção: o mundo é sobre pedras

Excentricidade

 Tenho uma amiga querida que gosta de cobras e lagartos. Mais cobras que lagartos. E aranhas.
Quando os outros escutam isso, muitas vezes não têm pudor em expressar seu descontentamento, incômodo, nojo. Parece que ela veio de outro planeta. 
Mas há uma chave que vira se eu mostro uma foto minha com a aranha na mão. Ou quando ela quer mostrar como a aranha se alimenta ou faz sua teia. Há logo interesse e admiração.
A amiga, muito paciente, se ri dessas mudanças de perspectiva. Observa o preconceito com tolerância ao que de fato é um pré-conceito, uma ideia sem vivência.
A curiosidade sobre o universo do outro é sempre vantajosa. Mas comer grilo, como alguns orientais, já passa dos meus limites.

domingo, 7 de setembro de 2025

Comida é pasto, você tem fome de quê?

Uns alimentos são inflamatórios. Muitos. Outros, oxidantes. Há ainda os cancerígenos e seus graus de malignidade. A cada salsicha a mais, dias a menos de vida... Comer frutas com qualquer sinal de fungo é risco de infecção grave e bombardeia o fígado. O álcool, o fumo, as drogas, tudo nos levando mais cedo ou mais tarde pro destino final.
E a lista segue crescente com tudo que devemos fazer para termos uma vida plena, saudável e longeva. E há uma lista maior ainda do que não podemos fazer.
Fico me perguntando: e se vivermos muito, muito, muito, fazendo tudo de certo, não fazendo nada de errado, ficará o nosso corpo inabalável para sempre? Comendo os alimentos certos, nossa pele seguirá com o mesmo brilho e mesma textura? Ou, na verdade, é uma conta que não fecha?
Somos um dos povos com paladar mais doce do mundo. Ou seria o paladar mais amargo e, de tanto amargor, precisa de doces para adoçar a vida?
A cada salsicha que como, eu desejo que o câncer não venha e sei que, se vier, sentirei culpa pelas salsichas comidas. Lembro do prometido câncer e me pergunto, sabendo que é um alimento cancerígeno e o comendo mesmo assim, se ele é mais cancerígeno ou eu mais responsável...
Serei também responsável -culpada?- pelos alimentos refinados que consumi e ofereci? Ou serei longeva como minha avó paterna e meu avô materno? Ou morrerei cedo e por doenças graves como minha avó materna e meu pai? 
Não dou conta das demandas alimentares e tão positivas que são menos acessíveis e menos culturais. Fiz o bolo de aveia e sem açúcar para meus pequenos. Sigo gostando do bolo farinhento e açucarado. Confesso que diminuí os açúcares das receitas. Não pela ameaça da morte mas porque eu não precisava mais de tanto doce e meu filho pedia por menos doce.
Quero viver bem com os alimentos aos quais tenho aceso. Cheios de agrotóxicos legalizados, alguns ultraprocessados, mas principalmente alimentos que eu mesma faço com os ingredientes disponíveis e acessíveis.
Você é o que você come. Quem é você?
Eu não sou o que eu como. Eu sou a Ana. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Indignos

Procuro um lugar pra mim. Há momentos em que não me acho feliz em nenhum lugar. As pessoas que fazem sentido pra mim também estão vazias de mim. Os lugares que fazem sentido pra mim não fazem sentido em si. Os sentidos, esvaziados, os lugares desencontrados e as pessoas despessoalizadas.
Minha clinica está crescendo. Faço supervisão e com ela vejo que há mesmo um valor no meu trabalho.
Meus filhos estão crescendo e, mesmo com minhas inseguranças, os vejo muito interessantes e articulados. Ao menos uma parte disso me diz respeito.
Minhas amizades são boas amizades e as pessoas com quem troco me trazem alegrias de conviver.
E a vontade de deitar numa pedra e ali me manter una com o chão, às vezes é bastante grande.
Se a vida conquistada não faz tanto sentido, a busca de novas vidas, menos ainda. O corpo que pede mais, que quer mais e mais vida. O desencontro dos corpos, as doenças que existem, limitações das mentes. Mentem. Minto. Omito.
A morte é um fim pra carne. Uma boa morte é a dignidade de uma vida. Procuro dignidade. Intensidade é colocar uma verdade onde não há sentido? Ou uma mentira tentando que haja sentido? Morreremos todos indignos?

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Festa de São João

Eu me anuncio como não-religiosa. Vivo entre o ateísmo e o agnosticismo. 

Eu não tenho mais escola há tempos. Mas a escola dos meus filhos felizmente também é minha.

E nessa escola se faz uma festa junina muito bonita, cujo ápice eu considero o ritual da fogueira. É como se fosse um registro da beleza do que acontece naquela casa, a Casa Áurea. 

No entanto, eu de reconhecer, é um ritual carregado de espiritualidade. E me pergunto intrigada, onde essas falas, dirigidas ao transcendental, me toca no meu íntimo.

Eu que, não religiosa, se há um pai nosso coletivo, me emociono.

Eu que, numa subida de montanha, sou capaz de adjetivar como "divino" algo de extrema beleza.

Eu, que visito de tempos em tempos a religião onde cresci e que de alguma forma me habita, cuja máxima que mais valorizo é a integração com a natureza.

"Senhor São João, venha receber essa festa linda que fizemos pra você. Com a santa luz divina, ilumina o meu batalhão. É humilde essa oferenda, é de bom coração." E "meu são João, meu são João, hoje será sua festa. Saldemos sua bandeira! São João mandou, são João mandou cantar e dançar a noite inteira para louvar a fogueira."

Me emociono.

Vou começar pelo óbvio: os professores da escola, que entram ritualisticamente e, passando o fogo uns para os outros, acendem a fogueira da festa. Ali são queimadas todas as picuinhas e desavenças. Mesmo que no dia seguinte esteja tudo igual. Ali eles evocam e atuam o que se pretende: que sejamos uma comunidade iluminada e quente, onde uns apoiam os outros promovendo o crescimento e desenvolvimento dessa coletividade. Fala do âmago da instituição e sua missão. É muito bonito e simbólico.

Mas tem algo de transcendente, algo nessa evocação do santo - que aliás eu acho muito honesto, já que fazemos a festa de São João nos meses de junho e nos afastamos dele chamando de festa junina. Gostamos tanto que acrescentamos festas julinas e até agostinas. Mas é originalmente uma festa de São João. É parte da cultura. E ali o cara é invocado, convidado a estar presente e presenteado. E à ele se pede a santa luz divina. 

Me emociono.

É tão difícil sustentarmos coletividades. Diferenças são nossos pontos fortes mais fracos. Temos dificuldades de relacionamento, de entendimento, de existir. Erramos querendo acertar. Não gostamos de estar errados. Temos medo de nos desestruturarmos sem um amparo egoico que garanta: eu sou. Haja santa luz divina para nos mantermos de pé. Somos seres sociais apesar de todas as dificuldades que se impõe às nossas inserções sociais. Manter um coletivo de pé com ideais colaborativos é um ato de coragem, ousadia, haja amor, força e luz para manter movimentos como esse de pé.

O santo não me invade. Ele é outro, não tem relação direta comigo. Não é nem Deus nem filho dele. Eu bem sei que se invocarem Deus eu posso passar da emoção ao arrepio. Acredito mais num santo que num Deus. Santo é aquele que, de carne e osso, conseguiu uma firmeza de propósito que conferiu a ele um reconhecimento. Eu não reconheço santidades, eu desconfio dos milagres, mas eu acredito no ser humano e na sua capacidade de transcender.

E na escola é o que é preciso: transcender em busca de um objetivo comum: a melhor educação para aquelas crianças. Uma formação integral, considerando as multiplicidades. Hoje foi essa festa! Que nossa escola consiga atravessar suas próprias pequenezas a caminho de uma santificação. Ou seria cientificação? Como me diziam: ciente fica são. É por aí!

14/07/2025

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Vazio

 Hoje eu ia ao Hospital. Eu sou meio distraída e fiquei irritada comigo mesma em ter ido para o hospital errado. Fui de ônibus e eu não simplesmente errei a parada: eu entrei, peguei meus documentos, informei o quarto e o nome da paciente. O quarto estava vazio e eu rapidamente percebi a minha gafe.

