quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Natal
sábado, 20 de dezembro de 2025
Tristeza
Tristeza não tem fim, felicidade sim.
Sem luz
Fica dia e fica noite. Todo dia, dia. Toda noite, noite.
Hoje fiquei sem luz e por isso pude ver a luz da noite. As estrelas sobre mim todos os dias por ali, não as conheço, não identifico senão as três marias e o cruzeiro do sul. Depois soube que as três marias são o cinturão de Orion. E com sorte mais um pouco identificarei as demais estrelas dessa constelação.
Não vejo a lua. Onde estará? A noite é escura, mas nem tanto. Há de ter a fonte luminosa da noite. As estrelas lá estão, procuro seus rastros. Esse ano perdi Perseidas em dezembro. Sinto muito por mim.
Vejo as nuvens vindo, baixas, acariciando a montanha pela lateral. Turva um pouco do meu céu. E pro lado das nuvens piscam uns vagalumes discretos. Bem mais fortes que eles, carros passam rápido pela estrada causando rápidos e fortes rastros luminosos.
Me falta luz mas não celular. Tenho lanternas carragadas e fogão para aquecer minha água do banho.
Quando falta luz, a luz que não falta aparece. A luz de todo dia, de toda noite.
Assim como "amanhecer é uma lição do universo", provavelmente anoitecer também é. Quando anoiteço preciso procurar a luz possível, sejam rastros, sejam estrelas e, melhor ainda, se houver lua. A luz que ilumina minha escuridão e faz com que haja beleza nos momentos de trevas. De algum modo me acompanha até que eu adormeça e possa aguardar novo dia, iluminado.
Nossos momentos de escuridão, repletos de medo e às vezes desespero, por vezes são tão fugazes quanto as alegrias. É um tempo, é uma travessia e um atravessamento. Sabendo respirar e dar os contornos necessários, construímos nova realidade, novos valores, novo olhar sobre a noite.
As noites sem lua pedem de nós maior recolhimento. As noites com lua nos permite enxergar melhor do que imaginávamos. Há quem confie nos olhos da alma. Eu prefiro contar com as luzes possíveis e confio nos meus olhos mesmo.
A luz voltou. E é sempre assim. Uma hora a luz volta. Se demorar podemos perder os alimentos da geladeira... Mas é preciso saber atravessar os períodos sem luz.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Contingências
Assaltado. Levado pela enchente. Caiu da laje. Afogado. Atropelado. Soterrado.
sábado, 13 de dezembro de 2025
Cabelos brancos
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
Arriscando vida, sob outro ângulo
Sozinha nunca estava. O medo era meu fiel companheiro. As vezes mais discreto, às vezes barulhento, apostava na vida porque era o jeito. Vida, perigosa vida, me oferece a morte no seu avesso.
Apostava na morte, caminhando sozinha, quem sabe? É preciso dar chance pro azar. Quantos fins imaginários podem sustentar nossas práticas... Mas mesmo que haja possibilidades de não-ser, termino minha aposta viva, com vida, e tendo vivido um pouco do que tangencia a morte: entre o horror e o belo.
Vivi mortes em vida. Abandonos, solidões, crises, mordidas, desencontros, perdas, despedidas, faltas. A vulnerabilidade é uma conhecida da qual quero distância. Apesar disso quero ficar velha. Só não fica velho quem morre novo.
Eu queria que a vida fosse uma escada ascendente. Com isso aprenderíamos muito, cresceríamos e morreríamos bem. Mas, se existe uma escada a subir, alguns sobem na escada do entendimento da vida e aceitam mais resignados ou resilientes as suas condições e intempéries. O fim da vida é apenas o fim da vida, merece tanta dignidade quanto os outros pedaços. Dignidade que nos preenche e nos falta ao longo do percurso.
Com sorte teremos aproveitado os momentos em que encontramos pares, as alegrias pontuais e belezas fugazes. É o possível e precioso ar da vida.
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Arriscando vida
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Processo de escrita
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Você aprendeu a amar?
A profissão que escolhi é das coisas mais loucas que esistem. Sou onde não penso, a gente estuda pra aprender a não saber. E é muito difícil, pode ter certeza. Como você vê: estou às voltas por tudo que eu gostaria de saber fazer adequadamente. Minha inadequação é, por um lado, absoluta, por outro, sou verdadeira marionete da cultura. Falam sobre como eu amo sem sequer terem me perguntado! E ainda me identifico! Um absurdo daqueles!
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Viola no saco ?
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Ypuca
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Ingratos
O problema da ingratidão é que ela já é, de saída, retroativa. Ela vem de uma ação anterior à qual se deveria ser grato. E mais do que isso: mover-se no sentido de reconhecer aquele benefício ofertado.