Peguei um táxi, coisa que não faço há anos. Quando sentei e pedi para me levar, senti um embrulho no estômago. Percebi, naquele momento, para onde eu estava indo. 

Fui pra emergência e me pediram para ir ao prédio ao lado. Eu parecia ter esquecido que existia o prédio ao lado. Desci a rampa com um mal estar maior ainda. Lembrei da sala de espera antes de estar nela. O tempo na fila para dar os documentos pareceu uma eternidade. 

Abriu-se um portal para um mundo melhor e mais bonito quando eu abri a porta do quarto. Estava tudo bem. Aqueles olhos conhecidos, calmos e vivos, me receberam.

E só consegui entender melhor tudo isso quando fui descrevendo minha ida, minha recusa -depois tão evidente- em estar naquele lugar.

Lembrei das sensações... Da inconformidade de que o mundo seguisse como se nada estivesse acontecendo. O minuto de silêncio é tão necessário apesar de insignificante. A vida corria lá fora de mim e eu estava num silêncio eterno. A minha vida fora sugada por aquela morte. Nada tinha cor, nada parecia bom. Nada era o que tinha de melhor. Queria me juntar ao nada. Deixar de ser.

Lembrei dos pinheiros que me observaram naquela tarde e recolheram minhas lágrimas. Contei com eles, os observei como se pudessem ser meus amigos. Neles nada era fútil, nada era inútil. E meus pensamentos de vazio eram, de algum modo, compartilhados.

Lembrei do entra e sai de gente doente, com corpos em falência, de olhar para as pessoas pensando o quanto elas estavam atravessando em silêncio e sem a chance de poder parar. Ver os olhos ativos, operacionais, sem que eles descrevessem o desespero da incerteza que o hospital traz. As pessoas vivem com cada dor escondida...

Não estive na sala onde vi o corpo dele sem ele pela primeira vez. Retirei um pouco dos cabelos dele pedindo autorização a um enfermeiro. Seria um crime a violação dos cabelos de um morto? Estão na minha cômoda. Tão vivos e tão mortos...

E essa narrativa não culmina em nenhum lugar. É apenas isso: um testemunho. Ela será enterrada junto e dentro de mim. Todas essas emoções que me pertencem, essas memórias perturbadoras que me acompanham, essa ausência infinita, foram enterradas dentro de mim para que eu pudesse me juntar às pessoas operacionais, que andam por aí vivendo com dores bem escondidas. Esse buraco que é tão grande e profundo que só saindo de perto dele para poder voltar a enxergar colorido e o mundo fazer algum sentido. Mas quando a gente chega assim: tão perto; todas as graças parecem vazias de palavras .

domingo, 27 de julho de 2025

Integridade corporal

 Um corpo acidentado chora suas marcas. Algumas cicatrizadas, outras ainda abertas, recebendo alcool 70 para que sequem e estabilizem. Cirurgias, outras cirurgias, exames e decisões dos médicos alteram os destinos do corpo. E o ser sendo carregado e sofrendo seus efeitos.
Partes menos importantes do corpo são cortadas para preencher outras partes mais importantes do mesmo corpo. 
Para ajudar no sustento do osso esfarelado, uma haste entra no centro dele às marteladas. Uma verdadeira obra corporal.
Algo de disforme marca o corpo. Era para ter cinco dedos naquela mão e ficaram apenas três. Que os dedos restantes sejam bons trabalhadores e consigam dar conta de toda sorte de movimentos necessários a uma vida funcional.
E o que será uma vida funcional? Quantas inabilidades abarcamos em nossos íntegros corpos? Uma mão com menos dedos e muito bem desenvolvida pode produzir grandes feitos. Ou uma mão com todos os dedos e sem aprimoramento, terá funcionalidades adormecidas.
Depois de tanto desencontro, de tanta dor e desconforto, que ele possa descansar em si mesmo e dormir bons sonhos, acordando exatamente no corpo em que dormiu, tendo estabilizada a imagem de si e aquilo que deseja do próprio corpo que ocupa.
Que seja um encontro leve, natural, com chances de amorosidade e respeito, companheiros que sempre foram um do outro.
Que ele perdoe seu corpo em tudo que ele for incapaz de fornecer. E vice-versa, pois ele também tem um papel fundamental para o corpo, desde sua concepção até os cuidados essenciais, exercícios que garantirão seu melhor desempenho.
Hoje ele se olha reafirmando todas as vezes: esse sou eu. Esse sou eu. Esse sou eu. Em algumas eu imagino indignações: "que merda! Esse sou eu", "é isso! Esse sou eu", "não é possível! Esse sou eu?!". Acredito que as afirmações venham na verdade de uma forte dúvida: "esse sou eu?". E apontem também para um futuro, que a curto, médio e longo prazo não garante ainda quem ele será, que possibilidades e impossibilidades o acompanharão pela vida de seu companheiro, o corpo.
Joga o braço sem vida. Mexe os dedos. Usa as unhas para se coçar. O braço que é dele e que ainda não reconhece tão bem. Mas já o inclui mais que antes. Ele, braço estranho. Mexa-se! Darei choques, levantarei para garantir o movimento. Vamos, braço! Que lhe operem. Quero ele de volta. Mas ele está aqui. 
Há uma dança de encontros e desencontros ali dentro. Ali fora. Ele ocupando seu corpo. Ele que ainda é mas que não é mais. Que aprende a viver de novo. Aprende a ser e estar. Que não sabe ainda o que vai ser. Ele é, eu garanto. Ele é naquele sorriso. Nas dúvidas e brincadeiras. Nos rolos com as garotas, mulheres de sua vida. Ele segue sendo. E revive em sua cicatrização. Fica são. E recria seu mundo.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Sem mais

E no fim, sem mais, morreremos.

Isso significa que a paz será nossa garantia.

Enquanto isso oscilamos entre o prazer e a desgraça de existir.

Os momentos de prazer são desejados, planejados. 

Os momentos ruins nos fazem querer desistir. A vida não vale a pena. São tão intensos e significativos que perdemos a noção de que há outros possíveis que chegarão. Que tudo muda, há expansão e retração, passam as boas fases e também as péssimas. 

O humano ainda tem uma característica muito interessante: a adaptação. Então, há situações que não passam, elas se tornam permanentes. Mas o nosso olhar sobre as mesmas coisas muda. O insuportável se torna suportável. O absurdo se torna aprendizado. E, diante de um mesmo caos, passamos a viver momentos alegres.

Tudo é impermanência. 

No pior dos cenários, nos ausentamos de nós mesmos. A paz é nossa última garantia.

E no fim, sem mais, morreremos.

domingo, 20 de julho de 2025

Reset

A vida é o que é. Tem momentos que nos parece tão claro, tão evidente que as coisas são como são. E vamos caminhando, observando, pensando a partir dessas perspectivas que criamos.
Mas o encontro com pessoas admiráveis nos faz ponderar.
Há vivências fortes demais que nos fazem ponderar.
Seja no amor ou na dor, temos oportunidades de novas vidas na vida. A vida não muda. Mas a gente se muda na vida. Mudam as lentes, os valores. E nós mudamos. Parece que a vida é outra, que as cores, agora tão evidentes, não estavam ali antes. Estavam. Todos os matizes estão. Mas acontece um reset. E dizemos: daqui pra frente sou outra pessoa. Sou?
As chances que temos de adentrar nessa percepção, de que há um infinito de formas de olhar pras mesmas coisas e que isso muda as coisas e que isso muda quem somos, são significativos presentes. Nos torna mais possíveis de adentrar no olhar do outro, com compaixão ou até cumplicidade. Nos possibilita menor enrijecimento quando vemos o que chamamos de realidade. E, me pergunto, até que ponto percebendo que criamos nossa realidade, o quanto podemos ser autorais nessa obra final? 
Uma parte dessa plasticidade é a resiliência. Entre a romantização do que se atravessa e o assolamento nas dificuldades há um caminho. E esse caminho, que envolve um caminhar, é justamente um dos valores da vida.
E quem sou diante dessas mudanças? Outra pessoa? Como? Se a minha história segue escrita, se eu observo o que eu era e entendo o meu lugar...? Mas agora posso ocupar outro espaço a partir do meu olhar modificado. Vida, uma máquina de moer alma. 

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Filha de peixe

Olhava para ele admirada
O homem culto, que muito lia e sabia
Centrado, racional, equilibrado
Amoroso e presente, um pai exemplar

Jamais imaginei que pudesse ser como ele
E menos ainda, que teria críticas severas
Infelizmente ele não está mais aqui
Para que pudéssemos conversar divergências
Ou para que eu tivesse a chance de conferir se o homem de que me lembro deveras se parece com o original

Ele escrevia muito bem
Derramava lágrimas dos seus leitores
Sabia usar bem o português 
E entendia modelos literários 

Se ele vivo estivesse, será que eu escreveria?
Desconfio...
Um lado meu teria doído de menos
A ausência dele me garantiu o acesso a um abismo existencial 
A um saber sobre a vida e a morte

E, sabe-se lá por quanto tempo,
Eu entenderia que não fui feita pra isso
Que não tenho tamanha destreza
Ou que minhas falhas são grandes demais

Mas teria um leitor voraz 
Um professor contumaz
Não sei se atravessaria a fronteira da insegurança 
E transporia minha sensação de insuficiência para de fato aprender algo com as críticas 

E fico aqui escrevendo e desejando poder ser lida por ele
Alguém que se interessa verdadeiramente

Quantas conversas honestas nos faltaram...
E sendo como ele sem sê-lo
Certamente com outra qualidade ou profundidade 
Hoje assumindo um lugar próprio de ser e escrever
Eu morro de saudades 
Sonho poder estar mais inteira diante dele
Apesar dele
Apesar de mim
Apesar da realidade 
E me apresento para o que dele vive em mim

J.C. 09.01.1941 - 28.11.2009 
Tão cedo.
Meus filhos estão aqui.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Envelhecimento

 De vez em quando concluo que ficarei velha. Por enquanto, é bom explicar, sou jovem. Esse envelhecimento tão dado e tão fatídico vai sendo realizado paulatinamente... Sinto que meu corpo, ainda com sinais pontuais de desgaste, não me falou bem o suficiente sobre isso. 

Não me preparei para esse processo. Não sei o que é. Parece que não vai chegar. Acreditando que, quando acontecer, eu me viro, sei que faço uma escolha falsa, a qual não assumirei no futuro. Lá na frente acho que direi: não sabia o que estava fazendo.

Lembro de meu pai que, orientado sobre as diabetes, seguiu a via das orgias alimentares. Quando o médico lhe disse: "olha, Sr José, nao sei o que o senhor está fazendo, mas se seguir fazendo exatamente assim, o senhor vai ficar cego", ele tentou com mais afinco. Sinto pena. Eu o entendo na insistência de não saber. Recusa da realidade? Qual realidade recusamos? Pergunto antes que os juízes de plantão apontem seu dedo.

Tarde demais... A diabetes fez estragos mesmo no corpo dele. Não chegou a ficar cego. Não chegou a perder pedaços de si. Morreu de câncer generalizado, com menos prazer na alimentação, com fisgadas da polineuropatia, dificuldades de locomoção. 

Mas não vim aqui falar dele. Vim falar de envelhecimento. No meu projeto ideal, quando o limite for o suficiente eu darei um jeito de não prosseguir. Esse é, era, seria o plano. Plano que foi adiado por pelo menos uns vinte anos com a chegada dos filhos. E agora me pergunto: que ponto será esse, o do limite? Terei mesmo vontade suficiente de me despedir? E se tiver motivos fortes o bastante para desejar prosseguir - apesar do corpo, apesar das circunstâncias financeiras, apesar dos maus sentimentos, dos desencontros...? E se eu valorizar os encontros, a arte, o que foi possível, os amores? 

Terei de lidar com o corpo. Que vai oxidando enquanto eu ainda o ocupo. Que não espera que eu já tenha aproveitado o suficiente. Que não me deu informações o bastante para saber o que fazer ou manual de como tê-lo melhor cuidado. 

Será que consigo um meio termo?

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Sexo frágil

Essa semana eu me vi mobilizada por duas meninas da escola - nunca sei se digo "a minha escola" ou se digo "a escola dos meus filhos".

Uma delas sente-se triste ao ser sistematicamente chamada de maluca. A outra responde com maturidade a perguntas e risinhos sobre o "bigode" que ela tem, o chamado buço.

Depois de algumas intervenções me vi chorando conversando com meus meninos como essas problemáticas se relacionam com algumas perguntas deles como "por que existe dia das mulheres e não existe dia dos homens?" ou "por que as mulheres usam sutiã?". Relatei a eles pormenorizadamente como lidei com o fato de ter buço ao longo da vida. A menina de 7 anos já dá aula: "isso é coisa de mulher, algumas tiram mas eu ainda sou criança". E dá aula a que custo? O de justificar aquilo que foi considerado como uma diferença no seu corpo. Diferença essa que não é natural. Como ela bem disse: isso é coisa de mulher. Mas as mulheres, para serem mais mulheres, precisam tirar o buço. E nessa nossa bolha de mulheres sem buço parece que quem o tem tem algo de anormal.

Achei massacrante. Assim como os sutiãs com bojo. Ou seja, o principal produto na seção dos sutiãs. Sobram uns poucos modelos sem ele. Assim como tantos produtos dirigidos às mulheres com enfoque na beleza e na produção de um corpo dito feminino mas que não corresponde ao que de fato é o corpo de uma maioria de mulheres. Ainda me lembro de um livro que li quando adolescente que mostrava uma variedade de formatos de seios. O livro dizia: todos são certos, todos são belos. De cara eu vi que era mentira. Todas as modelos de revista ofereciam outra verdade, nas revistas para mulheres haviam modelos padronizados. Ainda lembro de uma revista da Avon que vendia sutiã especial pra juntar e levantar os seios. Comprei. Era bem incômodo e eu me sentia muito mais bonita.

Lembrando de tudo isso, olhando para trás com os olhos de hoje, vejo como é massacrante ser mulher. Eu chorei. E contando de novo, chorei de novo. E eu dizia: ela tem apenas 7 anos... E pensava: será que estou muito emotiva? Será que estou pré-menstrual?

Me respondo: que bom poder ser sensível a isso que é o absurdo. Que boa oportunidade me ofereço se for por estar pré-menstrual. Sexo frágil? Vejo a fortaleza dessa guria, respondendo firme que seu corpo está correto. Eu também me tornei firme descobrindo e redescobrindo como serei mulher nesse mundo. Mas dói. Não dá pra ser mulher sem ser o sexo frágil. Não há quem resista a tanto ataque. E, por outro lado, é com muita força que lutamos por um lugar no mundo. Da insistência fazemos resistência. E mudamos o mundo.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Risco de vida

Aconteceu uma morte em trilha
Assim sendo, trilhas são arriscadas
Melhor não fazer trilhas?

Aconteceu um abuso a uma mulher que viajava sozinha
Mulheres viajando sozinhas são alvos mais fáceis 
Melhor nao viajar sozinha?

Aconteceu um atropelamento numa avenida principal
Em grandes avenidas temos muitos carros 
Melhor não irmos para grandes avenidas?

Aconteceu de uma senhora que procurava uma vivência espiritual torcer seu pé no caminho
Os caminhos podem trazer riscos para pés, pernas e tornozelos
Melhor evitarmos os caminhos? Todos ou apenas os que levam a vivências espirituais?

Aconteceu de um instrumentista ter uma lesão por movimentos repetitivos
Tocar um instrumento pode causar problemas de saúde 
Melhor que não tenhamos mais música?

Aconteceu de uma criança nascer com uma síndrome genética 
Ter filhos pode ser uma caixinha de surpresas
Melhor não termos mais filhos?

Aconteceu de eu sair para me divertir mas choveu
O que era pra ser uma diversão pode virar um grande desconforto
Melhor não sairmos mais para nos divertir?

Aconteceu de um delicioso jantar trazer uma intoxicação alimentar 
Comer coisas fora de casa pode ser bem arriscado
Melhor comermos apenas em casa?

Aconteceu... Aconteceu... Aconteceu...
O trágico acontece
Podemos evitar, podemos nos preparar, podemos aprender a julgar melhor
Podemos contratar um guia, olhar o caminho atentamente, buscar informações de segurança, fortalecermos nosso corpo, fazermos bons pré-natais, olhar a previsão do tempo, termos cuidado ao atravessar a rua, comer em locais que pareçam mais confiáveis, etc, etc....
Nem sempre vai ser o suficiente.
Coisas acontecem.
Devemos, apesar disso, arriscar viver, ousar apostar nos nossos desejos, pagar pra ver. 