Como funciona a relação entre as pessoas de modo que a ingratidão seja aposta à mesa? Me parece que em geral a ingratidão vem de uma dívida não declarada ou de uma doação acima do regular, do possível, do aceitável. Quem dá, dá mais do que tem para dar e quem recebe, recebe achando que está tendo uma oferta de doação. No entanto, o que acontece é que o contrato não assinado estava implícito. Mas apenas para uma das partes. Ele foi considerado óbvio. Quem doa se sente onerado ou entende que o outro deveria fazer da mesma maneira. Mas o que eu tenho para dar não é o que você tem para dar. O que você tem para dar nem sempre eu terei. Inclusive se preciso é porque pouco tenho para dar, no entanto, se dou é preciso que seja de coração.
Quem dá de coração o faz por autorrealizacão. A realização está no ato da oferta, que sai natural, que não pede troco.
Acontece de não querermos receber algo que para o outro seria simples pressupondo o contrato do impossível. O contrato que não tem como ser pago e, mesmo que o outro diga que não há contrato, a gente recusa a oferta de modo a não contrair uma dívida.
Toda relação é desigual e sempre há um que dá mais e o outro que dá menos. Também é preciso notar que há os que sempre acreditam que deram muito muito muito e criaram dívidas enormes dentro de si.
Existem as marcas de cada uma das pessoas: há quem muito dê por circunstâncias da vida e há quem muito retenha também por circunstâncias da vida e quando percebemos que podemos usufruir da relação que a pessoa faz com a sua própria falta deixamos de enxergar o outro pensando apenas em nós. Não é uma equação simples afinal o universo do outro é sempre misterioso.
Posso agora lhes desejar uma boa noite. E, se você nada me disser de volta, irei dormir em paz, minha oferta, mesmo tão singela, consegue vislumbrar que a essa hora você já estava em outra. Um beijo. Um beijo já é uma oferta um pouco mais avançada... Se mando-lhe um beijo que tipo de retorno me dará? Mandarei beijos fácil demais? Deveria escolher momentos mais certeiros? Quantas formas de amor medimos nos nossos encontros? Ingratos, depois de tudo que fiz...!
D. Florinda: o senhor também é tão simpático
Prof Girafales: a senhora é tão linda
D. Florinda: o senhor também é tão simpático
Música: é isso aí - Casuarina
sábado, 4 de outubro de 2025
Né?
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Amor e Ódio
quinta-feira, 18 de setembro de 2025
Pedras
E pedrinhas mais comuns, miúdinhas fazem meu chão
Pedras um pouco maiores sinto pontudas sob meus pés
As um pouco maiores fazem ilhas onde saltito seguindo caminhos
E tão, tão maiores que as escalo e sento para descansar
Sinto que sou pesada
Muito pesada, muito mesmo
As roupas GG mal me servem
Sou grande, enorme, muitos lugares comuns nem têm roupas pra mim
Devo ser quase gigante
Praticamente uma aberração
E, assim sendo, quem me aguentaria ao me dar a mão?
Pedras me aguentam, e olho pra elas pensando quem será mais pesada: eu ou ela?
Em geral, nelas eu confio
Sua força e solidez são capazes de dar-me suporte
Mas algumas, apesar de grandes, cedem como gangorras e me assutam com sua instabilidade
Outras, escorregadias, apesar da capacidade de me terem, traiçoeiras, não me querem
Fui subindo o rio observando essa companhia tão variada e presente
Pedras por todo lado
Quais as pedras escolho por meu caminho?
Numa tem se alojado muitas árvores e, mais cedo ou mais tarde, essa floresta deslizará no escorrega de pedra, ou seja, a montanha
Do outro lado vejo a pedra mais bruta e uma sorte de centenas de bromélias a enfeitando
O chão da minha vila tem pequenas pedrinhas menores que as britas, onde meus filhos adoram derrapar de bicicleta
E do lado de fora colocaram paralelepípedos, nada mais são que pedras retangulares...
Percebo uma ampliação da minha percepção: o mundo é sobre pedras
Excentricidade
domingo, 7 de setembro de 2025
Comida é pasto, você tem fome de quê?
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
Indignos
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Festa de São João
Eu me anuncio como não-religiosa. Vivo entre o ateísmo e o agnosticismo.
Eu não tenho mais escola há tempos. Mas a escola dos meus filhos felizmente também é minha.
E nessa escola se faz uma festa junina muito bonita, cujo ápice eu considero o ritual da fogueira. É como se fosse um registro da beleza do que acontece naquela casa, a Casa Áurea.