Que saibamos tirar do trágico a beleza. De insistirmos na vida apesar de. 
O que parece um risco de vida não deveria virar um risco de morte em vida. Vivamos sabendo arriscar no que pra nós seja a medida certa.  Vivamos sabendo respeitar e apoiar os investimentos do outro no que toca sua própria existência.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Entre guerras e sonhos

Eu sei bem por alto, de forma bem alienada, que tem uma guerra acontecendo. A guerra tem como uma característica a matança de quem não importa a fim de tentar atingir os poderosos. 

Outras guerras acontecem todos os dias diante dos meus olhos. No microcosmo. Dessas me ocupo, me preocupo, busco saídas. Especialmente dentro de mim. Busco as palavras, as possibilidades. Não concordo com a anulação de quem quer que seja.

Recentemente eu li que, se eu não me ocupar da guerra, a grande guerra, em breve serei eu quem estará na mira dos que guerreiam. 

Num primeiro momento pensei em como me safar. Quem pode faz um ambiente seguro, protegido, um buraco onde se enfiar aguardando que o caos tenha fim.

Pensei nisso também quando falamos em aquecimento global ou, enfim, os problemas ecológicos mil - aos quais eu tenho algum acesso e controle praticamente nenhum - que nos levarão ao fim do mundo.

A seleção natural há de escolher os melhores, quero crer. E, de repente, me vejo desejosa de estar entre os melhores e, quem sabe, ter um plano incrível de sobrevivência. 

Ora bolas, justo eu que venho pensando há muito não num plano de sobrevivência mas num plano de morte. Farão um favor em não permitir que minha vida chegue ao seu natural fim, sendo interrompida de forma mais ou menos brusca antes que eu me depare de forma ainda mais brutal com a minha própria falência.

E volto a paz interior na certeza de que sigo na busca ética e tentando resolver as guerras cujos atores estão bem por aqui. Não sou muito bélica, e, nesse caso, oscilo entre a covardia de não me envolver e a realidade de me ocupar daquilo que de fato está ao meu alcance. 

Por outro lado, me encanta a beleza de uma nova forma de vida onde a sobrevivência tem outro valor, em que tudo que já esteve pronto já não é mais garantia e as pessoas serão obrigadas a conviver de outro lugar, colaborativamente, tendo uma função social relevante uns pros outros.

É só um sonho. Mais um sonho. Ter um lugar no mundo ou um mundo com lugar pra mim é mesmo algo que me faz sonhar.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Eu?

Eu fiz meus projetos
Projetos de mim
Também fui projetada 
Pensada e não pensada

E se eu tiver dado errado?
Se chegar o tempo em que
Não há mais tempo 
Para novos projetos 

Meu tempo acabou
Insisti pouco demais
Insisti demais e foi pouco
E eu não fui

Fiquei aqui
Assim, insossa
Sem um lugar
Sem uma imagem
Sem 

E se eu...?
Eu?
.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Açú

Caminhei mais uma vez até os castelos. Senti que meus passos dessa vez estavam mais pesados. Mas sempre que olhava pra trás parecia ter sido fácil. A cada passo pra dar, uma labuta. A cada passo dado, satisfação. E andando sempre pra frente sabemos que vamos chegar.

A filosofia da vida vai acontecendo dentro de mim: não importa qual a distância se o caminhante segue sua caminhada. Mas é bem verdade que se escolhe caminhos mais fáceis vai ter caminhada mais leve.

Ainda sinto um frio existencial e uma sensação de não estar pronta para sustentar, de forma absoluta, a falta de vontade de viver. E  sei que serei confrontada por questões que virão dos meus filhos, que as vezes já chegam. Quero conseguir dizer a eles que é bonito e que vale a pena. Mesmo sabendo que dentro de mim tem algo que diz: se a sua coragem e a sua vontade de desistir forem grandes demais, vai! Quero ser o vínculo com isso que fica, sabendo que algo em mim também vai, também foi, também quis e quer.

Chego. É apaixonante estar aqui. Um encontro tão verdadeiro. Parece que essa minha casa me aguardava chegar. E eu, saudosa, emocionada em estar aqui de novo. A casa que é minha hoje. Tão minha. Minha e de outros tantos viajantes. Minha hoje e ontem de tantos outros. E anteontem de outros. E é só chegar, estabelecer seu espaço, ser aqui. Como outros foram. O valor que está em não ser nem só meu e nem só deles. É profundamente nosso. E sinto como se eu realmente fosse desse mundo e esse fosse o meu mundo. O pertencimento que me falta no sistema do capital, onde vivo a questionar meu valor e lugar de existência. Parece que estou em outro mundo. Aqui o valor são umas pedras e seus mistérios. O sol poente, frio cortante, registramos tentando capturar o impossível. A minha roupa pode estar rasgada ou os cabelos desarrumados. Foi um galho. Foi o vento. 

É um chão. O chão. Onde existo sentindo que existo. Os bons dias do caminho, os olhares que hora estimulam, hora testemunham, que procuram o sol que está vindo no horizonte. Alguns são capazes de ofertar mantimentos, outros buscam alguma ajuda. 

Retorno realizada. Contando que em breve posso voltar. O que senti pouco consigo descrever. Que os Castelos abriguem a todos que vierem, que sigam nesse espírito grandioso, imutável, mágico. E que os visitantes consigam aproveitar essa energia. Que sintam que essa é sua casa. Como deveria ser todo resto, casa-planeta, homem, mulher, habitante. Veneradores do sol, dos ciclos, da vida.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Castelinho rapidinho

 Caminhei com calçados inadequados mas sentia a tranquilidade de estar num chão já conhecido. O caminho era curtinho, a terra pouco escorregadia, os declives com condições de me adequar. 
E seguia, seguia, rumo ao cume, o Castelinho. 
Os raios de sol aproveitavam as brechas da mata para me alcançar. Me invadia a sensação do belo. 
De repente passamos por uma senhora com quem sabe um neto e um guia. Subiam lentamente, a cabeça totalmente branca destoava da dos visitantes que costumamos receber.
Quase lhes desejei boas vindas mas me limitei ao sincero "bom dia" que desejo a quem também foi viver. Minha segunda casa, sempre tão acolhedora.
Chegando nas pedras vou observando se tudo está como eu deixei: arrumadinho. Vejo que ali não tem as minhas marcas. Como saberão que estive ali, fui recebida, recebi, que dormi bem ou que o sol estava forte e eu esqueci o chapéu? 
Como saberão da ventania que passou, da água que ensopou meu tênis, das vezes que me preocupei com as crianças pulando pelas pedras? E ali penso que poucos querem saber... Muitos chegam, são bem recebidos, se deslumbram. Vem e vão, não deixam marcas e saem marcados pela montanha. Outros levam tinta, levam materiais para ferir as pedras, sujam minhas paredes, violentam o sagrado que ali habita. E lamento cada nova marca de um lugar já tão marcado.
Por outro lado, naquela grama tem o meu espaço. Ali, perto da pedra, ponho minha barraca aguardando que o sol nasça naquele ponto. Na gruta, naquela pedra, na outra, nos cantos... É um lugar que me conta um pouco de caros momentos vividos por mim. Oculta restos de mim, das minhas alegrias e momentos de reflexão, como hoje.
Um agradecimento.
Meus pés beijam aquele chão.
Meus olhos recolhem um presente.
Minha pele sente o abraço.
E me despeço já com saudades de voltar. 

terça-feira, 27 de maio de 2025

Em mim

Eu estava lá 
Pensava como quem está lá 
E vivia tudo que de lá existe em mim

Logo no início lembrava
O quanto da primeira vez pareceu fácil em alguma medida
E que fui reposicionando os tempos
Os marcos de cada pedaço de chão 

E lembrei de uma gargalhada
Via num certo trecho uma cabeça sob as águas 
E naquele outro tinha ele sentado no chão me olhando cansado
As mãos dela levantadas, vitoriosa daquele momento de existência 
E ao fundo toda a beleza do mundo

Eu me via acompanhada mesmo só 
Eu que estava só estando acompanhada

Sentia a presença e a saudade

Devo informar que estive com eles?
Ou que aquele terreno ainda guarda em si memórias daquele dia?

O sol descia. 
Minha perspectiva era essa:
A de ver o sol se pôr 
E ver o sol nascer
Como acontece todo dia
Todo dia
Todo dia

E eu estou lá apenas um dia
Um dia de exaustão 
De imensidão 
Em mim
De imersão 

Em mim



terça-feira, 20 de maio de 2025

Sentido da vida

O sentido da vida...

Qual é? 


Sem essa resposta, mais moça, pensava em dar fim à minha. 
No entanto, também sem sentido para a morte, prosseguia. Eu fui inventando prazeres de viver. 
Hoje meu pequeno, de apenas 8 anos, trouxe esse sem sentido a partir da dor. Vejo que para mim, talvez para todos, a dor é o que vem mesmo pôr a vida em cheque. Dor de existir. E a vida, quando é possível ser vivida, traz o prazer de existir. 
O quanto queremos viver é que corre nas veias. Respiramos involuntariamente, o coração bate, bate, bate e tudo acontece a fim se que estejamos aqui. Alguns planejam intervenções para elevar o tempo de vida ao infinito. Nunca quis! 
O quanto queremos morrer é o quanto não queremos a dor. Não sabemos ao certo sobre a morte e tudo o mais. Um tudo tão pra sempre. A vida, finita, não diz nada sobre o infinito da morte. Aquele que está garantido ao fim do processo. Tentando aproveitar o que há.
E o que há? Eis... O quê?
Vamos falar da falta?
O nosso desejo, aquele que nos mantém vivos, fala da falta. A falta, dor, que nos puxa pra morte. A vida é uma dança.
E, dançando há 38 anos, sinto o horror de ver meu filho olhando pra essa falta, dizendo do sem sentido da vida e no sentido que a morte faz ao zerar todas as dores. 

Um lado meu se mata
Outro quer salvá-lo. 
Um lado meu concorda
O outro acha absurdo.
Um lado meu tampona
Para que ele não veja o óbvio.
Outro lado deseja vida
Para mim e principalmente para ele.
Um lado meu se desespera
Sem a certeza de que saberei dar sentido
O outro pensa: é o que mais saberei
Um lado meu é traço suicida
O outro lembra que ele é puro signo de vida

E oscilando entre a vacilação e o acerto, vou rodopiando, pulando, levantando os braços, movendo a cabeça graciosamente, abaixando e levantando, e entendendo que ele vai cada vez mais entrar nessa dança do humano, abandonando sua criancice, seu mundo encantado e se assenhorando das verdades difíceis de suportar. 

sábado, 17 de maio de 2025

100 anos

O meu avô fez 100 anos. Ele nasceu em 1925. A verdade é que nem imagino o que é ter assim tantos anos e nem espero que ninguém cuide de mim assim por tanto tempo. 
O ser humano nasce desamparado e sobrevive se cuidarmos de sua vida. E envelhece cada vez mais tarde, e para ser longevo é preciso que cuidem, cuidem e cuidem. 
Estive lá a fim de comemorar. Eu que sou tão ausente quanto sinto que meu avô foi para mim. Não por nenhum problema entre nós exatamente, mas por um certo fosso entre nossos mundos. Talvez pela diferença de gênero ou porque ele é assim diante do próprio afeto. Faz muito tempo que nossos encontros são muito pontuais. Pouco me lembro de meu avô ativo na minha infância. Lembro dos relógios que eu ganhava a cada natal. Eu usava o relógio! Desconfio se era ele quem escolhia... Depois passei a ganhar dinheiro.
E hoje tenho filhos que têm bisavô. Eu não conheci nenhum dos meus. Eles também pouco conhecem o velho Altino. Parecem tê-lo como paradigma de o que é uma pessoa com muitos e muitos anos, já mais próxima da morte. De vez em quanto me pedem garantias: quem morrerá primeiro na nossa família será o vovô Altino, né? E sou obrigada a dizer que embora seja provável, não é sempre assim. Meu pai é minha maior prova disso. Pra eles é difícil entender por quê têm bisavô mas o avô se foi... Pra mim também passa algum registro do injusto e inexplicável da vida.
Comemos boa comida, havia flores e sorrisos. Todos tentaram conviver harmoniosamente apesar das tensões geradas pelo simples encontro. Pouco simples, na verdade.
Ele ficou feliz. Parecia mesmo satisfeito com tudo aquilo. E me pergunto sem conseguir adentrar nesse universo: feliz de quê? Feliz como? Feliz? Eu consigo entender tantos "apesar de" a partir dos quais se possa ter felicidade aos 100 anos. Mas confesso que, se por um lado eu fui para me fazer presente e que, assim, ele se sentisse feliz ou mais prestigiado, eu pouco consigo alcançar esse encontro como algo a ser deveras computado. Mas fez marca para mim e para a família.
Percebo que de forma geral as pessoas muito mais se relacionavam entre si que com o aniversariante. Houve um momento, após o corte do bolo, em que o vi sozinho. Todos matracando e ele comendo seu bolinho. Sentei ali e tentei inventar um assunto: "e aí, Vô? De que você se lembra de quando tinha essa idade?" E apontei pro Davi, que brincava animado com a cadeira de rodas. Meu avô rapidamente trouxe as imagens dele com os amigos descendo ladeiras com carrinhos de rolimã. Me explicou sobre o volante precário e a ausência dos freios. Faziam um calombo de areia para dar uma certa freiada no final da rampa e eram lançados. Os mais habilidosos saiam de pé. Chamei Davi para escutar a história que veio com ainda mais detalhes. Ele ficou animadíssimo de olhar pro menino Altino, um personagem que parecia nunca ter existido e disse: "nossa! Parece bem divertido mas bem arriscado!", e o vovô concordou com sorriso no rosto. Comentei um pouco como que a infância mudou de lá pra cá. Por um lado mais protegida, por outro, passaram a ter as marcas da tv, dos videogames, dos celulares, cada vez mais segura dos perigos das ruas, com corpos sem tônus e sem risco e mentes vulneráveis e viciadas.  Percebo que, nesses flashs de encontro, o sentido existe. O fato de que ali estavam as filhas dele, a família do irmão dele - que faleceu nos últimos anos...-, alguns dos netos e também os bisnetos, de alguma forma é a comemoração de todas as nossas vidas. Sem ele não teríamos nós. Ele faz parte do que é um ponto de origem, uma parte de história, um traço ancestral. Algo do que funda ele é transmitido a cada um de nós, sem que saibamos exatamente o quê. Algo que vive nele desse acumulado de 100 anos de vida e perpetua. E a história segue seu rumo. Segue seu rumo. A vida e a morte se entrelaçando. E percebo que eu estou aqui, presente, envelhecendo ano após ano, atravessando um tempo em outro tempo. Se passam os anos... Comemoramos. 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Gostares

 Quando eu gosto muito de alguém eu dou a ela atenção 
Mas atenção demais é melação (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu dou a ela espaço 
Mas espaço demais é abandono (?)
Quando eu gosto muito de alguém eu dou a ela presentes
Mas presentes demais são vazios (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu saio bastante com ela
Mas sair demais é evitar o espaço íntimo (?)
Quando eu gosto muito de alguém eu gosto de ficar em casa juntinho
Mas só ficar em casa juntos dá uma sufocação (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu digo a ela a verdade
Mas só verdades, quem poderia suportar?
Quando eu gosto muito de alguém eu tento deixar tudo colorido 
Mas sem atravessar as dificuldades da vida há relação?
Quando eu gosto demais de alguém eu preparo para ela as melhores iguarias
Mas comida não pode ser o único afeto que nos sustenta (?)
Quando eu gosto muito de alguém eu permito que ela invada meu espaço para não se sintir ferida
Mas desde quando relação abusiva é o que eu chamo de amor?
Quando eu gosto demais de alguém eu quero que ela goste dos meus gostos
Mas e se ela não gostar tanto assim?
Quando eu gosto muito de alguém eu quero ser vista e ouvida na minha singularidade.
E somos capazes de encontrar o outro em sua singularidade?
O que se dá nunca é o que o outro quer. O que o outro quer, em última instância, nao temos pra dar. Escolher nossos amores é uma arte. Receber o amor do outro é uma arte.