No entanto, eu de reconhecer, é um ritual carregado de espiritualidade. E me pergunto intrigada, onde essas falas, dirigidas ao transcendental, me toca no meu íntimo.
Eu que, não religiosa, se há um pai nosso coletivo, me emociono.
Eu que, numa subida de montanha, sou capaz de adjetivar como "divino" algo de extrema beleza.
Eu, que visito de tempos em tempos a religião onde cresci e que de alguma forma me habita, cuja máxima que mais valorizo é a integração com a natureza.
"Senhor São João, venha receber essa festa linda que fizemos pra você. Com a santa luz divina, ilumina o meu batalhão. É humilde essa oferenda, é de bom coração." E "meu são João, meu são João, hoje será sua festa. Saldemos sua bandeira! São João mandou, são João mandou cantar e dançar a noite inteira para louvar a fogueira."
Me emociono.
Vou começar pelo óbvio: os professores da escola, que entram ritualisticamente e, passando o fogo uns para os outros, acendem a fogueira da festa. Ali são queimadas todas as picuinhas e desavenças. Mesmo que no dia seguinte esteja tudo igual. Ali eles evocam e atuam o que se pretende: que sejamos uma comunidade iluminada e quente, onde uns apoiam os outros promovendo o crescimento e desenvolvimento dessa coletividade. Fala do âmago da instituição e sua missão. É muito bonito e simbólico.
Mas tem algo de transcendente, algo nessa evocação do santo - que aliás eu acho muito honesto, já que fazemos a festa de São João nos meses de junho e nos afastamos dele chamando de festa junina. Gostamos tanto que acrescentamos festas julinas e até agostinas. Mas é originalmente uma festa de São João. É parte da cultura. E ali o cara é invocado, convidado a estar presente e presenteado. E à ele se pede a santa luz divina.
Me emociono.
É tão difícil sustentarmos coletividades. Diferenças são nossos pontos fortes mais fracos. Temos dificuldades de relacionamento, de entendimento, de existir. Erramos querendo acertar. Não gostamos de estar errados. Temos medo de nos desestruturarmos sem um amparo egoico que garanta: eu sou. Haja santa luz divina para nos mantermos de pé. Somos seres sociais apesar de todas as dificuldades que se impõe às nossas inserções sociais. Manter um coletivo de pé com ideais colaborativos é um ato de coragem, ousadia, haja amor, força e luz para manter movimentos como esse de pé.
O santo não me invade. Ele é outro, não tem relação direta comigo. Não é nem Deus nem filho dele. Eu bem sei que se invocarem Deus eu posso passar da emoção ao arrepio. Acredito mais num santo que num Deus. Santo é aquele que, de carne e osso, conseguiu uma firmeza de propósito que conferiu a ele um reconhecimento. Eu não reconheço santidades, eu desconfio dos milagres, mas eu acredito no ser humano e na sua capacidade de transcender.
E na escola é o que é preciso: transcender em busca de um objetivo comum: a melhor educação para aquelas crianças. Uma formação integral, considerando as multiplicidades. Hoje foi essa festa! Que nossa escola consiga atravessar suas próprias pequenezas a caminho de uma santificação. Ou seria cientificação? Como me diziam: ciente fica são. É por aí!
14/07/2025
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
Vazio
Hoje eu ia ao Hospital. Eu sou meio distraída e fiquei irritada comigo mesma em ter ido para o hospital errado. Fui de ônibus e eu não simplesmente errei a parada: eu entrei, peguei meus documentos, informei o quarto e o nome da paciente. O quarto estava vazio e eu rapidamente percebi a minha gafe.
Peguei um táxi, coisa que não faço há anos. Quando sentei e pedi para me levar, senti um embrulho no estômago. Percebi, naquele momento, para onde eu estava indo.
Fui pra emergência e me pediram para ir ao prédio ao lado. Eu parecia ter esquecido que existia o prédio ao lado. Desci a rampa com um mal estar maior ainda. Lembrei da sala de espera antes de estar nela. O tempo na fila para dar os documentos pareceu uma eternidade.
Abriu-se um portal para um mundo melhor e mais bonito quando eu abri a porta do quarto. Estava tudo bem. Aqueles olhos conhecidos, calmos e vivos, me receberam.
E só consegui entender melhor tudo isso quando fui descrevendo minha ida, minha recusa -depois tão evidente- em estar naquele lugar.