Quando a gente gosta de alguém é preciso muita paciência, tolerância, vontade de encontro, ver graça na diferença. O outro não é um espelho. Ou nao é apenas isso. E quem sabe podemos amar e ser amados apesar de.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Um amigo vivo

 Existem pessoas irresponsáveis. Todas são. Porque não é possível responder por tudo. No entanto, há algumas que vão se irresponsabilizando ao infinito. E, no limiar entre a irresponsabilidade, o azar e a tragédia, um motociclista empina sua moto na contramão e atinge outra pessoa. Ele responde pelo seu crime abandonando seu corpo contorcido no chão. Não está mais presente para que possamos xingá-lo ou para ver a quantidade de problemas ele causou num corpo alheio.

O corpo alheio é do meu amigo. Foi atingido pela moto. Tangido por uma brincadeira irresponsável... "Que saudades", é o que digo a ele todas as vezes que nos falamos. É um amor antigo e especial na minha família. Com ele temos diversas fotos maravilhosas que nos lembram os bons momentos vividos e registrados. Nossas conversas madrugada a dentro, o olhar que recebe reciprocamente de forma tão vasta. Hoje recebe no corpo bastante dor, diversas cirurgias com ferros que possam substituir seus ossos.

As responsabilidades que ele assumia estão com cargo aberto para quem possa fazer muitos dos seus feitos até mesmo em termos de auto-cuidado. Alguém que lhe escove os dentes, após tanto tempo tendo assumido essa função consigo mesmo. 

Vivo. Ele reocupará um lugar. Tendo tido a chance e a dor de não ocupar mais. É uma morte em vida onde o corpo sofre reconstituições e a vida também precisará tomar outra forma, ainda que ele escolha por reassumir exatamente de onde parou. 

Quando ele voltar a escovar os próprios dentes, a mão que segura a escova não será a mesma. Ele precisará aprender a segurar de novo. E ele sentirá a dor de conseguir. Poderá escovar os dentes com autonomia, observando, entendendo, de quantas graças se faz uma escovação de dentes.

As relações assumiram pausas. É bem verdade que, como ele está vivo, as pessoas se fazem presentes. Mas é uma presença diferente. Um reencontro de muitas possibilidades. De coisas que não foram ditas e agora serão. De cuidados que não foram postos e agora aparecerão. De dívidas e saldos...

De quantos desvios de rota precisamos para validarmos e considerarmos a preciosidade de estar vivo? O que é encontrar o outro, vivo como eu?

segunda-feira, 31 de março de 2025

Tudo prontinho

Quando eu vim para esse mundo ele já estava assim: prontinho. As coisas funcionam muito bem e sinto-me bastante adaptada.
As idas pra montanha me fazem pensar num outro tempo, de coisas menos prontas.
Quando fui na primeira tempestade o sentimento foi de desespero. O que desespera é o despreparo. E se eu ficar molhada? E se me perder sem abrigo? E se não souber me defender? Eu fui desavisada.
Mas no meu mundo há previsão do tempo. Hoje eu olho a previsão do tempo - que ainda erra muito - e com ela me organizo. Uso de plástico para me abrigar e para proteger as coisas. Não me orgulho disso mas o plástico ocupa lugar central para nossa sociedade, essa desse mundinho onde caí em 1986. 
E, aprendendo a enfrentar a chuva e o frio, me pergunto sobre o secar. Na montanha não tem varal. Chego em casa e a água chega encanada numa máquina que lava minhas roupas molhadas e as estendo numas cordas para que sequem logo. Um dia inventaram o varal. Antes faziam como faço na montanha: estendo sobre uma pedra bem exposta ao sol e, se tivermos num dia bem quente, rapidinho resolve aquela uma ou duas peças de roupa.
Aos poucos fui pensando em mim. Eu também tão prontinha. No momento talvez minha melhor versão de mim mesma, venho me esmerando nesse propósito.
Eu e meu mundo, tão estáticos e tão mutantes. Há um tempo não havia celular. O feminismo também avançou tanto nos últimos tempos e nos perguntamos sobre nosso lugar acompanhando esse zeitgest. Achando, eu mesma, que penso e sou, quando na verdade isso também é uma mistura do que sou pensada e do mundo que se apresenta pra mim. Nós e nossas questões.
Quanto de mim é mutável? Quanto de mim é possível avançar? O quão prontinha eu realmente estou? E o quanto sou capaz de avançar na direção do que eu acredito e que acreditam por aí?
Quero estar pronta pro impossível. E assimilar o inassimilável. Percebendo que o desespero de um tempo é o prazer da vivência em outro, estando pronta para atravessar as adversidades.

 É preciso saber viver!

"Quem espera que a vida
Seja feita de ilusãoPode até ficar malucoOu morrer na solidãoÉ preciso ter cuidadoPra mais tarde não sofrerÉ preciso saber viver
Toda pedra do caminhoVocê pode retirarNuma flor que tem espinhoVocê pode se arranharSe o bem e o bem existemVocê pode escolherÉ preciso saber viver
É preciso saber viverÉ preciso saber viverÉ preciso saber viver
Saber viver."

quinta-feira, 6 de março de 2025

Mulher na montanha

Hoje foi dia de mulheres
Mais para loucas
Seres com quereres
De horas poucas

Subimos atrasadas 
Um tanto atarantadas
Nos perdemos no caminho
E encontramos um boi sozinho

Boi não, vaca!
Pensamos se era mana
Mas tememos: bruaca!
Tratamento tão sacana

Tocamos ela da frente
A gente com medo dela
E ela com medo da gente
Nos esgueiramos com cautela

Subimos o morro com lanterna
O escuro não nos afugenta 
Entre nós energia terna
De um lado calma e de outro atenta

Os assuntos muito construtivos
Desde amigos e família 
Até menstruação e meditativos
Relação de amigas, pura poesia

E chegamos muito sozinhas
As estrelas lindas, um céu tão forte
Partilha de coisas minhas
Entre o receio e o apreço pela morte

Nossa barraca, nossa segurança 
As comidas gostosas que partilhamos
Vivendo do presente e de lembrança 
Essa energia que dali levamos

Os vagalumes, o silêncio 
Valorizamos cada momento 
Recarregando, me reverencio
Aproveitando esse sentimento 

Olho para mim, me localizo 
Olho pra fora, objetivo 
E volto enfim, me autorizo
No meu universo me realizo


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Banal cotidiano

 Ontem eu fui numa médica para que ela avaliasse meu tímpano. Por conta do horário fui sozinha e de ônibus.  A primeira surpresa foi o quanto ouvir música com fone no ônibus me transportou para outro tempo. Depois tive o prazer de andar no meu ritmo acelerado de sempre - de um sempre que já faz tempo, de quando não tinha filhos. E depois, quando retornei, eu atravessei a rodovia super leve mas desci a trilhazinha pensando que era bom não escorregar ali porque não teria ninguém pra me ver e eu ficaria ali estatelada até sabe lá quando. E percebi como que, mesmo tão pequenos, andarmos juntos também me confere alguma segurança. Depois fui chegando na rua do bairro e me aproximando da ponte vermelha senti um vazio. Tantas e tantas são as vezes que chego ali com os meninos. E zelo pela segurança deles exigindo que não fiquem no meio da rua e topo as brincadeiras deles e todas, todas, todas as vezes pelo menos um deles cata uns galhos pelo chão para jogar no rio e avaliar os efeitos. E tinham galhos caídos e tinha o rio e a ponte... E um silêncio... Um triste silêncio, confesso. Por muito pouco não peguei eu mesma um galhinho para jogar no rio e cumprir com a beleza daquele momento. Mas a beleza não está no galho, não está no jogar, nem no rio em si. A beleza somos nós vivendo esses momentos de rotina e usufruindo da beleza das águas que levam galhos, dos galhos que encalham, dos ditos cuidadosos repetitivos, no observar se tem alguma nova teia de aranha por ali e, assim como cada galho faz um caminho segundo a corrente de água onde ele cai, cada vez que passamos, tão iguais e tão diferentes, fazendo as mesmas coisas mas de uma forma única até o dia em que esses passos não serão mais a nossa rotina, foram mudando, mudando, e ficarão as tão boas lembranças desse cotidiano banal que hoje me fez falta.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Usando fones

Hoje fui ao centro da cidade de ônibus. Arrumando minha bolsa para sair peguei o celular, que estava tocando uma música, e tive a brilhante ideia de levar os fones. 
Assim que botei os pés para fora do portão me transportei para um tempo tão jovem. Eu ia dizer leve, mas eu bem sei que não foi uma época exatamente leve. Embora tenha vivido muitos momentos importantes nessa época e muitos prazeres tanto intelectuais como no campo afetivo - época em que me casei e também fiz amigos que até hoje me acompanham - também foi tempo de uma depressão mais significativa e de muitas angústias e ansiedades. 
Mas nesse tempo em que eu era uma mocinha, eu ouvia música no metrô e ela fazia aqueles momentos de desumanidade parecerem aceitáveis e até prazerosos. Era o tempo em que eu parava de servir à empresa e podia voltar a ter meu corpo para mim mesma. E cansada eu ia para a faculdade animada com algumas aulas e entediada de outras. Eu também ouvia música, e às vezes ouvia e estudava, no interminável trânsito da ponte Rio-Niteroi ou no retorno para casa. Eu tinha esses tempos de locomoção marcados pela música que me alcançava pelo fone. Era diário. Também foi a época em que ia pra Barra fazer minha terapia e falar sobre como a vida é um absurdo. É difícil se conformar... E eu ia e voltava ouvindo música. As vezes ouvindo e chorando. As vezes ouvindo e escrevendo. Eu gosto das músicas e de análise. 
Mais recentemente eu olhava as pessoas com seus fones e as julgava auto-centradas. Cada loucura...! Eu praticamente esqueci o que é essa rotina da locomoção por condução. Desse silêncio ou dessas vozes, dessa monotonia do mesmo todo dia. E que nem sempre a gente quer mesmo ouvir o mundo. Hoje, esse momento no ônibus é pra mim também de liberdade, de paz, de estar em mim sem ter que dar conta dos meus pequenos. E coloquei meu som baixo para viver o caminho, as vozes, o ritmo da rua de forma mais presente. Experimentando um pouco do que sou e do que fui, se atualizando no meu agora, o meu presente.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Uma rica viagem de pobre