Lembrei das sensações... Da inconformidade de que o mundo seguisse como se nada estivesse acontecendo. O minuto de silêncio é tão necessário apesar de insignificante. A vida corria lá fora de mim e eu estava num silêncio eterno. A minha vida fora sugada por aquela morte. Nada tinha cor, nada parecia bom. Nada era o que tinha de melhor. Queria me juntar ao nada. Deixar de ser.
Lembrei dos pinheiros que me observaram naquela tarde e recolheram minhas lágrimas. Contei com eles, os observei como se pudessem ser meus amigos. Neles nada era fútil, nada era inútil. E meus pensamentos de vazio eram, de algum modo, compartilhados.
Lembrei do entra e sai de gente doente, com corpos em falência, de olhar para as pessoas pensando o quanto elas estavam atravessando em silêncio e sem a chance de poder parar. Ver os olhos ativos, operacionais, sem que eles descrevessem o desespero da incerteza que o hospital traz. As pessoas vivem com cada dor escondida...
Não estive na sala onde vi o corpo dele sem ele pela primeira vez. Retirei um pouco dos cabelos dele pedindo autorização a um enfermeiro. Seria um crime a violação dos cabelos de um morto? Estão na minha cômoda. Tão vivos e tão mortos...
E essa narrativa não culmina em nenhum lugar. É apenas isso: um testemunho. Ela será enterrada junto e dentro de mim. Todas essas emoções que me pertencem, essas memórias perturbadoras que me acompanham, essa ausência infinita, foram enterradas dentro de mim para que eu pudesse me juntar às pessoas operacionais, que andam por aí vivendo com dores bem escondidas. Esse buraco que é tão grande e profundo que só saindo de perto dele para poder voltar a enxergar colorido e o mundo fazer algum sentido. Mas quando a gente chega assim: tão perto; todas as graças parecem vazias de palavras .
domingo, 27 de julho de 2025
Integridade corporal
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Sem mais
domingo, 20 de julho de 2025
Reset
sexta-feira, 18 de julho de 2025
Filha de peixe
quinta-feira, 10 de julho de 2025
Envelhecimento
De vez em quando concluo que ficarei velha. Por enquanto, é bom explicar, sou jovem. Esse envelhecimento tão dado e tão fatídico vai sendo realizado paulatinamente... Sinto que meu corpo, ainda com sinais pontuais de desgaste, não me falou bem o suficiente sobre isso.
Não me preparei para esse processo. Não sei o que é. Parece que não vai chegar. Acreditando que, quando acontecer, eu me viro, sei que faço uma escolha falsa, a qual não assumirei no futuro. Lá na frente acho que direi: não sabia o que estava fazendo.
Lembro de meu pai que, orientado sobre as diabetes, seguiu a via das orgias alimentares. Quando o médico lhe disse: "olha, Sr José, nao sei o que o senhor está fazendo, mas se seguir fazendo exatamente assim, o senhor vai ficar cego", ele tentou com mais afinco. Sinto pena. Eu o entendo na insistência de não saber. Recusa da realidade? Qual realidade recusamos? Pergunto antes que os juízes de plantão apontem seu dedo.
Tarde demais... A diabetes fez estragos mesmo no corpo dele. Não chegou a ficar cego. Não chegou a perder pedaços de si. Morreu de câncer generalizado, com menos prazer na alimentação, com fisgadas da polineuropatia, dificuldades de locomoção.
Mas não vim aqui falar dele. Vim falar de envelhecimento. No meu projeto ideal, quando o limite for o suficiente eu darei um jeito de não prosseguir. Esse é, era, seria o plano. Plano que foi adiado por pelo menos uns vinte anos com a chegada dos filhos. E agora me pergunto: que ponto será esse, o do limite? Terei mesmo vontade suficiente de me despedir? E se tiver motivos fortes o bastante para desejar prosseguir - apesar do corpo, apesar das circunstâncias financeiras, apesar dos maus sentimentos, dos desencontros...? E se eu valorizar os encontros, a arte, o que foi possível, os amores?
Terei de lidar com o corpo. Que vai oxidando enquanto eu ainda o ocupo. Que não espera que eu já tenha aproveitado o suficiente. Que não me deu informações o bastante para saber o que fazer ou manual de como tê-lo melhor cuidado.
Será que consigo um meio termo?
quarta-feira, 9 de julho de 2025
Sexo frágil
terça-feira, 24 de junho de 2025
Risco de vida
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Entre guerras e sonhos
segunda-feira, 16 de junho de 2025
Eu?
quarta-feira, 11 de junho de 2025
Açú
quarta-feira, 4 de junho de 2025
Castelinho rapidinho
terça-feira, 27 de maio de 2025
Em mim
terça-feira, 20 de maio de 2025
Sentido da vida
O sentido da vida...