As férias estão acabando e esse ano tivemos a ideia de ir para Paraty com nossos pequenos. Juntamos um dinheiro de presente de aniversário e, tendo visto uma boa promoção de hospedagem, foi um tiro certo. Sabíamos que era um destino caro e que, não tendo reservas para arcar, nos organizamos para aproveitar de outra forma.
Agora, após toda a situação vivida, consigo olhar o cômico ao lado do trágico.
Da última vez que fomos a Paraty éramos apenas um casal e a vida sem filhos sempre foi muito mais suave. Sabendo da distância maior e dos problemas que chegam com ela, optamos por aproveitar o primeiro dia fazendo paradas pelas praias do caminho. Fiz as pesquisas, preparei um roteiro e na primeira parada todos estavam eufóricos. Mas a praia era dentro de um condomínio onde o carro não podia ficar, nos obrigando a fazer uma descida a pé que se transformava numa subida de retorno. Apesar desse detalhe, o caminho era bonito, passava por uma linha férrea e, por sorte, o trem passou bem quando estávamos atravessando. Passamos logo e esperamos do outro lado, ouvindo o som ensurdecedor de seus intermináveis vagões de carga. No caminho tinha um corredor de floresta, o trem, um parquinho colorido, casinhas simples e praianas, tudo bem bonitinho e, finalmente, o mar.  Para meus meninos não era perfeito pois tinha poucas ondas mas certamente dava pra aproveitar muito. Entraram logo, e eu fiquei animada em pegar uma pequena trilha pro topo da pedra lateral da praia mas após poucos passos percebi aguas vivas na areia. Voltei avisando do risco e acabou a graça da praia, voltamos pro carro após a tal subida de retorno. 
Optamos por pular a segunda parada e investir na terceira, comemos no carro e em menos de uma hora estávamos prontos para a próxima. A parada era dentro de um resort e ele contava com uma piscina natural feita de pedras. Mais uma vez o carro precisava ficar na porta e essa descida era ainda maior que a primeira. Apesar de ter valido muito a pena, mal chegamos lá embaixo observamos que os óculos de piscina haviam sido esquecidos no carro. E eles eram muito importantes para a proposta. Passamos sem eles. Foi incrível nadar entre os peixinhos, pegar onda na praia - dessa vez esse quesito foi aprovado - e, depois de tudo, tinha banheiro e ducha de água doce. Tudo isso por zero reais e uma ladeira responsa.
Muito satisfeitos e tendo ficado mais tempo que o planejado, seguimos viagem lamentando ter que sair. A próxima parada já estava comprometida pelo avançado da hora mas mesmo assim demos uma olhadinha. Era a praia do laboratório, uma praia quentinha, com água aquecida pela Usina Nuclear. Já sabíamos que não daria para entrar, apreciamos a beleza e seguimos viagem. Nesse momento entrei em contato com o rapaz da hospedagem para saber se seguia sem luz - eu já sabia do problema e tinha fé de que resolveriam pois era o terceiro dia. Nada! Sem luz ainda eu tinha como plano b seguir até Ubatuba, onde contamos com hospedagens mais baratas. Enquanto encaminhava a reserva, um dos filhos reclamava do cansaço do dia e de querer dormir. Ponderei a distância a mais e optamos por tentar algo por Paraty mesmo. Aqui começam problemas mais complicados. Um local aceitável para ficarmos e apenas um pouco mais caro cobraria taxa de limpeza e só fazia sentido pegarmos todo o período de hospedagem com eles. Agendei as três noites, coloquei o endereço no gps, indiquei que estávamos próximos e com crianças cansadas no carro e, nada do endereço! Rodamos, procuramos, nada de achar o número. Entrei em contato mais uma vez, nada de me mandarem a localização. Como eles pediram um depósito calção para possíveis perdas materiais, eu estava desconfiada de golpe. Felizmente eu não havia feito o calção e cancelei a reserva. Com as crianças cansadas segui para nova tentativa e fiz nova reserva, dessa vez para uma diária. Mais uma vez entrei em contato informando as crianças cansadas no carro e, dessa vez, a pessoa me respondeu muito solícita mas informando que não poderiam receber pois estavam sem luz. Rolou um desespero. Duas reservas presas no cartão de crédito, nenhum lugar pra dormir, dois pequenos exaustos. Não fosse um destino em que o centro possui diárias com cifrão de 4 dígitos, resolvíamos entrando no primeiro quarto que aparecesse, mas era preciso respirar e encontrar algo possível. Na terceira tentativa conseguimos o contato no google e fomos para lá sabendo que havia luz e pagaríamos diretamente à hospedagem. Chegamos já era mais de 21h. Descarregamos as coisas, crianças tomaram banho e dormiram. Já haviam comido no carro e também tínhamos passado numa padaria para comprar o pão do dia seguinte. Foi tenso. Dormimos com duas contas penduradas e uma hospedagem que custava mais de 2/3 do nosso total de 3 noites.
Acordamos tentando resolver as hospedagens no cartão enquanto os meninos ficavam na piscina. A moça da hospedagem foi de grande ajuda, muito solícita. Sem retorno definitivo, arrumamos nossas coisas entendendo que voltaríamos para casa embora meu pequeno dissesse: "mas eu arrumei quatro roupas", reivindicando os quatro dias prometidos. Quando estávamos quase terminando tudo recebi mensagem do rapaz da primeira reserva, a luz havia voltado e, embora ele já havia me devolvido o dinheiro, sabia da nossa situação e disponibilizou a casa ainda que pagássemos depois e quando pudéssemos. Ficamos felizes e aceitamos a oferta. Passamos o dia na praia tendo pagado apenas por água e os 40 reais de estacionamento - isso! 40 reais para deixar o carro numa grama e tomar uma ducha ao final do dia. Felizmente eu estava bem organizada e ainda tínhamos fartura de petiscos. Como tivemos que arrumar as coisas na pousada, chegamos na praia mais tarde do que desejávamos. Fizemos trilha pra uma primeira praia e mais uma trilha para a piscina natural. E na volta as ondas estavam perfeitas. Ficamos lá o resto do dia e tivemos dificuldade em aceitar que era hora de ir embora. Foi um dia de bastante chuva, mas o calor nos ajudava a ficar. Quando conseguimos partir, usufruímos da ducha tirando todo sal e areia e, como tinha porta, trocamos de roupas, fomos ao mercado reabastecer suprimentos pensando nos próximos dias e fomos numa farmácia comprar pomada para auxiliar com as pernas assadas. Eu já sabia que era preciso uma caminhada do carro para a casa, mas não sabia o quanto. Vimos o vídeo de como chegar e ponderamos se a dificuldade era aceitável. Chovia muito e eu morro de medo de deslizamentos e sei que é uma área bem comprometida, assim como Petrópolis, então perguntei sobre riscos de deslizamento e alagamento e como ele nos disse ser seguro, fomos ver. A chuva era muita e a subida também. Longa subida de asfalto, um medo danado, as ruas que cruzamos jogavam fora aquela água toda barrenta e a subida que não terminava. Não estivéssemos de noite, com duas crianças e a 5 horas de casa, certamente iríamos embora. Gastar mais dinheiro com acomodação não era cogitado.
Chegamos. Ele sugeriu deixarmos o carro na porta do sítio mas quisemos avançar um pouco para andar menos na chuva. De fato o piso era para um 4x4 e tivemos que voltar de ré. A distância para a hospedagem era razoável e não havia iluminação. Com muita chuva pegamos as capas de chuva, separamos o fundamental para que os meninos pudessem tomar banho, comer e dormir e o resto decidiríamos depois. Nos pusemos a andar naquele piso irregular com a lanterna do celular. Depois de poucos metros chegava uma ponte, ponte pensil. Conferimos o cabo de aço que a sustentava, o barulho do rio bravo pelo excesso de águas, mas antes do meio da ponte desistimos. "Vamos voltar, vamos pra casa! Está demais!" Ainda retornando pensamos no caminho de volta, chegaríamos por volta de 1 da manhã passando pelo Arco Metropolitano, onde sabemos que é arriscado passar de noite. Ponderamos: meninos cansados, ponte, chuva, bagagem ou Arco Metropolitano de madrugada, 5 horas de eles dormindo no carro... Voltamos decidindo que era definitivo e enfrentaríamos o medo e as dificuldades de estar ali. Passamos pela ponte decididos, ouvindo o rio urrando para nós e entoando o mantra da normalidade: "é assim mesmo. Aqui é assim mesmo..." Prometi que eles não passariam mais pela ponte com chuva e de noite. Nos perdemos um pouco pelo caminho mas nos achamos logo depois. Chegamos aliviados e... Estava sem água. Nem uma gota. E, para além do banho, que era muito desejado, não compramos água sabendo que havia filtro e água de mina. Tínhamos suco, água de coco, achocolatado, tinha leite e café, tinha uma coca na geladeira e angariei com uma vizinha algo entre 150 e 200 ml de água, a última que ela tinha saindo pela torneira. Seu Beto disse que tentaria resolver a questão já que sabia ser um entupimento nos canos pelo excesso de chuvas. Não deu. Ficamos sem água. Comemos pizza e bebemos o que tínhamos, coletei água da chuva para enxague bucal após escovação dos dentes e pequenas lavagens. Todos fizemos xixi fora da casa e tentamos segurar o cocô para o dia seguinte. Enquanto eu agradecia a ducha da praia e colocava os meninos para dormir, André voltou no carro sozinho para buscar outra parte da bagagem para minimamente passarmos a noite. Os meninos foram incríveis. Corajosos, compreensivos, de bom humor. Iuri demorou mais para dormir, reclamou que a minha orelha que ele gosta mais estava do outro lado. Davi apagou rapidamente. 
7h da manhã tinha água. Foi um alívio. Tinha também sol, galinhas no quintal, um pessoal trabalhando massa para subirem paredes. Assim que nos viu, o vizinho avisou que resolvera a falta d'água. Já sabíamos. Falou de um laguinho, nos deixou bem a vontade. Ainda precisávamos pegar a mala principal. Pegamos um carrinho de mão,  
Passamos a porteirinha, subimos um pouco, descemos, chegamos na ponte, vimos. É estranho passar numa ponte de noite com chuva, ouvindo as águas e passar. Ver era tão fundamental. Vimos a ponte com clareza, as águas correndo sob ela com o sol acima de nós, ouvimos o som, já mais ameno. E atravessamos. Subimos mais um trechinho de chão de terra e pedras,  chegamos no carro e pegamos a mala. Voltamos pra casinha com ela, nos arrumamos pra praia e fomos ver o laguinho, a descida pra cachoeira, o vão entre nossa forma de viver e a deles. Voltamos pro carro e fomos pra praia. Mais 35 reais de estacionamento. Na terra. Com uma ducha única e aberta. 
Pelo menos a praia era linda, os meninos não gostaram tanto porque não tinha ondas. Mas a peculiaridade era um rio largo que chegava nela, tinha bancos de areia e uma tranquilidade que nos abraçava. Aproveitamos o dia ali o mais que pudemos. Atravessamos o rio, brincamos com barquinho atracado, brincamos nas ondas do banco de areia, depois do rio caminhamos pro final da praia, onde não ia mais ninguém e vivemos uma solidão diferente, a insegurança de estar onde a gente nunca está e onde raramente alguém está. Combinamos que não íamos chegar de noite na casinha e precisamos ir embora, mas não conseguimos ir direto, passamos no centro histórico para os meninos conhecerem. A quantidade de ambulantes era imensa. Iuri escolheu um cordão de pedra que brilha no escuro e segue com sua preciosidade noite e dia. Davi preferiu um carrinho e julga que ele é de colecionador e muito especial embora tenha fricção. Repus pães e sucos e chegamos com muito pouca luz. Foi ótimo, estávamos bem, a chuva ainda não tinha chegado, na casa tinha luz e água. Foi uma ótima noite, pena que o dia seguinte já era o último. Depois de os meninos dormirem já iniciamos a arrumação e logo fomos descansar. 
O dia amanheceu chuvoso, terminamos de arrumar tudo. Entregamos nossas cascas de frutas pro Seu Beto dar aos porcos e os meninos se divertiram dando pães aos patos. Já estava tudo bem esquematizado e pegamos o carrinho de mão para levar as bagagens. Fizemos duas viagens cansativas e divertidas, com disputas de quem leva o carrinho de mão. Todos num misto entre lamentar ir embora e festejar o retorno ao lar. 
Combinamos voltar parando pelas praias mas dessa vez eles queriam ondas. Ondas de verdade, segundo eles. A primeira parada -praia de São Gonçalo- foi evitada por ter o custo alto de estacionamento. Como se pode ver, fico indignada em pagar caro para deixar o carro ali. Ainda mais num dia chuvoso e para ficar pouco tempo. Seguimos e a segunda parada também não funcionou. Era a Praia Vermelha, mas embora as vagas fossem gratuitas estavam todas preenchidas... Acabamos parando na Praia Brava, dentro de um complexo para moradores que trabalham na Usina. Foi ótimo. Eles pegaram muita onda e não queriam ir embora. Mas tínhamos que ir.
Seguimos com o propósito de ir na praia do laboratório e no observatório da Usina. Mas após  a ótima visita ao observatório, vimos que a praia tinha ficado pra trás. Deixamos pra próxima. E, para não pegar o Arco Metropolitano de noite, optamos por seguir sem paradas e chegamos em casa pouco antes de 20h. Foi ótimo, as dificuldades trouxeram uma beleza à viagem pois nos exigiram um certo rebolado e o companheirismo para passar por elas e pudemos estar naqueles lugares lindos, usufruindo, vivendo e contando mais essa história. Uma história sem restaurantes ou porções na praia. Mas comemos pizza caseira, empadão, lasanha, pão com linguiça... Enfim, uma série de organizações prévias que nos garantiram bem estar por lá. Resta ainda resolver os pagamentos presos no cartão. Todos parecem bem intencionados, mas ainda não consegui resolver o extorno dos pagamentos de onde não ficamos...
E penso como existe beleza...! Tirando esses valores presos no cartão eu repetiria tudo, tudinho. Valeu muito a pena. E crescemos enquanto família vivendo intensamente esses quatro dias.