Qual é?
sábado, 17 de maio de 2025
100 anos
segunda-feira, 5 de maio de 2025
Gostares
Mas atenção demais é melação (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu dou a ela espaço
quarta-feira, 23 de abril de 2025
Um amigo vivo
Existem pessoas irresponsáveis. Todas são. Porque não é possível responder por tudo. No entanto, há algumas que vão se irresponsabilizando ao infinito. E, no limiar entre a irresponsabilidade, o azar e a tragédia, um motociclista empina sua moto na contramão e atinge outra pessoa. Ele responde pelo seu crime abandonando seu corpo contorcido no chão. Não está mais presente para que possamos xingá-lo ou para ver a quantidade de problemas ele causou num corpo alheio.
O corpo alheio é do meu amigo. Foi atingido pela moto. Tangido por uma brincadeira irresponsável... "Que saudades", é o que digo a ele todas as vezes que nos falamos. É um amor antigo e especial na minha família. Com ele temos diversas fotos maravilhosas que nos lembram os bons momentos vividos e registrados. Nossas conversas madrugada a dentro, o olhar que recebe reciprocamente de forma tão vasta. Hoje recebe no corpo bastante dor, diversas cirurgias com ferros que possam substituir seus ossos.
As responsabilidades que ele assumia estão com cargo aberto para quem possa fazer muitos dos seus feitos até mesmo em termos de auto-cuidado. Alguém que lhe escove os dentes, após tanto tempo tendo assumido essa função consigo mesmo.
Vivo. Ele reocupará um lugar. Tendo tido a chance e a dor de não ocupar mais. É uma morte em vida onde o corpo sofre reconstituições e a vida também precisará tomar outra forma, ainda que ele escolha por reassumir exatamente de onde parou.
Quando ele voltar a escovar os próprios dentes, a mão que segura a escova não será a mesma. Ele precisará aprender a segurar de novo. E ele sentirá a dor de conseguir. Poderá escovar os dentes com autonomia, observando, entendendo, de quantas graças se faz uma escovação de dentes.
As relações assumiram pausas. É bem verdade que, como ele está vivo, as pessoas se fazem presentes. Mas é uma presença diferente. Um reencontro de muitas possibilidades. De coisas que não foram ditas e agora serão. De cuidados que não foram postos e agora aparecerão. De dívidas e saldos...
De quantos desvios de rota precisamos para validarmos e considerarmos a preciosidade de estar vivo? O que é encontrar o outro, vivo como eu?
segunda-feira, 31 de março de 2025
Tudo prontinho
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver
Você pode retirar
Numa flor que tem espinho
Você pode se arranhar
Se o bem e o bem existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
quinta-feira, 6 de março de 2025
Mulher na montanha
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
Banal cotidiano
Ontem eu fui numa médica para que ela avaliasse meu tímpano. Por conta do horário fui sozinha e de ônibus. A primeira surpresa foi o quanto ouvir música com fone no ônibus me transportou para outro tempo. Depois tive o prazer de andar no meu ritmo acelerado de sempre - de um sempre que já faz tempo, de quando não tinha filhos. E depois, quando retornei, eu atravessei a rodovia super leve mas desci a trilhazinha pensando que era bom não escorregar ali porque não teria ninguém pra me ver e eu ficaria ali estatelada até sabe lá quando. E percebi como que, mesmo tão pequenos, andarmos juntos também me confere alguma segurança. Depois fui chegando na rua do bairro e me aproximando da ponte vermelha senti um vazio. Tantas e tantas são as vezes que chego ali com os meninos. E zelo pela segurança deles exigindo que não fiquem no meio da rua e topo as brincadeiras deles e todas, todas, todas as vezes pelo menos um deles cata uns galhos pelo chão para jogar no rio e avaliar os efeitos. E tinham galhos caídos e tinha o rio e a ponte... E um silêncio... Um triste silêncio, confesso. Por muito pouco não peguei eu mesma um galhinho para jogar no rio e cumprir com a beleza daquele momento. Mas a beleza não está no galho, não está no jogar, nem no rio em si. A beleza somos nós vivendo esses momentos de rotina e usufruindo da beleza das águas que levam galhos, dos galhos que encalham, dos ditos cuidadosos repetitivos, no observar se tem alguma nova teia de aranha por ali e, assim como cada galho faz um caminho segundo a corrente de água onde ele cai, cada vez que passamos, tão iguais e tão diferentes, fazendo as mesmas coisas mas de uma forma única até o dia em que esses passos não serão mais a nossa rotina, foram mudando, mudando, e ficarão as tão boas lembranças desse cotidiano banal que hoje me fez falta.